CAPÍTULO IV: PARROQUIA ATAHUALPA
4.4 Diagnóstico de la población y actividades
A partir das lembranças das idosas, é possível dizer que todas tinham algum tipo de atividade que envolvesse música em suas casas, seja ouvindo, cantando, sozinhas ou juntas, tocando, vendo outras pessoas tocarem, brincando.
As experiências musicais na família são heterogêneas e surgem nas lembranças das idosas de diversas maneiras. As reuniões de família eram momentos em que vivenciavam música com os pais, irmãos, vizinhos, amigos. D. Lara (Entrevista, dia 17/03/2010) diz que faz parte de uma família em que o canto coral é muito presente, e que “era o esporte da família” (p. 3). Sua família era responsável pelo coro de uma igreja evangélica no interior do Rio Grande do Sul. Explica que vários casais se juntavam e transformavam essas reuniões em momentos de prática coral. Nesses encontros, os casais cantavam músicas em alemão, e “aquilo se tornava... virava um canto. Quer dizer, um canto e encanto porque todo mundo se esforçava pra ter aquilo” (p. 1).
O dia do ensaio do coral era um “dia sagrado”, ou “aquela tarde ou aquela noite era sagrada” (D. Lara, entrevista dia 17/03/2010, p. 3). Em suas lembranças, nesses ensaios seu pai “dava o tom, dava os quatro tons, que são: o soprano, contralto, tenor e o baixo”, sendo que seu pai “fazia o baixo”, seus dois irmãos cantavam o contralto e a mãe primeira voz [soprano], e D. Lara e um dos seus irmãos cantavam a segunda voz (p. 3).
Depois de casada, D. Lara (Entrevista, dia 17/03/2010) se sentia incomodada porque seu marido não cantava, e, por isso, não cantava mais em casa como quando morava com seus pais. Mas um costume ela afirma que não deixou morrer, o de cantar canções de ninar: “isso eu não deixei porque eu tenho que cantar para os pequenos dormirem” (p. 6).
46 No original: Conjunto de posiciones distintas y coexistentes, externas unas a otras, definidas en
relación unas de otras, por su exterioridad mutua y por relaciones de proximidad,de vecindad o de alejamiento y asimismo por relaciones de orden, como por encima, por debajo y entre.
As reuniões de família de D. Ana Lima (Entrevista, dia 23/07/2010) também eram motivo para experiências com a música. Conta que via sempre seu tio tocar, e que, às vezes, em casamentos, ele trazia o “Pé de bode”47 pra tocar” (p. 9).
D. Marisa Estevão (Entrevista, dia 14/07/2010) se lembra de se reunir “em família, um grupinho entre amigos”, para cantar e também fazer serenatas. Os pais eram ciumentos e não deixavam os rapazes verem suas namoradas. Então, ela diz que as serenatas “amansavam os mais velhos”, os pais, e que “dessas serenatas saíram até casamentos!” (p. 6).
“E eu aprendi a ouvir a música... em casa”, é o que diz D. Rosalina (Entrevista, dia 28/06/2010, p. 1), ao contar que desde muito jovem ouvia música nas reuniões que a família fazia para comemorar alguma data. Essas comemorações “sempre renderam uma musiquinha” (p. 1). Mas, nessas reuniões, ela diz que eles “não só escutavam, mas também cantavam” (p. 4).
A família de D. Eleonora costumava se encontrar nas festas de Folia de Reis. Conta que, quando está cantando a música Cálix bento48 no Coral do AFRID,
faz uma voz diferente (referindo-se à terça) e conta que essa voz ela aprendeu
com ele [seu tio]. Ele gostava demais de cantar quando ia nas Folias de Santo Reis, sabe!? E esses tios sanfoneiros meus... também ele botava aquela voz assim, oh! [referindo-se à terça do acorde]... que de longe você escutava e falava assim: “O tio Juca está lá naquele meio”. Era o sanfoneiro, mas ele botava essa voz, fininha igual eu ponho, né!? Nem sei direito, porque eu não sei, né!? Esse negócio de música eu canto, mas eu não sei nada (D. Eleonora, entrevista dia 22/07/2010, p. 25).
Essa voz a que D. Eleonora se refere é bem característica no canto das Folias de Reis. Eles fazem uma divisão de vozes entre tônica, terça e quinta do acorde. Nesses cantos, a terça é feita uma oitava acima, ficando bem aguda e tornando-se uma das principais características do canto nas Folias de Reis.
Nessas reuniões, pode-se destacar um procedimento de experienciar a música, o cantar junto. D. Marisa Estevão (Entrevista, dia 14/07/2010) tinha um irmão e eles cantavam juntos a música Fio de cabelo. Diz que faziam “uma duplinha e cantavam os dois, juntos! Ele tocava violão. Pontilhava mais ou menos, coitadinho!
47 Sanfona de oito baixos. Esse termo é mais utilizado nas regiões nordeste e centro-oeste.
48 Música Cálix Bento. Folclore mineiro. É uma canção que faz parte do repertório cantado pelo grupo
(p. 1). E completa: “Nós dois cantávamos, nos bailes, nas festas. Era o maior show que nós fazíamos. Todos os dois novos, né!? Era bom demais!” (p. 1).
D. Nádia (Entrevista, dia 19/03/2010) também tinha um irmão que cantava e tocava. Ela conta que ele a ensinava cantar e a tocar, e que já estava “quase tocando Parabéns para você. SOzinha, sabe?!” (p. 22).
Algumas idosas contam que cantavam junto com outras pessoas, principalmente, amigos. D. Valéria (Entrevista, dia 30/07/2010) diz que “canta a vida toda”, mas não em coral. Cantava quando “juntava uma, duas amigas e fazia uma panelinha” (p. 7). E ela conta o que elas faziam quando se juntavam pra fazer essa “panelinha”: “não precisava tocar nada não. Nós cantávamos tudo junto assim... e o trem ficava bom. Sem música e sem nada. As músicas que interessavam pra nós, nós aprendíamos, né? Agora aquelas músicas assim, antigas, ichiii nós cantávamos muito!” (D. Valéria, entrevista dia 30/07/2010, p. 12).
D. Valéria (Entrevista dia 30/07/2010) diz ainda que, quando estava em casa, cantava sempre. E quando ia cantar em casa, aquelas músicas que sabia, “cantava junto” e esse costume ela tem até hoje: “quando toca uma música que gosto, aquela música que sei cantar, eu canto. Dentro de casa, mas canto!” (p. 4).
O cantar junto estava ligado, portanto, ao ambiente mais íntimo das casas, das festas, dos encontros de amigos. O marido de D. Anita (Entrevista, dia 02/08/2010) tocava cavaquinho e, de vez em quando, os dois cantavam juntos (p. 10). Hoje, como tem netos que “mexem com música”, que tocam flauta doce e teclado, diz que eles conversam sobre música, “presta muita atenção” e os incentiva muito a cantar: “Tem que cantar viu! Tocar é bom, mas tem que abrir a voz também. Tem que ajudar a cantar porque eles não cantam ainda, eles são assim: meio tímidos. Eles têm vergonha de cantar” (p. 15). Depois de contar que os netos “mexem com música”, ela perguntou: “Você sabe por que eles estão na música? Pergunta por quê?” E ela mesma responde: “Por causa da vó” (D. Anita, entrevista dia 02/08/2010, p. 12).
É interessante observar a troca de conhecimentos que acontece entre a avó, D. Anita e os netos. Essa discussão sobre práticas musicais entre gerações distintas, segundo Ribas (2006), é um debate praticamente ausente na educação musical. Ainda, segundo essa autora, “existem estudos sobre a dita educação musical informal, que embora não tenham tematizado a co-educação entre
gerações, sugerem que não só os mais novos aprendem com os mais velhos, como também que os mais velhos aprendem com os mais jovens” (p. 37-38).
Sobre esse aprender entre gerações distintas, Gomes (2009) faz uma discussão, a partir de um estudo sobre a educação musical na família. Em seu estudo, ele considera algumas formas de aprender música em família, tais como, as práticas musicais entre adultos e que são observadas por crianças. Por exemplo, “o aprendizado de um ou mais instrumentos ao ver o irmão ou irmã mais velhos praticarem” (GOMES, 2009, p. 126).