CAPÍTULO IV: PARROQUIA ATAHUALPA
4.8 Situación de los bosques en Mojanda Grande
Escutar música é um tipo de experiência musical vivenciado pelas idosas participantes da pesquisa ao longo de suas vidas. O escutar, em suas lembranças, é perpassado pela utilização do rádio, da televisão, da música gravada dos long play – LPs –, dos compact disc – CDs –, dos walkmans. O surgimento, a disseminação e os usos desses diversos meios de ouvir música vão fazer com que as práticas de ouvir música se modifiquem ao longo do tempo.
A experiência de escutar música (com o) pelo rádio foi um dos mais recorrentes meios de se experienciar a música, conforme os relatos das idosas.
D. Valéria (Entrevista, dia 30/07/2010) gosta de ouvir música em casa. Para ela, não importa o meio pelo qual ela escuta música, pode ser rádio, disco ou CD. Mas, quando está “meio assim...”, ela “busca uma pinga e deixa os discos rodarem” tocando “músicas antigas” (p. 15). Nesses momentos, gosta de ouvir o cantor Júlio Iglesias: “o bicho canta e eu canto também!” (p. 15).
D. Marisa Estevão (Entrevista, dia 14/07/2010) fala que sempre gostou de música. Gostava de “escutar e cantarolar” (p.1), comprava uns “LPezão” com
músicas do Roberto Carlos e “punha pra rodar até ficar com ruído de tanto tocar” (p. 13).
D. Nádia (Entrevista, dia 19/03/2010) ia para a casa de sua avó, que ficava perto do lugar em que aconteciam as festas de barraquinha da igreja. Conta que ficava ouvindo as músicas da casa de sua avó, e dizia: “eu quero cantar, eu quero cantar!” (p. 12).
As participantes mencionam que, geralmente, “paravam para ouvir música”. D. Eleonora (Entrevista, dia 22/07/2010) ilustra como se ouvia música: “[o rádio] ficava em cima de um armário, lá no alto assim... aí tinha os Três Batutas do Sertão54
que cantava na segunda, na quarta e na sexta. Então, todas essas noites meus irmãos iam pra lá pra... pra ver, assistir esses Batutas do Sertão” (p. 5).
Alguns motivos para esse “parar para ouvir” pode ser pelo fato de esses aparelhos terem pouca mobilidade, sendo que nem todas as pessoas tinham acesso à essa tecnologia. Na maioria das vezes, devido ao custo, as famílias tinham apenas um aparelho, o qual, geralmente, era colocado na sala. Outro possível motivo para o “parar para ouvir” é o fato de que as pessoas poderiam sim querer ir para as casas dos vizinhos para escutar o rádio, para se manterem ligados aos amigos e estarem compartilhando de um momento da escuta musical. Dessa forma, pode-se observar como a experiência, os jeitos de se escutar música têm mudado e transformado não só os tipos, mas também os tempos e os espaços em que essas experiências acontecem.
D. Maria Lúcia (Entrevista, dia 21/12/2009) diz que, quando era mocinha, seu tio comprou uma vitrola e, quando ia até a casa dele para escutar música, “dava prazo” de “escutar umas duas, três musicas, só” (p. 6).
Sobre esse escutar fora de suas casas, D. Leontina também conta que
tinha uma vizinha que gostava de ir pra casa dela. Ela tinha aquelas “eletrola” num sei como que é... umas que parece que fica tocando o disco assim ó... [ela fez o gesto pra mim de como era rodando com a mão]. Eu me lembro como que era. Ela era apaixonada pelo Orlando Silva. Ela escutava Orlando Silva o dia inteirinho!
Jaqueline: Mas aí você ia lá pra casa dela? D. Leontina: Eu ia!! Pra escutar!
Jaqueline: Saía de casa pra ir pra lá escutar?
54 Programa de rádio veiculado pela rede Record, apresentado pela dupla Raul Torres e Serrinha com
Leontina: Era. Ia pra lá escutar. Escutava muita música do Orlando silva. Era mais o Orlando Silva... Nossa! O povo era muito apaixonado por essas músicas! (D. D. Leontina, entrevista dia 23/02/2010, p. 6).
Com a popularização dos programas veiculados no/pelo rádio, a curiosidade e o desejo das camadas populares de possuírem seus próprios aparelhos de rádio aumentaram. Em alguns momentos em que viveram, fica claro que esses aparelhos ainda tinham um custo alto e nem sempre foram acessíveis a todas as participantes da pesquisa. Então, “quando as famílias ainda não podiam ter seus próprios rádios, lançavam mão de uma prática que se tornou muito corriqueira: a de ser um „rádio- vizinho‟” (CALABRE, 2004, p. 25). Era comum que as famílias que tinham aparelhos de rádio “os partilhassem com os vizinhos, permitindo que acompanhassem parte da programação. Alguns estabelecimentos comerciais também mantinham aparelhos de rádio ligados como forma de atrair a freguesia” (CALABRE, 2004, p. 25).
Outro aspecto relacionado ao ouvir música é a preferência das idosas pelo rádio. D. Anita (Entrevista, dia 02/08/2010), que considera a música como uma companhia, diz que para espantar a solidão, quando está em casa sozinha, fica com o rádio ou com a televisão ligados. Contudo, prefere o rádio à televisão porque “a televisão tem que estar assistindo, olhando, parada e o rádio não, o rádio estou trabalhando e escutando” (p. 6).
No que se refere a essa preferência de D. Anita pelo rádio, para Aguiar (2010), uma das principais diferenças é que, quando surge a televisão, o modo de escutar música muda, pois “a TV nos impõe a tirania da imagem, das cores, do visual, dos efeitos técnicos” (AGUIAR, 2010, p. 14). Para ele, “sentado diante da TV ninguém é capaz de cantar em duo com a cantora ou o cantor que aparece na tela” (AGUIAR, 2010, p. 14).
Sem discutir aspectos particulares do autor relacionados ao que ele considera tirania da televisão e a dificuldade das pessoas de interagirem com a televisão durante o ato de experienciar a música, ou até continuar seus afazeres enquanto a televisão está ligada, o fato é que os modos de experienciar a música, especialmente, a escuta, se modificou.