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CAPITULO II: DISTRITO METROPOLITANO DE QUITO

2.1 Generalidades

Uma das dificuldades mais evidentes em estudar temáticas ligadas ao envelhecimento é considerar “a velhice como uma categoria socialmente produzida” (DEBERT, 1998, p. 50). Para tanto,

faz-se, assim, distinção entre um fato universal e natural – o ciclo biológico, do ser humano e de boa parte das espécies naturais, que envolve o nascimento, o crescimento e a morte – e um fato social e histórico – a variabilidade das formas de conceber e viver o envelhecimento [...] Trata-se de ressaltar, em primeiro lugar, que as representações sobre a velhice, a posição social dos velhos e o tratamento que lhes é dado pelos mais jovens ganham significados particulares em contextos históricos, sociais e culturais distintos. A mesma perspectiva orienta a análise das outras etapas da vida, como a infância, adolescência e juventude (DEBERT, 1998, p. 50). Para Debert (1999), pensar a visibilidade alcançada pela velhice “é atentar para o duplo movimento que acompanha sua transformação em uma preocupação social” (p. 13). De um lado existe uma “socialização progressiva da gestão da velhice; durante muito tempo considerado como própria da esfera privada e familiar” (p. 13). Por outro lado, essa gestão familiar “se transforma em uma questão pública” e “um conjunto de orientações e intervenções [...] é definido e implementado pelo aparelho de Estado e outras organizações privadas” (DEBERT, 1999, p. 13). Como consequência, tentativas de “homogeneização das representações da velhice são acionadas e uma nova categoria cultural é produzida: os idosos” (DEBERT, 1999, p. 13-14).

No momento de discussão sobre o que é ser idoso deve ser levado em conta o “Estatuto do Idoso”14, sancionado pela Lei n 10.741, de 1 de outubro de

14 Após sete anos tramitando no congresso, o

“Estatuto do Idoso” foi aprovado em setembro de 2003 e sancionado pelo presidente da República no mês seguinte, ampliando os direitos dos cidadãos com idade acima de 60 anos. Mais abrangente que a Política Nacional do Idoso, lei de 1994 que dava garantias à terceira idade, o estatuto institui penas severas para quem desrespeitar ou abandonar cidadãos da terceira idade.

2003. Este Estatuto denomina idoso como aquele indivíduo que tem idade “igual ou superior a 60 anos” (art. 1) (BRASIL, 2004).

Gomes (2006) questiona essa delimitação do que é ser idoso, pois acredita que “a palavra idoso que vem de idadoso, ou pleno de idade, aplica-se tanto para um tipo de indivíduo quanto a um segmento social por ela representado” (p. 165). Para Gomes (2006), o termo idoso foi aplicado [...] em adequação a tempos e lugares, a diferentes faixas etárias. Claro que todas as aplicações tiveram como critério determinada média populacional de vida (p. 168). Com isso “o campo a ser circunscrito por essa palavra é, pois, sujeito a variações: conforme as circunstâncias, seu chão desliza” (GOMES, 2006, p. 169).

Então, Gomes (2006) questiona a palavra idoso perante o Estatuto refletindo sobre “o isolamento que essa deliberação causa nessas pessoas denominadas idosas”, pois nos tempos atuais “a juventude se prolonga, [...] a aparência se preserva e a atividade e a energia física são critérios de julgamento” (p. 169). Portanto, essa nomeação, “ser idoso, não seduz”, ao contrário, “ela motiva uma rejeição do termo na dimensão pessoal, pois ninguém quer, afinal, ser idoso, num mundo em que a juventude é altamente valorizada e a velhice, destituída” (GOMES, 2006, p. 169).

Por essa possível rejeição que pode haver, por parte dos idosos, em relação a essa nomeação, não é muito difícil encontrar em algumas situações quando não se sabe como chamar, conversar com uma pessoa denominada idosa. Quem nunca se deparou com uma resposta do tipo Senhora está no céu! e ficou desconsertado por ter chamado essa pessoa com quem conversava de senhor(a)? Ou, quando algumas pessoas dessa faixa etária dizem Eu não sou idoso... Ou ainda: Nós não

somos da terceira idade, somos a melhor idade!

Essas respostas advindas dessas pessoas acontecem pelo fato da “palavra não ser suficiente para reter o referente, não encontra adesão no plano individual, não seduz suficientemente, e é evidente que ocorre uma ausência de identificação” (GOMES, 2006, p. 169) por parte das pessoas que são chamadas de idosas.

Sendo assim, no momento de confronto com possíveis resistências por parte dos idosos

faz-se necessário o entendimento dos processos que neutralizam as oposições, implicadas nas identificações. Nestas, temos a adesão do indivíduo a determinada palavra ou representação de grupo social

que constituem lugares onde ele se vê. Trata-se, portanto, da leitura, na palavra e no grupo por ela evocado, de um traço comum que opere ligação, ou seja, identificação (GOMES, 2006, p. 169-170). Por isso, nunca foi tão difícil, como hoje, caracterizar uma pessoa idosa, bem como crianças, jovens e adultos. “Os antigos clichês não se aplicam mais. Os aposentados de pijama e as senhoras fazendo tricô desaparecem aos poucos e dão lugar a figuras muito diferentes” (NERY, 2007, p. 47).

Portanto, levando em conta essas considerações, segundo Motta (2003), “é difícil definir velhice, inclusive como delimitação referida ao biológico, por inseparabilidade do social” (p. 228). A autora menciona que

o ponto central dessa definição forçada reside no fato de os indivíduos serem, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Idades aproximadas, ou a mesma geração, não garantem características constitucionais – relativas à resistência física, saúde, inteligência – similares, nem muito menos a qualidade de vida que a condição dessa classe enseja – acesso a conforto material, cuidados médicos, desgastes no trabalho (MOTTA, 2003, p. 227-228).

Segundo Debert (1988 apud MOTTA, 2003), “a velhice nunca é um fato total. Ninguém se sente velho em todas as situações, nem diante de todos os projetos. A velhice é uma identidade geracional permanente e constante” (p. 228). Nesse sentido, “a identidade geracional será então, muito mais mutável e de difícil fixação. Mais ainda a de velho” (MOTTA, 2003, p. 228).

Sob essa perspectiva, para Beauvoir (1990) a velhice “não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo” (p. 17). E, então, faz um questionamento: “Em que consiste esse processo? O que é envelhecer?” (p. 17). A vida, para Beauvoir (1990), “é um sistema instável no qual, a cada instante, se perde e se reconquista o equilíbrio. Mudar é a lei da vida” (p. 17). Essas mudanças é que “caracterizam o envelhecimento: irreversível e desfavorável” (BEAUVOIR, 1990, p. 17), sendo, desta forma, “um processo progressivo de mudança desfavorável, geralmente ligado à passagem do tempo, tornando-se aparente depois da maturidade e desembocando invariavelmente na morte” (BEAUVOIR, 1990, p. 17). Para Beauvoir (1990), a velhice

acarreta, consequências psicológicas: certos comportamentos são considerados, com razão, como característicos da idade avançada.

Como todas as situações humanas, ela tem um dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história. Por outro lado, o homem não vive nunca em estado natural; na sua velhice como em qualquer outra idade, seu estatuto lhe é imposto pela sociedade à qual pertence (BEAUVOIR, 1990, p. 16).