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Skredhistorikk

In document Regional varsling av jordskredfare (sider 28-35)

No Brasil, a arte de propósito político – e na gravura – decorre, em grande parte, das associações, pois esteve, desde o início do modernismo, até meados da década de 1950, pautada nas preocupações de cunho social e cultural, acentuadamente manifestas pelos clubes de gravura. O objetivo desses clubes era congregar intelectuais de esquerda, para que, por meio da gravura, fizessem circular suas idéias políticas em defesa da sociedade.

Influenciados pela gravura de Käthe Kollwitz(1867-1945), artista alemã que expõe na cidade de São Paulo, em 2 de maio de 193318, pelas gravuras chinesas, tidas como armas de guerra, pelas revistas culturais de tendência esquerdista e, especialmente pela Revista

Gráfica Popular do México, os artistas do Rio grande do Sul, liderados por Carlos Scliar,

fundam o primeiro clube de gravura, do Brasil, em 1950. Conforme Pedrosa (1986), os artistas se entregavam, consciente ou inconscientemente, a uma operação, inteiramente inédita, ao produzir uma arte de caráter extrovertido, de massa, nas sociedades burguesas ou nas sociedades em geral. Faziam o exercício, mas o exercício experimental da liberdade. A seguinte expressão de DJ Oliveira – “só faz gravura quem tem uma história para

18A exposição de São Paulo é realizada no Clube de Artistas Modernos (CAM), de São Paulo, com debate sobre

“as tendências sociais da arte” (PEDROSA, 1986, p. 278), do ponto de vista marxista. Posteriormente outra exposição é realizada pelo Clube de Arte de Santos, com reproduções de gravuras, denominada “Käethe Kollwitz – vida e arte”, enriquecida com o pronunciamento de uma conferência realizada na Associação dos Engenheiros de Santos, na noite de 30 de agosto de 1956, sobre a artista por Geraldo Ferraz.

contar” – decorre, certamente, desse pensamento: da necessidade da narratividade e da

figuração como mediadores da expressividade e da comunicação. A expressão remete ao pensamento de que a tendência de DJ Oliveira para contar histórias visuais (plásticas) esteja vinculada à dos artistas dos clubes, expressionistas, que buscaram na oralidade dos trabalhadores sustentação para as narrativas visuais plásticas. Por esta razão, tinham a figura como base de sustentação, construtiva, plástica.

A tendência expressionista surge no Brasil como modo de renovação na forma de representação visual, mas sem perder de vista a representação temática, e se constitui, em seu surgimento, como passagem entre o academicismo e tendências mais abstratas (LOURENÇO, 1995).

O êxito dessa modalidade expressiva, conforme Lourenço (1995), deve-se às diferenças sociais no Brasil, que o tornam uma espécie de solução, pelo visual das questões sociais, considerado satisfatório para denunciar os conflitos e, ao mesmo tempo, recuperar, ainda que pela atuação política, a capacidade e o lugar do artista na sociedade. Deve-se contar ainda a presença comunicativa almejada pelo artista, para legitimar o seu batismo, conforme Lourenço (1995), sem deixar de notar a presença da temática que contribui para facilitar a difusão da mensagem e sua decifração pela presença forte da figuração. Nessa ótica, DJ Oliveira (1975) diz que a figura está na sua raiz expressiva e “é por meio dela que pode passar o seu recado”.

A gravura, praticada pelos modernistas, de tendência expressionista, pelos Clubes de Gravura, testemunha tais afirmações, pois tem, nas histórias e na figuração, força expressiva como base de sustentação construtiva, plástica. Através dela vêm à tona os problemas urbanos e rurais da sociedade brasileira. As histórias visuais tornam-se base da expressividade, e a figura, o modo de efetivar a comunicação, objetivo dos grupos.

Somente faz gravura, especialmente figurativa, aquele que tem uma história para contar. Meu tema é figurativo e tem o homem como elemento principal. A gravura tem uma característica particular, mas sempre tem um lado poético e também político-social. Não é uma arte extrovertida, mas intimista. É uma também alquimia. (DJ OLIVEIRA, 1996)

Tanto do ponto de vista da figuração quanto das técnicas de impressão, a gravura dessa fase tem, nos princípios de construção e na apropriação da matéria (narrativas e assuntos do povo), forte ligação com a oralidade. Ela busca, nas histórias dos trabalhadores do campo e da cidade, os fundamentos de sustentação para suas construções plásticas.

Busca-se, pela gravura, uma outra forma de contar, ilustrar ou denunciar para o público a história dos problemas da sociedade. Por meio da imagem impressa, os artistas contam o dia-a-dia dos trabalhadores. Desse modo, o fim da arte, para os artistas dos clubes, estendia-se para além do estético, e rumava em direção a uma atitude engajada, política, cuja meta era superar o meramente belo. A gravura dos artistas destacava o comprometimento da arte com a sociedade em uma função social, política.

O objetivo [dos artistas e da gravura] era valorizar os aspectos nacionalistas, democratizar o acesso às informações artísticas e conscientizar a população sobre os perigos de um mundo dominado por um sistema econômico que, em nome de uma suposta modernidade, mantinha dois terços da população do planeta na mais ampla miséria. (COSTA, 1994, p. 14)

A gravura desse período centrava-se na figura humana. O foco gerador das temáticas era o homem no seu cotidiano de trabalho, em diferentes ambientes. Os clubes têm como meta poética contar, pela arte impressa, o drama do proletariado. Revelam forte preocupação com os problemas de ordem político-social, educacional e cultural. Preocupam-se com o cotidiano do trabalhador.

A problemática nos temas de DJ Oliveira evidencia sua preocupação para com os fins da arte, com seu papel social. Deixa transparecer ao observador suas insatisfações e críticas à sociedade. O drama retirado das narrativas da cultura universal e do lugar para construir sua obra parece querer revelar, por meio da gravura, o seu próprio drama existencial perante a vida. Comenta o artista, ao falar da série Via Sacra, em madeira, de 1981: “Queria passar, pela Via Sacra, a situação de alguém que estava sendo agredido e tinha que agredir” (DJ OLIVEIRA, 1996).

O comportamento dos artistas diante das escolhas da gravura como meio de expressão, as atitudes em relação à arte (à função) e o interesse dos gravadores pela figuração revelam, embora não simultânea nem generalizadamente, terem suas bases expressivas centradas no expressionismo.

Essa tendência origina-se no Brasil com Anita Malfatti, considerada defensora do movimento, embora tenha sido mal interpretada por Lobato (LOURENÇO, 1995). O movimento se adentrou aos anos 1960, com ênfase nos aspectos político-ideológicos, contrariando as novas preocupações estéticas do momento – o abstracionismo.

Posta a discussão sobre os motivos que possam ter levado DJ Oliveira a fazer gravura, considera-se que além do seu desenho adaptar-se bem à figuração, parece acontecer

especialmente pela preocupação em expandir a obra ao público. Para isto, necessita da gravura como meio de ampliação da comunicação. A figuração surge pela necessidade narrativa, que, por sua vez, se desencadeia da necessidade de criar personagens para as histórias visuais. Mas tudo isto acontece pela crença no papel social da arte pela comunicação. Diferentemente dos adeptos de uma visão de arte pura, sem a preocupação com as circunstâncias sociais, econômicas e políticas – que defendem a arte pela arte –, o artista deixa transparecer seu compromisso em atingir o ético pelo estético, através do plástico. Essas são posturas presenciais no discurso dos artistas dos clubes e em DJ Oliveira. Nota-se isso pelos temas adotados e pela força que tem a figuração na sua obra.

Ao recorrer à técnica do mural e da gravura, o artista manuseia um instrumento de guerra, arma política. Pelo visto, essa não foi uma postura exclusiva apenas dos clubes de gravura do Brasil, mas de muitos outros artistas que marcaram na história da arte impressa posição: firme na luta pelas mudanças sociais. Como exemplo de outros artistas que também que recorreram a essa forma de arte como instrumento político, constam: Francisco Goya (1746-1828); Honorè Daumier (1808-1879) e José Guadalupe Posadas, de Águas Calientes, México (1851-1913), gravador popular mexicano, que pratica uma gravura comunitária e através dela comunica suas idéias políticas ao público.

O espanhol Francisco Goya foi o mais mordaz de todos os críticos, satirizando autoridades eclesiásticas e civis. Lutou contra as convenções e dogmas. O conjunto de 72 obras Caprichos foi feito em quatro anos. Em seguida, fez a série Provérbios, com 18 estampas, também de caráter crítico social. Fez ainda uma série de gravuras sobre os horrores da guerra, com 82 estampas, gravadas durante a ocupação francesa da Espanha. O que o motivava a fazer suas gravuras eram as injustiças, especialmente, causadas pela Inquisição.

Honorè Daumier (1808-1879), artista francês, é outro importante gravador que utilizou a litografia para lutar contra a tirania e a hipocrisia de sua época. Com a imagem litográfica criticava os problemas de sua época, com uma gravura a serviço do protesto.

José Guadalupe Posadas, com divulgações de histórias tradicionais do povo – acontecimentos políticos, fenômenos de natureza animal, fuzilamentos, assassinatos, crimes, Dons Chupitos, cozinheiras, Fandangos – denuncia os horrores da guerra, cujos temas são tratados irônica e criticamente, com sagacidade e humor. Nas suas placas registra cenas ocorridas durante as duas violentas transformações sociais e as sangrentas intervenções

militares e as reações causadas pelas Reformas e lutas de Juarez, partilhando e agindo desde os primeiros movimentos de revolta até à ascensão do Presidente à frente do poder. Movido pela sensibilidade estética, conjugando necessidades internas e externas, o artista une à técnica da xilografia sua realidade poética, associada aos desejos das massas. Exerce sua capacidade criadora aliada às exigências sociais numa articulação harmoniosa que sintetiza a comunicação artística (CAVALCANTE, 1991).

A alemã Käthe Kollwitz, que influenciou política e esteticamente os clubes de gravura no Brasil, também faz gravura com propósitos políticos. Mas, talvez, a intenção de DJ Oliveira, ao explorar a figuração, tenha sido narrar sua própria história.

Para o artista, fazer gravura significa contar algo misterioso. Mas o misterioso pode estar relacionado a saber falar dos problemas humanos. Por esta razão, mostra que as histórias não podem ser contadas de forma vulgar, “mas com requinte”, diz o artista (DJ OLIVEIRA, 1996). Todavia, requinte pode referir-se tanto às capacidades subjetivas para falar do assunto quanto às habilidades para materializar a obra. Mistério também pode referir-se à criação, ou ainda à própria natureza da gravura que, por ser um meio indireto, não dá ao artista uma visão objetiva do resultado. Mesmo que tenha uma certa previsão da imagem, ele poderá sempre ter uma surpresa.

Não ser vulgar pode significar ainda a busca de um engajamento político e preocupação com o aspecto social, recuperado pelo conteúdo e pela distribuição da obra, já que DJ Oliveira descende de uma geração de artistas que tem, na figuração, a força para a construção do discurso crítico através do plástico, da imagem. Representa uma geração cujo compromisso político com a arte torna-se, de certa forma, um meio de atuação, de militância. Em vista disso, desse compromisso e da necessidade de saber produzir uma boa estampa para falar do subjetivo, DJ Oliveira afirma, ainda, que a gravura exige muito do artista: “A gravura vai exigir, pela sua complexidade, reflexão constante, e, em inúmeras situações, nas diversas etapas da produção da obra, e, evidentemente, muito conhecimento acumulado” (DJ OLIVEIRA, 1996).

Fica claro, tanto pelos temas quanto métodos de gravura e forma de construção das narrativas visuais de DJ Oliveira, que não ser vulgar torna-se para a geração de gravadores modernos condição sine qua non para a produção de uma imagem que intente objetos – conteúdo – e não apenas objetivos estéticos, mas também vise buscar um engajamento político e desempenhar um papel social.

Embora Goiás não tenha vivenciado essa experiência, do ponto de vista do surgimento de um clube, muitos artistas do movimento, entre eles o líder Carlos Scliar,19 estiveram em Goiânia, participando do I Congresso Nacional Brasileiro de Intelectuais. O congresso foi aberto com a Exposição Nacional de Artes Plásticas. O evento sediado pela EGBA abre-se em fevereiro de 1954, sendo considerado o deflagrador do pensamento moderno em Goiás (GOYA, 1998).

O acontecimento tem repercussão nacional e internacional e congrega artistas das várias áreas das artes (dança, música, teatro e artes plásticas). Conta com a presença de intelectuais não só do país, mas da América Latina, e enriquecido pela presença de intelectuais de todos os campos do conhecimento, com discussões, na nova capital do estado, de problemas considerados avançados para a época.

Na pauta desse congresso, constavam assuntos como a preservação da cultura brasileira, a eliminação do analfabetismo, a liberdade de imprensa, a gratuidade e a defesa do ensino, a dotação orçamentária para a cultura, a liberdade de associação cultural e profissional, a liberdade de criação, dentre outras reivindicações posteriormente restringidas à sociedade brasileira pela ditadura militar na década de 1960. Vale registrar que o referido congresso despertou a atenção e comentários de países como a Argentina e a França.

Embora DJ Oliveira, que chega a Goiás em 1956, não tenha encontrado um clima favorável ao seu trabalho, o Congresso Brasileiro de Intelectuais já havia acontecido e, de certa forma, começara a preparar a sociedade para as inovações modernistas. O evento, assim, propicia um clima favorável à mudança e vem ao encontro das necessidades de fortalecimento da cultura urbana da nova cidade.

De certa forma, o congresso torna-se para as artes plásticas uma espécie de apoio ao ideal moderno já implementado, na cidade, na área da Literatura. A repercussão do congresso traz benefícios, tanto que parece facilitar, pela compreensão da obra de DJ Oliveira, a sua entrada para o corpo docente da EGBA.

A repercussão do pensamento moderno pode ser sentida não somente no apoio a DJ Oliveira, mas em muitos outros artistas ligados à escola de arte, onde esses ideais instalam-se

19 Também participaram do I Congresso Nacional de Intelectuais de Goiânia os gravadores: Carlos Oswald, João

Quaglia, Glênio Bianchetti, Marcello Grassmann, Mário Gruber (diretor do Clube de Gravura de Santos, SP), Rebolo Gonçalves (pintor e gravador) Osvald Goeldi, Renina Katz, Gilvan Samico, Glauco Rodrigues, Vasco Prado, Maria Della Costa, Danúbio Gonçalves, Hofstetter, Plínio César Bernhard, Edgar Kotz, Darel Valença Lins, Alfredo Volpi, Lôio Persio e Abbelardo da Hora (diretor do Ateliê coletivo do Recife).

e se propagam. Da escola surgem os primeiros artistas e, através deles, as primeiras participações importantes em salões do país.

Todavia, os ideais dos clubes de gravura, assim como os do Grupo Santa Helena, podem ser notados em DJ Oliveira não só nas temáticas de cunho social, os quais são marcadas pela sua origem, mas, especialmente, por reforçar a postura rebelde e engajada, politicamente. Pela sua trajetória de vida, DJ Oliveira parece ter optado pela gravura não apenas por ser a impressão um meio de elaboração de uma linguagem, mas principalmente por vir ao encontro dos seus propósitos estéticos, político-ideológicos, como se expressa: “Sempre estou do lado dos oprimidos. Eu uso a minha arte para defendê-los. Não só como manifestação pessoal, minha, mas também como arma” (DJ OLIVEIRA, 1996).

DJ Oliveira credita que a arte impressa possa favorecer, pelo baixo custo, a divulgação de seus ideais. Na ressonância desses ideais, em Goiás, o artista comenta: “A gravura nasceu, digamos assim, para atender à possibilidade de compra. Tornar-se mais fácil você fazer uma tiragem de cem cópias e ter um preço mais acessível de modo que todo mundo possa adquirir” (OLIVEIRA, 1996).

Para Ferraz (1956), a gravura praticada pelos clubes destinava-se, na verdade, a uma espécie de serviço social, para a época, necessário e urgente à população, por ser considerada capaz de propagar, divulgar e ensinar o que era arte, suas características e sua história, obras e figuras representativas à área.

METODOLÓGICOS PARA A LEITURA DOS DOCUMENTOS DE DJ

OLIVEIRA

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