4 Background: Labor Standards and Labor Relations in China
4.4 Corporate Social Responsibility in China
4.5.2 Skills Shortage
As manifestações públicas de reconhecimento dos seus colaboradores e as festas de celebração do trabalho realizadas pela Diamang ganharam as páginas de publicações coloniais como a Revista do Ultramar, que dedicou numa edição de 1948, mais de dez páginas para enaltecer as ações da Companhia de Diamantes de Angola. Sob o título “A Companhia de Diamantes de Angola transformou o deserto da Lunda numa grande fonte de riqueza”, a reportagem tem início destacando a surpresa ao encontrar “em pleno coração da África, um núcleo de povoações urbanizadas com todos os requintes da moderna civilização [...]”.211
As dificuldades também foram destacadas como as relativas ao recrutamento de trabalhadores tema em que a reportagem culpa apenas “a raça indígena da zona de exploração e da Lunda em geral, a Kioka, que é de fraca compleição física e, pelas suas inclinações, avessa ao trabalho, desprezando os benefícios que lhes poderiam advir de ganhar e conservar uma condição melhor” e completa justificando que “como raça africana é uma das que reúne menor número de qualidades ou aptidões. Foi sempre dada à guerra e rapina e uma das últimas a conhecer a ocupação efetiva portuguesa”.212 Para dar credibilidade aos elogios tecidos, parte da reportagem reproduz o discurso proferido em 1945, pelo então Ministro das Colônias Marcelo Caetano, quando da sua visita ao Dundo. Além do destaque dado à infraestrutura da Companhia, Caetano destaca justamente a relação da Diamang com os trabalhadores, que de acordo com o então ministro chama a atenção:
[...] o aspecto sadio dos trabalhadores indígenas, a sua confiante convivência com os brancos, seus novos aldeamentos, o gosto que vai tendo pelo trabalho, o progresso do voluntariado total do recrutamento. Vi como se cuida da alimentação do indígena, favorecendo as culturas alimentares, alargando as reservas de gado, plantando novos pomares, aumentando e melhorando as rações.213
211 Revista do Ultramar. Nº 5/6 – Julho / Agosto de 1948, Ano I. P.89. 212Ibidem. P.90.
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Mais adiante, Caetano observa que “nesta empresa se não considera já o indígena como simples máquina de trabalho, sem interesses espirituais próprios” e exalta a sua emoção ao ver “o culto constante, insistente e elevado pela nossa Pátria comum em que aqui são educados todos os indígenas e o fervor com que, na inesquecível alvorada de ontem, os portugueses de cor pronunciavam, de olhos postos na bandeira, o nome sagrado de Portugal!”. Finalmente, Caetano termina o seu discurso afirmando que “Tudo isto eu vi, e mais que seria fastidioso agora enumerar. E é sobre o que vi e não sobre o que me poderiam ter dito, que formo o meu juízo acerca da obra da Companhia de Diamantes em África, afirmando com plena segurança que bem merece da Nação”.214Assim, de acordo com o teor da reportagem da Revista do Ultramar, a Companhia de Diamantes de Angola podia ser considerada um exemplo perfeito de ação colonizadora bem sucedida segundo os parâmetros desejados por Portugal, onde as bases do luso- tropicalismo podiam ser amplamente reconhecidas.
Na contramão dos elogios tecidos às ações desenvolvidas pela Companhia de Diamantes de Angola está o relato feito por Gilberto Freyre a partir de sua visita à Diamang em final de 1951 e publicado no ano de 1953 em sua obra Aventura e
Rotina,lançada em Portugal um ano depois.215O livro é uma síntese da viagem feita por Gilberto Freyre pelos “vários Portugais espalhados pelo mundo”e teve uma repercussão bastante negativa na Diamang, o que rendeu uma publicação feita em 1955 pelo Administrador Delegado da Companhia, Ernesto de Vilhena, respondendo às críticas feitas por Freyre.
Sugerida por José Osório de Oliveira216 e formalizada pelo ministro do Ultramar Sarmento Rodrigues, a visita de Gilberto Freyre teve início em agosto de 1951 com o objetivo de “dar a conhecer ao sociólogo brasileiro o ‘Ultramar português’, para que ele percorra ‘com olhos de homem de estudo’”.217 O governo de Salazar tinha a expectativa de que a visita do sociólogo traria boas repercussões no cenário internacional dado o
214 Revista do Ultramar. Nº 5/6 – Julho / Agosto de 1948, Ano I . P.91.
215 FREYRE, Gilberto. Aventura e Rotina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. P.9.
216 Filho de uma escritora e um poeta, José Osório de Oliveira (1900-1964) passou parte de sua infância no Brasil. Ao voltar para Portugal ingressa no jornalismo. Trabalhou em Moçambique e Cabo Verde, entre temporadas no Brasil. Em Portugal, atuou no Ministério das Colônias (1934-38); exerceu os cargos de chefe de Divisão de Propaganda da AGC/AGU (1938-1956). Colaborou intensamente com os Serviços Culturais da Diamang, tendo publicado por esse serviço Flagrantes da Vida na Lunda. Fez ainda a curadoria de várias exposições do Museu do Dundo no exterior, inclusive em Salvador, Bahia, em 1959. Mais detalhes em: CASTELO, Claudia. O modo português de estar no mundo. Porto: Edições
Afrontamento, 1998. P.152.
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prestígio que o sociólogo alcançava nesse período. Por isso, tudo foi preparado para que Gilberto Freyre só tivesse contato com aquilo que o governo achasse pertinente.
A dura crítica feita por Gilberto Freyre à Diamang foi um duro golpe nos portugueses e ganhou uma grande dimensão.218 Ela se deu também no âmbito da renovação do contrato da Companhia de Diamantes de Angolacom o Governo das Colônias, em 1955. A sua crítica rendeu respostas públicas em especial por ele ser considerado nesse momento o grande teórico do luso-tropicalismo.219 De acordo com Claudia Castelo, se nos anos 30 e 40 o Estado Novo rejeitou as teorias de Gilberto Freyre, em grande parte devido a importância dada à mestiçagem biológica e cultural à herança árabe e africana na gênese do povo português e das sociedades criadas pela colonização portuguesa, nos anos 50, essas teorias passaram a ser reconsideradas e o discurso oficial passou a reproduzir uma versão simplificada e nacionalista do luso-tropicalismo. De acordo com a autora,
A partir de meados dos anos 50, verifica-se um esforço sistemático por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros de doutrinação dos diplomatas portugueses no lusotropicalismo. O objetivo é muni-los de argumentos (supostamente) científicos, capazes de legitimar a presença de Portugal em África e na Ásia. Paralelamente, assiste-se à penetração do lusotropicalismo no meio acadêmico e científico. A adesão de vários acadêmicos ao lusotropicalismo esconde, nalguns casos, uma consciência crítica relativamente ao que, de fato, se passava nas colônias portuguesas. [...] De fato, a colonização portuguesa no século XX, como qualquer outra, assentou em formas mais ou menos explícitas de racismo, gerou conflitos e promoveu a discriminação.220
Já Omar Ribeiro Thomaz ressalta que foi necessário um contexto de profundas transformações internacionais, como a Segunda Guerra Mundial, e uma descolonização iminente para que o luso-tropicalismo de Freyre fosse assumido quase que de forma
218 Maria da Conceição Neto ressalta, no entanto, que é “difícil saber quantas pessoas leram as impressões de viagem de Gilberto Freyre, mas certamente muito poucas, comparadas com os leitores do discurso colonialista de Ernesto de Vilhena publicado nos jornais”. NETO, Maria da Conceição. “Ideologias, Contradições e Mistificações da Colonização de Angola no Século XX”. Lusotopie 1997, P.327-359. P. 330.
219 De acordo com Claudia Castelo, “uma incursão prévia na bibliografia de Gilberto Freyre permite constatar que os fundamentos do lusotropicalismo são lançados logo na sua primeira obra publicada,
Casa-grande e Senzala (1933)”. In: CASTELO, Claudia. “Uma incursão no lusotropicalismo de Gilberto
Freyre”. IICT; Blogue de História Lusófona, Ano VI, Setembro de 2011. P.261.
220CASTELO, Claudia. “Uma incursão no lusotropicalismo de Gilberto Freyre”. IICT; Blogue de História Lusófona, Ano VI, Setembro de 2011. P.272.
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integral.221 A crítica de Gilberto Freyre à Diamang, no entanto, não se apoia num possível fracasso do luso-tropicalismo em terras angolanas, pois para Freyre a Companhia de Diamantes de Angola adotou um modelo belga de administração e de tratamento aos trabalhadores e não português, o que isenta Portugal de qualquer responsabilidade sobre o que viu durante a sua visita.222
Se a reportagem da Revista do Ultramar tem início exaltando os núcleos de povoações urbanizados com todos os “requintes da moderna civilização”, Gilberto Freyre também inicia o seu relato expondo suas primeiras impressões ao chegar à sede da Companhia, no Dundo. Porém, segundo o sociólogo:
A sede da Companhia de Diamantes no Dundo recebe-nos com luzes que parecem de noite de festa; mas que são de toda ou qualquer noite. É sempre noite de festa no Dundo pelo contraste de suas muitas luzes com o escuro das matas e das próprias aldeias africanas. Suas luzes iluminam sofisticados jardins: formas civilizadas de um conjunto de vegetação tropical domesticada por mãos que sentimos desde o primeiro contato não serem de portugueses, mas de outros europeus. Iluminam também casas de tijolo vermelho que me dão a impressão de estar nos Estados Unidos: na Califórnia. [...] Mas só a cenografia. No ar, no ambiente, no próprio clima, alguma coisa de inconfundivelmente antitropical que dominasse a natureza, esmagando-lhe a espontaneidade, sujeitando-a a alguma coisa de puritano e até de policialmente higiênico, aproveitando dela só o pitoresco de superfície.223
A primeira impressão de Gilberto Freyre ao chegar ao Dundo já fez com que o sociólogo associasse o lugar com algo exterior aos portugueses, principalmente a falta de espontaneidade e uma atmosfera “inconfundivelmente antitropical” que ele próprio não conseguiu definir. O que chamava a atenção de Gilberto Freyre era a “vida artificial. É o que mais sinto ao chegar ao Dundo, sob a iluminação festiva e, ao mesmo tempo, clínica e policial, com que a sede da Companhia de Diamantes nos recebe”. De acordo com o autor:
É policial porque o Dundo vive – e precisa de viver – em estado permanente de defesa não só contra as doenças tropicais que possam fazer mal aos seus técnicos ou funcionários brancos, que aqui vivem
221 THOMAZ, Omar. Ecos do Atlântico Sul.Op. cit. P.281.
222 A segregação observada por Gilberto Freyre durante a sua viagem a Moçambique também foi justificada pelas influências estrangeiras, em especial da África do Sul e das Rodésias, e era considerada “um elemento estranho no corpo cultural e político da luso-tropicalidade”. THOMAZ, Omar. Ecos do
Atlântico Sul.Op. cit. P.284.
118 com as famílias vida quase quimicamente pura, como contra possíveis ladrões de diamantes que pudessem aproveitar-se das sombras normais da noite, do escuro das noites tropicais, para investidas contra os cofres em que se guardam centenas e centenas de diamantes. Sente- se que nenhum estranho, nenhum empregado da Companhia, nenhum branco, nenhum preto, é aqui um homem à vontade, mas um indivíduo vigiado, espiado, sutilmente fiscalizado por secretas. O ambiente é de novelas ou de fitas inglesas de mistérios. As novelas e fitas de cinema da minha predileção. Tenho a impressão de ser comparsa na elaboração de uma dessas fitas. A impressão de que estou sendo filmado. De que represento aqui um papel, não sei bem de que lado: se do de Al Capone, se do de Mr. Holmes.224
A sensação de estar sempre sendo vigiado, bem como a falta de familiaridade com o que estava vivenciando nos domínios da Diamang foi explicada isentando o modelo português de colonização e responsabilizando os belgas, que estavam geograficamente próximos e relacionados com a Companhia de Diamantes de Angola. Citamos:
Não é difícil de verificar-se, mesmo em rápido contato com o Dundo – bela, não adormecida, mas escondida num bosque -, que a vida aqui vivida é regulada nas menores coisas. Que aqui todo branco, todo preto, toda criatura humana, é um ser que se move, que se alimenta, que se diverte, que trabalha, que estuda, que sonha, que reza, que vai à igreja – aintilusitanamente separada em igreja para brancos e igreja para pretos – dentro de um sistema, cuja direção imediata toca ao engenheiro Rolando Suceno; e a remota, a esta eminência, não sei se diga cinzenta, que é o Comandante Vilhena que em Lisboa coleciona imagens de santos ao mesmo tempo que dirige os homens, comanda os pecadores, regula a vida dos técnicos que trabalham no Dundo. Dois portugueses notáveis pela capacidade de dirigir, de organizar, de administrar homens e não apenas de produzir diamantes. O lastimável é dirigirem um sistema que em algumas das suas raízes e em várias de suas projeções não é sociologicamente português, prejudicado, como se acha, por um racismo que é de origem belga e por um excesso de autoritarismo que é também exótico em sua origem e em seus métodos.225
Gilberto Freyre também não encontrou na Diamang as mesmas manifestações de cordialidade e carinho que recebeu das autoridades e dos indígenas quando, por exemplo, esteve visitando a Guiné-Bissau no mesmo ano de 1951, que o fez considera- la não apenas um território africano, mas um território luso-africano. Na Diamang, Gilberto Freyre parece não ter tido contato direto com os indígenas. Nem mesmo os aspectos da habitação e alimentação dos nativos foram apresentados ao sociólogo, o que
224 FREYRE, Gilberto. Aventura e Rotina. Op. cit. P.424. 225Ibidem. P. 426.
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demonstra para ele que ali não foi possível contar com a “franqueza típica dos portugueses”, conforme é observado no seu relato a seguir:
Impossível tanta demora no Dundo, tenho de contentar-me em procurar ver o mais possível dentro dos meus limites de tempo. Em procurar ver o que me mostram e entrever o que vêm escondendo dos meus olhos, não só aqui como noutros lugares por mim já visitados, autoridades ou patriotas empenhados em que eu veja só o que lhes parece honroso para Portugal. Aliás esta atitude patrioticamente mistificadora tem sido a de raros: na maioria dos casos, a gente portuguesa do Ultramar vem sendo para comigo da mais confiante franqueza. Franqueza de português para português. [...] Noto que no Dundo há relutância em me mostrarem as casas de habitação reservadas aos trabalhadores indígenas. Em me informarem sobre o seu sistema de alimentação: até que ponto o desta redução como que jesuítica difere daquele a que se acham habituados os indígenas nas suas aldeias africanas. Quais as inovações. Quais os resultados dessas inovações sobre a capacidade de trabalho de pretos, acostumados a trabalho tão diverso daquele a que são aqui obrigados. Tão diverso na natureza e tão diverso no ritmo. Vejo apenas por fora as casas de habitação reservadas aos indígenas: casas cobertas por umas como folhas de zinco que devem torna-las infernais nos dias mais quentes.226
E sobre a relação entre a Companhia e as populações da Lunda, Gilberto Freyre observa que:
A tendência da Companhia de Diamantes – adas companhias e empresas do seu tipo que operam na África portuguesa do mesmo modo que nas outras Áfricas – talvez seja para reduzir as culturas indígenas a puro material de museu. Os indígenas vivos interessam- nos quase exclusivamente como elementos de trabalho, tanto melhores quanto mais desenraizados de suas culturas maternas e mecanizados em técnicos, operários e substitutos de animais de carga. A proletarização de tais indígenas, sua segregação em bairros para “trabalhadores indígenas” dentro de comunidades organizadas em pura função desta ou daquela atividade econômica, constitui um dos maiores perigos para a gente africana do ponto de vista social e, ao mesmo tempo, cultural. Está este perigo na destribalização ou desintegração demasiadamente rápida, dos grupos indígenas, sem que se verifique a substituição dos seus valores ancestrais por conjuntos de valores – como os cristãos ou os maometanos – que, não se limitando a dar novos trajos aos destribalizados, novos hábitos de alimentação e de recreação ás crianças e aos adolescentes, o conhecimento apenas mecânico do Pelo-Sinal e de outros sinais litúrgicos a párvulos e adultos, dê-lhes toda uma nova base de desenvolvimento pessoal e social. As consequências, desfavoráveis ao indígena, da desintegração
120 de sua cultura são quase inevitáveis, sob o impacto do industrialismo capitalista.227
Gilberto Freyre também faz uma comparação com o modelo de trabalho adotado pela Diamang e o sistema escravista brasileiro, afirmando que mesmo que esse sistema (brasileiro) tenha sido fundado e se desenvolvido com negros arrancados de suas terras, eles foram incorporados a um sistema patriarcal, familiar e escravocrata que, segundo ele, permitia aos negros ascender a membros de uma nova comunidade e de uma nova cultura, “da qual participavam e para o qual contribuíram com seus africanismos ainda vivos e fecundos e não esterilizados em peças de museu”. Por outro lado, os sistemas das grandes empresas capitalistas instaladas na África:
Utilizam-se de africanos arrancados às suas tribos sem lhes darem oportunidade de participação em novos sistemas de convivência e de cultura. São eles mantidos num ambiente socialmente artificial – e não só artificial: humilhante – do qual só pode resultar sua degradação. O estado de escravo no sistema patriarcal luso-brasileiro nada tinha de fixo: era transitório, plástico. O indivíduo podia superá-lo. O estado de “trabalhador nativo” do africano destribalizado, dentro das grandes empresas capitalistas instaladas na África é uma situação de condenado sociologicamente à morte. Baseia-se na concepção de ser ele inferior ao branco, não transitoriamente – como cativo de guerra ou devido a outro acidente – mas como raça. Biologicamente. Fatalmente.228
Essa última observação de Freyre é de grande relevância para perceber como o sociólogo isentava o modelo português referenciado no luso-tropicalismo daquilo que constatava durante a sua permanência na Diamang. Até mesmo a escravidão seria menos danosa ao negro por ser transitória e plástica, enquanto o trabalhador da Diamang não apresentaria esse caráter transitório e vivia uma situação de “condenado sociologicamente à morte”.
As observações de Freyre, apesar do pouco tempo de visita à Diamang, são fundamentais para a análise sobre o projeto do Museu do Dundo, pois revela uma faceta da Companhia quase impossível de ser percebida em outras publicações da época, sobretudo as de cunho propagandista. Por outro lado, a publicação do Administrador Delegado da Diamang Ernesto de Vilhena, Aventura e Rotina, uma crítica de uma
227Ibidem. P.432.
121 crítica229, segundo consta no subtítulo, é também um documento precioso, pois sintetiza o pensamento colonial expresso através de um dos homens mais importantes e influentes da Companhia de Diamantes de Angola e ajuda a compreender as diretrizes das suas ações, e do Museu do Dundo, já que Vilhena foi figura chave no desenvolvimento desse espaço a partir de 1936.
Em resposta a Gilberto Freyre, Ernesto de Vilhena inicia a sua publicação afirmando que a obra Aventura e Rotina “é um grosso volume de impressões pessoais, deficientemente interpretadas, de uma apressada viagem por algumas das nossas províncias ultramarinas” e “já longe do monumental trabalho que é Casa Grande e Senzala”.230 Além de desqualificar o novo livro de Freyre ao compará-lo com a obra de 1933, Vilhena ressalta, em várias passagens do texto, que o sociólogo realizou uma “visita-relâmpago”, dando a entender que as impressões de Freyre não podem ser validadas.
Ainda assim, Vilhena procura responder todas as questões levantadas por Gilberto Freyre em seu relato, como sobre o aspecto artificial e “policialmente higiênico” de seu centro administrativo, o Dundo. Sobre essa questão especificamente, Vilhena questiona:
Que esperava ele encontrar no Dundo? Um “carnaval carioca” ou um “ballet samba-fadinho em sessão permanente”? Freyre esquece, ou não chegou a perceber, que não se encontra em uma qualquer simples vila ou lugar habitado de Angola, mas no centro administrativo de uma grande empresa industrial, amplíssima nos seus objetivos e na área em que presentemente atua (30.000 Km²: quase um terço de Portugal continental), com uma população de cerca de 80.000 almas, verdadeira “torre de comando e centro vital de uma organização em que trabalham 332 europeus (acompanhados por 417 mulheres e crianças) e cerca de 17.000 indígenas, reunidos e organizados com vista a um objetivo bem determinado, que é o de extrair diamantes de um vasto território pelos processos os mais perfeitos que vão sendo descobertos e, sem exageros condenáveis e contraproducentes, em condições de boa administração e de economia, que permitam retribuir o capital investido no empreendimento e proporcionar ao Estado a