Na arte, a comunicação estabelece-se pela dinâmica, pela ação do signo – pela semiose –, durante a criação, e se evidencia em dois momentos diferenciados: pelo processo de criação e pela obra. Entende-se que a comunicação, associada à criação, se revela pelas trocas que o artista realiza com o seu contexto histórico, técnico, artístico e cultural (SALLES, 1998).
A comunicação pela arte, conforme Leite (2005), decorre do entendimento de que “a obra é sempre social – o próprio artista é, também, espectador de sua obra. Ela carrega em si suas próprias categorias de veracidade; forma e conteúdo caminham juntos”. Berger (1972, p. 14), ao falar da capacidade comunicativa da arte, diz que “nenhuma outra espécie de vestígio ou texto do passado nos pode dar um testemunho tão directo sobre o mundo que rodeou outras pessoas, noutros tempo”.
Durante a realização da obra, estabelecem-se diferentes formas de diálogos internos: do artista consigo próprio; com a obra que está em processo de construção; com o meio cultural. Tais diálogos se dão pela apropriação que o artista faz, como agente que recolhe, no seu espaço vivencial, os materiais para a elaboração de sua obra, pois o ato criador é entendido como resultado de uma mente em ação, que faz vários tipos de reflexões (SALLES, 2002).
Ao fazer a obra, o artista recorre as memórias da tradição. Ao colher a matéria para levar à obra, ele interroga, permanentemente, a matéria durante o processo de criação.Os desenhos o informam e o orientam em seus passos. Levam-no a fazer projeções no decorrer da criação. É nessa perspectiva que a comunicação se dá, no processo de criação, de modo intrapessoal, ao movimentar e combinar os signos durante a criação, ao articulá-los entre si para compor, a fim de encontrar o modo de representação que lhe satisfaça.
A comunicação, na arte, também se dá pela obra, quando o artista busca no público, posteriormente, a continuidade dela (da obra). Conforme Silbermann (1971, p. 23), a
comunicação pela obra se dá pelo “desciframiento social”. Desse modo, além dos diferentes diálogos internos, também estabelece outros, de modo interpessoal, no contato com o receptor.
O ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior decifrando e interpretando suas qualidades intrínsecas e, desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato criador. (BATTCOCK, 1986, p. 74)
As diferentes formas de diálogo estabelecidas são necessárias, já que ela não sobrevive sem o outro, pois “o texto – ou a obra – resulta da estreita colaboração entre um autor e um leitor” (BORGES apud SALLES, 1998, p. 47). Na direção de Borges, Kandinsky (1991, p. 155) afirma que toda obra, embora seja a expressão do sentimento, é também linguagem, pois
[...] toda obra de arte nasce de uma emoção que no artista se traduz em sentimento. É esse sentimento que o impele a criar. Uma vez criada a obra, isto é, uma vez posta em forma a emoção, fixada num suporte material, ela provoca no espectador um sentimento que lhe permite encontrar o conteúdo da obra, a emoção puramente espiritual. A obra é, assim, a forma material, a linguagem da alma para alma que fala da emoção.
Com base em Benjamin, como já comentado alhures, neste trabalho, pode-se afirmar que a gravura torna-se, pela multiplicação, um fenômeno de massa – de público – a partir da efetiva reprodução. A produção em série possibilita a várias pessoas, de diferentes lugares, a sua contemplação em simultaneidade de tempos e espaços. Essa característica diferencia a gravura de outras linguagens como a pintura, a escultura e o desenho que preservam o caráter de unicidade. Assim, segundo Oswald (1974, p. 9), “a gravura é a arte mais democrática, pois ela tem por fim baratear as obras para alcançar todas as camadas da sociedade”.
Outro fator que faz a gravura adquirir um sentido de atingir um público mais amplo é sua própria história ligada ao coletivo, a necessidade de busca de comunicação e de dar testemunho de seu tempo e de outros, ao aproximar gerações, diferentes espaços, tempos e culturas. A gravura é uma arte de natureza múltipla, ligada ao livro desde sua origem. Citem- se, como exemplos, a ilustração, a reprodução e divulgação de pinturas e documentos de arquitetura e acidentes geográficos, as cartografias, os retratos e as paisagens – que são produtos de massa têm ligações com o texto solto. Trata-se de textos que contêm imagens e escritos utilizados, inclusive, na panfletagem.
Mesmo se libertando do caráter intimista do livro, no século XIX, com a criação da lito-off-set, que passa a destinar-se exclusivamente à impressão comercial, a gravura ainda
permanece, com seu uso artístico preso ao seu conceito tradicional, como arte múltipla, portanto, assegurando o sentido de arte múltipla. Vale destacar com Evandro Salles (1998, p. 7) que a multiplicidade “quebra o caráter elitista do original e cria a possibilidade do acesso à informação contida na imagem”.
Todavia, apesar de tratar-se das implicações causadas pela multiplicação desordenada da imagem na cultura visual, tal discussão apenas visa tecer considerações acerca da facilitação do acesso à obra e da comunicação da mensagem do artista. Assinale-se, isto se dá pela maior quantidade de obras e pela sua exibição em espaços públicos.
Uma vez que não se pretende discutir implicações sociais, culturais ou estéticas que o produto multiplicado, excessivamente, possa causar, também não é propósito da discussão tratar da qualidade da obra ou da mensagem, mas dizer que na gravura e na pintura mural a comunicação se revela diferentemente das demais linguagens, em que a unicidade evidencia- se como fundamento da existência da obra.
É importante lembrar ainda que, além de a comunicação, na arte, processar-se pela obra, separadamente, pode-se dizer que a comunicação se dá, na arte e na ciência, de forma simultânea e em reciprocidade entre obra e processo. Isto porque o processo remete à obra e a obra, à criação. Mesmo que a obra seja terminada e exposta em local fechado ou público, o espectador, ao vê-la, procura nela referência do percurso da criação. Faz para si indagações sobre o processo que presidiu a obra.