4 Background: Labor Standards and Labor Relations in China
4.3 Trade Unions and Collective Bargaining in China
4.3.3 Recent Attempts to Strengthen the Role of the ACFTU
Esta festa consistia na realização de provas organizadas por eliminatórias entre equipes de trabalhadores de diferentes serviços e sob a coordenação de um funcionário europeu da Diamang. As eliminatórias aconteciam nos quatro principais centros urbanos da Companhia: Maludi, Cassanguidi, Andrada e o Dundo, simbolizados por quatro círculos, uma clara referência aos Jogos Olímpicos. A grande final ocorria em Andrada.
110 Figura 10: Festa Desportiva Indígena de 1956, onde é possível ver os quatro círculos simbolizando os respectivos centros urbanos de Maludi, Cassanguidi, Andrada e o Dundo. Arquivo da Diamang. Acervo do MAUC.
O investimento da Diamang na Festa Desportiva estava em consonância com o lugar ocupado pelo esporte no mundo após a Segunda Guerra Mundial. De acordo com Victor de Melo e Marcelo Bittencourt, uma combinação de fatores explica a presença e importância do esporte nesse cenário, dentre eles, “a percepção que sua capacidade de mobilização poderia ser utilizada para fins outros que não os da prática esportiva em si, algo que se tornou mais explícito com os usos que foram feitos por regimes autoritários nas décadas de 1930 e 1940”.199
Em Portugal, a prática esportiva entre 1930 e 1945 “foi mobilizada pelo Estado Novo, pronunciadamente com o intuito de promover o aperfeiçoamento eugênico e cívico, assim como de controlar o tempo dos trabalhadores”, afirmam os autores. A partir da década de 1950, no entanto, o esporte passou a ser mobilizado “com o objetivo de construir discursos sobre a identidade nacional portuguesa”.200 A prática esportiva foi também utilizada pelo regime para “exaltar uma suposta identidade imperial, um sinal
199 MELO, Victor Andrade de; BITTENCOURT, Marcelo. “O esporte na política colonial portuguesa: o Boletim Geral do Ultramar”. REVISTA TEMPO, vol. 17 n. 34, Jan. – Jun. 2013: 69-80. P.70.
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de que construíra uma nação ‘civilizada’ fruto dos encontros inter-raciais. Tratava-se de uma visão construída e plenamente referendada pelo, na ocasião tão em voga, uso do luso-tropicalismo freyreano”.201 Nesse sentido, as Festas Desportivas, cujos participantes eram os próprios trabalhadores da Diamang dispensados do trabalho para participar dos treinos e das provas, “epitomizam o projeto colonial de disciplinar o corpo nativo quer no sentido individual quer enquanto corpo social (...)”.202
As modalidades esportivas variaram ao longo dos anos e muitas delas estavam alinhadas com a ideia que os próprios colonizadores tinham dos indígenas, ainda ligados a um “passado tribal” e “primitivo”. Assim, ao mesmo tempo em que havia provas de corrida com e sem barreira e lançamentos de peso, entre outros, havia a intenção em incluir modalidades, segundo a Diamang, que os indígenas tinham mais familiaridade. Sobre o tiro ao alvo, por exemplo, consta que é uma prova:
Muito dentro dos gostos do nativo, e que todos os indígenas compreendem bem. Vê-se uma fileira de concorrentes, cada um deles com o seu modo característico de apontar e atirar, alguns despertando hilariedade, outros impondo admiração, porque faziam renascer, por momentos, o quioco de ontem com os seus aspectos de beleza selvagem, quando só vivia para as lides da caça e da guerra.203
Já sobre a prova de lançamento de dardo:
também denominada zagaia, em que o indígena reencontra o primitivismo dos seus antepassados, agrada-lhe igualmente bastante, se bem que tenha dificuldade em fazer os lançamentos com o estilo que nós, europeus, usamos. Alguns vistosos lançamentos se registraram, entre uns tantos “chochos”, como o do Bumba, da Chicala, que, indígena bem constituído, se assemelha a um guerreiro de épocas antigas. Algumas das suas posições, fixadas em fotografia, fazem lembrar uma estátua de ébano.204
A justificativa da habilidade do indígena para algumas provas como a de tiro ao alvo e a de lançamento de dardo se dava através do resgate da ideia de um nativo ainda ligado a um “passado pré-colonial”, inventado pelos próprios colonizadores.205 Ao participarem
201 MELO, Victor Andrade de; BITTENCOURT, Marcelo. “O esporte na política colonial portuguesa: o Boletim Geral do Ultramar”. REVISTA TEMPO, vol. 17 n. 34, Jan. – Jun. 2013: 69-80. P.71.
202 PORTO, Nuno. Modos de Objectificação da dominação colonial. Op. cit. P.460. 203 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1951. P.15.
204Idem.
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dessas modalidades, incorporavam a figura do guerreiro “de épocas antigas” ou “o quioco de ontem com os seus aspectos de beleza selvagem”, algo inato que estava apenas em estado de “latência”. Acreditava-se também que a existência dessas provas resultaria numa maior adesão dos indígenas ao evento. Ao mesmo tempo em que modalidades que remetiam a um “tempo tribal” eram incluídas nas Festas Desportivas, a lógica da prática do esporte era claramente integrada à do trabalho, onde o indígena que competia, bem como aquele que assistia às provas, deveria se familiarizar com uma noção de tempo que não era mais aquela do “tempo tribal”, mas aquela exigida pela Companhia para ser aplicada no trabalho nas minas.
Outras modalidades esportivas eram incluídas com o propósito de introduzir nos indígenas novos gostos e padrões, não menos relacionados à lógica do trabalho e da dinamização do tempo. Em 1955, por exemplo, foi incluída na Festa Desportiva a corrida de bicicletas, que seria, de acordo com o relatório do referido ano, o “grande veículo indígena do futuro e vai sendo entusiasticamente aculturada”.206 Os documentos consultados mostram que a adesão dos indígenas às modalidades esportivas era bastante irregular e variava de acordo com cada centro urbano que organizava as competições locais. Um dos atrativos para conseguir a adesão dos indígenas era também a existência de um sistema de premiações aos participantes, além de outros benefícios como a alimentação fornecida durante as provas. A participação dos trabalhadores como competidores era também sem dúvida uma oportunidade para escapar, ainda que temporariamente, do duro trabalho nas minas.
Ao longo dos anos a Companhia observou a mudança de gosto entre os participantes e adotou a estratégia de mudar a premiação para não perder a adesão de competidores. Em 1951, os prêmios das eliminatórias consistiam em casaco e calças para o primeiro classificado; casaco para o segundo lugar; calças para o terceiro lugar; camisa para o quarto classificado, e pratos de alumínio para todos os competidores,“prêmio que agrada muito. E, na realidade, o aspecto dos pratos, muito bem moldados e polidos, faz apetecer a sua posse”.207 Os prêmios distribuídos na grande final também consistiam em peças de vestuários. Já em 1956, houve a substituição dos prêmios “roupas usadas por objetos mais apreciados pelos indígenas, tais como relógios, máquinas de barbear
206 Relatório Mensal do Museu do Dundo de Julho de 1955. P.5. 207 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1951. P.17.
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etc”.208 Os pratos de alumínio, que para a Companhia eram tão desejados, logo também deram lugar aos braceletes.
No que diz respeito em particular aos sobas, a Festa Desportiva Indígena era uma oportunidade encontrada para convencê-los das boas ações da Companhia e torna-los colaboradores cada vez mais assíduos. Durante a Festa, esses chefes recebiam tratamento diferenciado, onde assistiam as provas em lugares de honra nas arquibancadas, onde a palavra SOBAS aparecia em destaque. Ricas refeições realizadas em mesas bem postas também eram oferecidas a esses homens durante a festividade. Em 1951, durante as eliminatórias de Andrada, por exemplo,
Alguns sobas presentes foram convidados para o repasto, como já tinham sido ao almoço. Estes indígenas acedem a sentar-se às mesas especiais que lhes destinamos, comem, às vezes, um pouco de fruta, bebem quanto vinho se lhes dá, sem nunca se saciarem nem encherem, aceitam com satisfação os cigarros que oferecemos, mas quanto a comida, sobretudo os mais importantes nas suas escalas hierárquicas, dão-na quase sempre, com ar de imponente generosidade, às suas mulheres e aos numerosos criados que os acompanham. É uma maneira de imporem a sua importância, o que não quer dizer que não fiquem satisfeitos; pelo contrário, levantam-se das mesas radiantes. Até então, comparando com o ano anterior, tínhamos notado bastante disciplina e ordem nos refeitórios, pelo que nos pareceu que as “boas maneiras” estavam fazendo francos progressos no meio indígena.209
Nesse mesmo ano de 1951, nas eliminatórias de Cassanguidi, o comportamento de um soba durante a refeição mereceu registro no relatório das festas indígenas. Segundo consta:
Como nas eliminatórias anteriores, chamamos os sobas e os “notáveis” para comer e beber, mas estes seguiram a sua norma habitual: a comida interessava-lhes pouco; bebidas e tabacos, isso sim... O Muaquece, então, o “grande senhor” de Cassanguidi, esse nem olhava para a comida que os seus familiares e criados devoravam, mas se se tratava de bebida perdia logo a “pose”.210
A aparente satisfação dos sobas e indígenas com os benefícios oferecidos a todos eles durante as festas anuais da Diamang ecoava em Portugal, que tentava projetar a
208 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1956. P.2. 209 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1951. P.17-18. 210Ibidem. P.33.
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Diamang como um de seus maiores e bem sucedidos símbolos do colonialismo português.