Em Goiânia, DJ Oliveira foi levado a fazer opções entre Artes Aplicadas e Artes Plásticas. Redimensionou sua carreira antes centrada na cenografia e decoração, para a pintura. As interferências da mudança para Goiás podem ser vistas a partir do seu novo projeto de trabalho, marcado pelo auto-retrato (Figura 1). No quadro vê-se a transformação da figura.
Agora, em um novo ambiente, DJ Oliveira vê-se impelido a mudar suas atitudes e comportamento perante a arte, cujas posturas eram claramente notadas por meio de seus documentos, bem como de obras que mostram as suas escolhas feitas, além de tomadas de decisão que apontam novos paradigmas construtivos. Pelos documentos de criação, vê-se o quanto a mudança de espaço, de uma região para outra, passou a interferir no seu processo de
criação, não só com respeito à opção exclusiva pelas Artes Plásticas, mas também com relação às novas percepções sobre a arte, aos modos de produzi-la e às interferências do novo lugar na produção de DJ Oliveira.
Com a mudança para Goiás, seu olhar se modificou e se transformou, em busca de algo novo e de adaptação. A arte aplicada não lhe era mais suficiente às suas novas necessidades expressivas, e outras buscas foram inseridas no projeto do artista. Desencadeiam-se como parte desse seu novo projeto de vida: ser artista plástico. Atento aos acontecimentos do novo lugar, o artista revela ter estado alerta na busca de novas impressões e de novas comunicações, para retirar a matéria a ser levada à obra. O novo lugar sensibiliza-o pelas histórias e temas eleitos. Com eles, move-se em direção à realização de um novo fazer artístico.
Da busca incessante nascem outras experimentações formais e linguagens, mas a pintura torna-se, em princípio, o seu desejo maior. As artes plásticas entram em sua vida, e seu trabalho passa, agora, a refletir, por meio das técnicas de têmpera e acrílica, uma outra atmosfera plástica, não mais ligada aos cenários cinza, enfumaçados e sem luz das paisagens que fazia na cidade de São Paulo. As paisagens da periferia paulista feitas pelo Grupo Santa Helena refletiam o clima frio e escuro da cidade. Ao contrário, as paisagens nascidas no novo ambiente são construídas de cores e formas de tendência luminosa, impressionista.
Todavia, o que se pode perceber através dos documentos, pela visibilidade das imagens neles evidenciadas e pela forma crescente com que a figuração se apresenta (estudos precisos e figuras expressionistas), é que, no primeiro momento da sua carreira, o esforço de DJ Oliveira centra-se no aprendizado e na busca do domínio das técnicas do desenho. Dedica- se a apreender a realidade natural das coisas (objetos e figuras), tal como são vistas, e a representá-las. A meta do artista parece ter sido a rigorosa representação, via construções formais bem-elaboradas, precisas. A preocupação do artista, nesse primeiro momento, centra- se no acúmulo de experiência técnica para construir formas, fazer representações, a fim de, quem sabe, desconstruí-las depois, em tempos e espaços futuros.
No novo ambiente, novas realidades, assim como novas temáticas, são incorporadas à pintura. Reflexos da luminosidade do lugar surgem em sua obra e se tornam presentes nas telas. Do mesmo modo, o mergulho nos aspectos da cultura regional faz-se uma constante nas suas pinturas, pelos objetos e pela paisagem do lugar, acrescidas da inovação no uso das técnicas da pintura mural, afresco e vitrificado e depois pela gravura, linguagens adaptadas às
necessidades do novo contexto.
Acostumado a uma paisagem mais cinza e sem luz, em São Paulo, DJ Oliveira depara-se com um universo vivo e luminoso. Diz-se encantado pela luminosidade do Centro- Oeste, a qual é, mais tarde, fortemente refletida na sua pintura.
Eu achei a paisagem daqui muito mais rica por causa da região de cerrado e, fiquei assim, bastante impressionado com a luz do local e passei, então, a trabalhar, nesse sentido - de captar essa luz -, quer dizer, eu saía para o campo, levava minhas telas, minhas tintas, cavaletes... Pintava pelas ruas, praças e periferias da cidade. Eu registrei, nessa época, a periferia de Goiânia. Eu me punha a pintar! (DJ OLIVEIRA, 1996).
A pintura do artista, têmpera sobre tela, realizada a partir de 1960, revela-se como um novo ponto de partida, como um recomeço. Mostra-se como resultado de uma revolução interna e ao mesmo tempo externa, ao refletir os resultados da comunicação com esse novo ambiente vivencial.
Sua arte resulta, agora, dessa soma de experiências anteriores e presentes; das adquiridas nos ateliês paulistas, na Fundação Armando Álvares Penteado e na Associação de Arte, mas especialmente no Grupo Santa Helena, com o qual reforça conceitos sobre arte, introduz-se na gravura e desperta para uma nova forma de construção do espaço plástico.
A mudança para Goiás impulsionou a renovação de seu trabalho e o levou a mudar não somente a forma de construção do espaço plástico, mas também a apoiar-se mais amplamente nas narrativas, do lugar e da cultura, para construir plasticamente sua obra. Mas DJ Oliveira começa a repensar seu novo projeto plástico pela luminosidade da obra.
O que se pode observar no auto-retrato é que o quadro, de tendência impressionista, se apresenta, de certa forma, como um marco divisor da percepção do artista. Tornou-se o ponto de referência dessa mudança não apenas de lugar, mas também de percepção, decorrente do estabelecimento de um novo modo de olhar, que passou a marcar sua obra pelas cores e pela luz (Figura 1).
O outro auto-retrato (Figura 2), por sua vez, vem denunciar, pelas diferentes pinceladas e pela maneira de abordar a figuração, a transitoriedade do olhar do artista, que oscila entre naturalismo e impressionismo. Dá evidências, pela abordagem dada às figuras, à não-linearidade do olhar. Mostra pelos traços de representação da figura, pelo ir e vir da gestualidade de DJ Oliveira, o caminhar em busca de novas maneiras de construção. Seus auto-retratos revelam a movimentação do olhar em busca de saídas para resolver a obra.
Nesse processo de transformação, o ambiente e a cultura do lugar tornam-se – pela presença das cores, objetos, luz e paisagem – referências da mudança.
Figura 1 – Auto-retrato (DJ Oliveira,1960, óleo
sobre tela, 0,80cm x 0,65cm). Figura 2 – Auto-retrato (DJ Oliveira, 1984, têmpera sobre tela, óleo sobre tela, 1975, 55cm x 46cm).
O artista assimilou e leva para a sua obra inovações que se denunciam as mudanças e, ao mesmo tempo, a transitoriedade, por não se fixarem no seu processo de criação impositivamente. O auto-retrato (Figura 1) indica os novos rumos de sua pintura. Informa que algo diferente começou a acontecer e a se fazer presente, interferindo não somente no seu modo de pintar, naturalista, mas na maneira de ver o mundo, cheio de luz, com figuras de pinceladas fragmentadas, dividindo sua produção em dois momentos distintos: passado e futuro. O artista saíra, pelas pinceladas rápidas, cores e luminosidade, do naturalismo.
O quadro constitui índice de uma nova etapa na vida profissional do artista, marco da sua inserção no novo espaço, da visão da nova realidade e do seu embate para encontrar no novo ambiente sociocultural não só a matéria, mas também sua maneira de fazer a obra. Reflete-se como resultado de uma mudança interna, mas também externa: da comunicação que estabelece no novo ambiente, com o lugar, com a cidade.
A partir do quadro, outras buscas inserem-se no projeto do artista, e nelas parecem não ter mais lugar as preocupações naturalistas. Sua pintura, que, nesse momento, parece diluir-se, aos poucos, rompe os limites formais e reflete-se, no auto-retrato, como um arco- íris, como um universo cheio de luz. Torna-se reflexo do olhar de DJ Oliveira sobre a nova paisagem.
A natureza a partir de então (do quadro) perde sua característica representativa, e o artista passa a apresentar pela obra novas propostas que se tornam evidentes pela percepção
da natureza, pela nova maneira de configuração plástica. Do Impressionismo nascem outras tendências, e entre elas o Expressionismo11 (1967), sustentado pelas formas modernas, distorcidas, redondas e exageradas, ou deformadas, muito presentes nas Madonas e nas séries de gravuras sobre Travessia do Cambaio (1967); O homem (1967); Mãe do Cerrado (1967), e outras. Todavia, ao mesmo tempo em que o artista mostra, no auto-retrato (Figura 1), um clima luminoso resultante da mesclagem de tons, como um arco-íris, se faz presente, na tela o cinza. Mas que não remete às paisagens paulistas do Grupo Santa Helena, mas reverencia a paisagem outonal do cerrado em tempo de queimadas. Trata-se de um tempo de morte para o ambiente provocada pelas freqüentes queimadas, mas também de revivescência.12 Ao mesmo
tempo em que destroem e escurecem os céus e as cidades de Goiás, as queimadas também renovam a paisagem do lugar.
A partir dessa pintura, o artista toma novos rumos, ao incorporar, na sua obra, assim como no seu processo de criação, outros materiais, entre eles as narrativas (histórias) do lugar.
DJ Oliveira começa também não só a se preocupar com uma nova forma de
11 A origem do termo expressionismo decorre de uma variedade de fontes. Porém, a primeira vez que este termo
foi utilizado, no sentido aqui explicitado, foi no catálogo da 22ª Exposição da Secessão de Berlim, em abril de 1911, para qualificar um conjunto de obras pictóricas advindas dos artistas fauvistas e cubistas: Henri Matisse, André Dwerain, Raoul Dufy, Maurice Vlaminck, Braque, Friesz e Picasso, em contraposição ao impressionismo e ao naturalismo, visto como arte da necessidade subjetiva, oposta à arte realista, exterior, e como a arte da projeção do Eu, oposta à imitação da natureza. Acredita-se que, em decorrência desse acontecimento, o termo tenha sido novamente utilizado na Exposição de junho do mesmo ano, na Sonderbund (Liga Especial), em Dusselford e legitimado por Wilhelm, conceituado crítico e historiador de arte que o utiliza novamente, em 1911, em seu livro Abstracion et Einfuhlung, com o mesmo sentido. É o processo em que a expressão determina a forma; “as cores e as próprias formas se tornam repositório da idéia pictórica” (DUBE, 1976, p. 8) e atinge o seu ápice lógico na arte abstrata. O termo é novamente utilizado num artigo de Paul Ferdinand Schimid, “Uber Expressisen”, publicado no número de dezembro de 1911, no periódico Reinland, desta vez, estendendo o seu sentido tanto aos artistas alemães quanto aos franceses, para denominar como sinônimo de avant-gard européia. Até 1914, a palavra Expressionismo surge e ressurge em vários outros momentos e contextos, impregnada de sentidos vagos e de questionamentos sobre os significados que pretendiam abarcar, quando então surge a primeira monografia de Paul Fechter, em Munique, sobre o assunto, como tentativa de uma unificação mais objetiva e de um movimento alemão, contrário ao Impressionismo e paralelo ao Cubismo francês ou ao Futurismo italiano – o avant-gard alemão, cujo berço dessa nova arte era Dresda e Munique. Porém, a problemática da eficiência do termo não se esgota aí. Em 1912, Wassily Kandinsky cita uma nota no seu ensaio “Uber das Geistige in der Kunst (Lo Espiritual em el Arte)" que dizia: “O expressionismo apresenta a natureza não como fenômeno externo, mas acima de tudo como elemento de uma impressão interior que recentemente foi denominada Expressão” (apud DUBE, 1976, p. 22).
12 Queimadas fazem parte dos costumes de quem vive no campo. É um comportamento próprio dos moradores
do sertão, praticado pelos criadores de gado e produtores de lavoura. Por essa razão, são freqüentemente praticadas, em Goiás e na região Norte do país. São utilizadas com o fim de renovação das pastagens ou para queimar o mato após a roçagem com vistas ao plantio. A região Centro-Oeste demarca-se pela paisagem de cerrado, com árvores retorcidas, solo vermelho e endurecido pelo clima seco, o que faz a pastagem ressecar. Daí decorre a prática. A finalidade das queimadas é destruir as pastagens velhas, ressecadas pelo calor intenso. É entendida como forma de trazer de volta a vida e a paisagem, ressecada pela estiagem. A prática das queimadas está tão impregnada nos hábitos do povo da região que pode ser vista, com freqüência, até mesmo nas cidades.
construção do espaço, sem perspectiva, mas a transformar o espaço plástico da obra. Nessa nova forma de construção pictórica, a perspectiva parece não ter mais lugar no espaço da obra, torna-se, portanto, desnecessária. No seu processo de criação, outros repertórios conceituais são inseridos: técnicos, estético e material. Outras memórias da cultura universal e vivencial, da nova realidade sociocultural do lugar, passam a fazer parte da memória do artista, como se verá no decorrer da análise da criação.