CAPÍTULO IV: PARROQUIA ATAHUALPA
4.6 Estudio multitemporal
Quando as idosas se lembram de suas experiências com a música e a aula de música na escola, geralmente, essas lembranças são muito vagas, sem muitos detalhes. Algumas se lembram das aulas, outras afirmam que não as tiveram. Não se pôde detectar se elas não tiveram ou se esqueceram dessas aulas, ou talvez as experiências que tiveram, hoje, elas não as consideram como aula de música.
As lembranças de algumas idosas vêm associadas ao cantar nos vários momentos escolares, sendo que algumas tiveram a presença de um professor de música na sala de aula.
D. Leontina (Entrevista, dia 23/02/2010), que estudava em Uberaba – MG, tinha aula de música na escola: “tinha aula de canto, de ginástica, de bordado”. Diz que “aprendia de tudo, mas sempre com a cabeça só na música” (p. 7). Seu professor de música era o professor Renato Frateschi49, era “o pianista que dava
aula de canto” (p. 7).
D. Leontina (Entrevista, dia 23/02/2010, p. 14) diz que essa aula de música “era pra cada classe e era obrigatória”. Essa aula “era daquele tipo de coral. Não tinha dessa de ficar passando pra lá e pra cá não. Tudo tinha que obedecer. Tudo certinho” (p. 15). Ela faz um relato de como era essa aula de música:
O professor [Renato Frateschi] juntava uma porção de menino lá em volta dele e ele tocava o piano e nós cantando [...] Começava todo mundo cantando... cantava todas as músicas. Ele tocando e eu prestando atenção, ensinando assim... né? Agora, ele me punha pertinho dele pra eu dar os agudos. Eu nem tava sabendo que eu era especial nada [...]. Era todo mundo cantando junto. Não tinha nada assim pra gente ler, a gente aprendia lá mesmo tocando e cantando (D. Leontina, entrevista dia 23/02/2010, p. 7-8).
O cantar, sem dúvida, está presente nos relatos dessas idosas que afirmam terem tido aula de música na escola. A partir da descrição dessas idosas, da aula de música, pode-se inferir que essa aula de música estivesse associada aos ideais de Villa-Lobos sobre a implantação do Canto Orfeônico no país, pois, nessa proposta de ensinar música, “o canto aparece como o instrumento ideal para a criança vivenciar e experimentar o fenômeno musical de uma forma ativa e direta” (RODRIGUES; GONÇALVES, 2009, p. 8).
Perguntei a D. Lara (Entrevista, dia 17/03/2010) se ela se lembrava de ter música na escola, e ela me responde “e COMO!” (p. 9). Ela estudava em um internato na cidade de Lajeado-RS, e na rotina do internato a música estava presente em vários horários. O sábado “era o dia do Hino Nacional, o Hino dos Colégios”, enquanto que no domingo as crianças “tinham a obrigação, pela manhã, de ir ao culto e ajudar a cantar também” (p. 9). Conta que, quando ela estava no ginasial50, havia o coral do curso Técnico Comercial e, nesse coral, cantavam
“músicas especiais na hora do café, pro diretor, e depois a turma toda se reunia e cantavam um canto que nós sempre cantávamos pra, qualquer ocasião” (p. 10).
Depois D. Lara explicou como era a aula de música,
Olha... a aula de música... Nossa, era o canto. Tinha que cantar, tinha que estudar as músicas... A gente tinha que saber tudo de cor, mas não é como aqui que a gente tem as letras das músicas. O maestro está na frente e, então, aquilo ali... [o maestro falava]: “Vamos cantar, é essa música, é este canto que nós vamos cantar” [citando a fala do maestro]. Se tinha algum erro o professor corrigia. Geralmente, nós tínhamos ou piano ou um harmônio. Então, os estudantes que já estavam mais pra frente, que já sabiam tocar piano, porque ali tinha uma professora que era somente para o piano... então ela já escalava o estudante que estava a par disso. Ela ensaiava ele [o aluno que tocava piano], as músicas que ela pedia. Então, nós tínhamos que obedecer aquilo. Ele tocava, dava as instruções e a professora, então, estava ali na frente de regente (D. Lara, entrevista dia 17/03/2010, p. 32-33).
D. Rosalina (Entrevista, dia 28/06/2010), que estudou em Araxá-MG, também tinha professor de música na escola. Conta que sua professora se chamava dona Mariazinha: “ela que era a professora de canto. Ela que tocava o piano... só existia um piano, antigo, e ela tocava esse piano e os meninos cantavam. Todos nós cantávamos” (p. 18). Mas, mesmo tendo uma professora em sala, ela considera que “não tinha assim... um aprimoramento, assim, dizer... uma coisa que fosse específica, pra música. Não tinha” (p. 18).
A maioria das idosas se lembra que cantavam os hinos cívicos. D. Anita (Entrevista, dia 02/08/2010) conta que a única coisa que tinha nas aulas era a obrigação de “na hora de começar a aula, terminar a aula... cantar, por exemplo, o Hino Nacional” (p. 15). Ela fala que “cantava e aprendia o Hino Nacional”, pois, por ser “um hino muito respeitado,” os alunos tinham “que cantar e tinham que aprender” (p. 15).
Nem sempre essas lembranças estão associadas a momentos prazerosos. D. Eleonora (Entrevista, dia 22/07/201) diz que “morria de raiva toda vez tinha que fazer fila e rezar/e cantar. Cantar hino da escola... Era todo dia na entrada da escola, todo dia tinha que rezar isso!” (p. 25).
Um dos relatos desses momentos é o de D. Marisa Estevão (Entrevista, dia 14/07/2010), que conta que “para cantar esses hinos os estudantes deviam ficar em pé em posição de sentido... mãozinha no peito e cantar o Hino Nacional todo santo dia” (p. 21). Além disso, se alguém desrespeitasse, se a criança saísse ou o “menino fosse fofocar, uma coisa e outra, a palmatória comia. Tinha palmatória!” (p. 21).
D. Ana Lima (Entrevista, dia 23/07/2010) completa dizendo que aprender a cantar esses hinos desenvolvia e ensinava “muito respeito às pessoas, às coisas” (p. 12).
D. Rosalina (Entrevista, dia 28/06/2010), em sua fala, mostra a ideia de civismo que estava imbuído nesse ensinar a cantar os hinos:
até hoje eu sei cantar o Hino Nacional, minha filha! E faço questão... Até hoje eu sou uma pessoa, uma cidadã! Ih..., mas você sabe que é mesmo... a gente fica pensando hoje, né!? O tanto que modificou, não é!? A gente... hoje o menino não está nem aí pra cantar o Hino da Bandeira, não sabe o Hino Nacional e não está nem aí. Sai da faculdade sem aprender porque acho que não está tendo incentivo. Os meninos hoje não estão vendo vantagem em cantar o Hino Nacional que eu... Dentro do Hino Nacional que a gente vê o que é ser um brasileiro, não é!? É uma coisa muito positiva e, hoje, a gente
não está vendo! O Hino Nacional, eu digo, que é como o “Padre Nosso”, o “Pai Nosso,” né? Porque no “Pai Nosso” quando ele fala no pai ele fala com convicção, não é!? Óh, eu fico pensando, se nós temos um Hino Nacional que é completo, porque ele fala de tudo, de tudo que nós temos... (D. Rosalina, entrevista dia 28/06/2010, p. 22). Observa-se que algumas idosas consideram que tinham aula de música, usualmente em formato de aula de canto coral, outras fazem essa associação de aula de música ao cantar os hinos cívicos. Independentemente de elas considerarem que tinham aula de música, a partir de suas lembranças, nota-se que a música esteve presente na escola e eram diversas as formas para vivenciá-la.