Ambos, quando perguntados sobre a importância do APL, reconheceram-no como fundamental às suas cidades. O empresário de Jaú destacou que o APL é a vitrine de sua cidade, responsável por geração de mão de obra e atração de atividade comercial, e graças a ele a cidade se transformou num centro de referência de calçado feminino e se consolidou como cidade polo na região. A concentração auxilia na atração de clientes à cidade: Jaú possui o maior shopping de calçados femininos da América Latina, com mais de 180 lojas de fábrica com vendas no atacado e varejo.
Zaccarelli (2008) menciona, em seus fundamentos adicionais de performance das aglomerações, que a concentração auxilia e se torna um diferencial, auxiliando na atração de clientes que buscam uma variedade maior de produtos e preços menores.
O empresário de SCRP destacou a importância do APL para o PIB e para a geração de emprego, e como auxiliou também no crescimento da cidade, ao projetá-la como polo na região. Assim, nota-se que os integrantes dos APLs estão conscientes de sua importância local.
Os empresários entrevistados são também líderes nos sindicatos patronais, gestores líderes dos APLs, e os maiores atuantes e entusiastas das concentrações. Eles acreditam nos benefícios da concentração e tentam estimular o seu crescimento por meio de reuniões de conscientização, tentando mobilizar, frequentemente em vão, outros empresários para a consolidação do APL. Curiosamente, esses empresários são
uma bem-sucedida união pode trazer para todos e que, enquanto o grupo permanecer disperso, as empresas não conseguirão atrair apoio.
O empresário de Jaú afirma que, apesar da proximidade geográfica entre as empresas do APL, a transferência do conhecimento entre eles não é frequente e poderia ser maior se existisse um grupo de empresas mais unido. Essa transferência é apenas esporádica e, infelizmente, os interesses individuais costumam prevalecer.
Para o empresário de Santa Cruz, também, a transferência de conhecimento existe, mas não é intensa, e os esforços para manter a união do grupo são grandes.
Para Krugman (1999) e Porter (1993), a troca de conhecimento é de suma importância para os processos de inovação e resistência do grupo, e ela acontece de forma inevitável, por conta de facilitadores, como a proximidade física do grupo. Em verdade, no caso aqui estudado, como percebemos nas entrevistas, manter a união do grupo tem sido muito difícil, pois os empresários não percebem os benefícios dessa troca.
Para Granovetter (2001), quando os laços são fortes numa relação entre indivíduos, existe um alto grau emocional e o tempo gasto junto é intenso, e, assim, a informação circula de forma veemente e redundante entre os membros do grupo. Como os laços não são intensos, isso não está acontecendo nas duas concentrações. Nessa análise, pode-se acrescentar que, se existir dependência e necessidade de sobrevivência, as relações poderão se tornar mais intensas, facilitando a troca de informações e a união do grupo.
Na afirmação de Granovetter e Swedberg (1992, p. 9):
[...] Uma ação econômica é socialmente localizada e não pode ser explicada simplesmente pelas motivações individuais. Ela está enraizada em redes de relações pessoais e não é conduzida por atores atomizados. Entendemos as redes como um conjunto regular de contratos ou conexões sociais entre indivíduos ou grupos. Uma ação por um membro de uma rede é enraizada porque se expressa em interação com outras pessoas.
Em Jaú, o empresário afirma que nem todas as empresas trabalham da mesma maneira: na sua maioria, ainda produzem artesanalmente, e muito do trabalho que era realizado internamente nas empresas passou a ser executado por terceirizados de pequeno porte. Em Santa Cruz do Rio Pardo, também, as empresas terceirizam parte do
serviço de maneira artesanal, sem estarem formalmente constituídas, funcionando em residências com o envolvimento familiar, formando, com as empresas, redes maiores; praticando, de certa forma, o modelo japonês, das montadoras automobilísticas, com a produção posterior das quantidades que foram solicitadas pelos clientes (just in time), e eliminando a necessidade de investimentos internos em máquinas e equipamentos e de gastos com mão de obra e altos encargos trabalhistas.
Ambos os entrevistados destacaram que o produto, por ser de moda, tem validade muito curta e que quem não se atualiza e investe em inovação e tecnologia pode não acompanhar as demandas do mercado.
Segundo os entrevistados, nas empresas em que as tecnologias dos dois aglomerados são comparáveis às utilizadas em concentrações reputadas como a do Vale dos Sinos, a de Franca ou a da China, elas pertencem a uma minoria de empresários que frequenta feiras e eventos, por conta própria, particularmente em Santa Cruz do Rio Pardo. Em Jaú, o entrevistado afirma que alguns empresários sindicalizados recebem eventuais subsídios para feiras e eventos da prefeitura. A grande maioria não se atualiza porque não tem recurso e não tem recurso porque não se atualiza, num círculo vicioso que, se não for rompido, pode significar falências.
Apesar do que dizem os empresários, constatamos em nossa pesquisa que, embora inicialmente o APL de Santa Cruz fosse pouco inovador, e seus estabelecimentos copiassem os modelos lançados pelas grandes empresas, de forma que estavam sempre atrasados do ponto de vista do lançamento de novos produtos, geralmente chegando ao mercado com artigos ultrapassados, fora de moda e com pouca chance de serem aceitos, aconteceu que, com a vinda do Senai e do Sebrae-SP, esses estabelecimentos compreenderam a necessidade de investir em inovação e atualmente se esforçam para acompanhar os avanços nas inovações da matéria-prima e no design.
Não são só as escolas que tornam as empresas mais inovadoras, capacitando os seus empregados, mas também a competitividade do setor tem feito com que os empresários se movimentem na direção da inovação. Inovar é uma necessidade para a sua sustentabilidade num mercado global. Para Comin e Freire (2009, p. 109)
3 Termo que remete a uma mesa de apoio que serve como local de trabalho complementar ao que é produzido nas fábricas ou em outras bancas.
para onde confluem redes sociais densas, com origem nas famílias e nas relações comunitárias, com significativo transbordamento para esferas política e cultural locais; e b) de onde partem novas redes de tipo sociotécnicas, por força dos laços criados entre estudantes (e também professores); tais laços se projetam posteriormente em suas carreiras, seja como funcionários de empresas locais, seja como empresários, o que ajuda a explicar o ambiente de intensa colaboração entre as firmas.
Tanto em Jaú como em Santa Cruz do Rio Pardo, o nível de escolaridade predominante entre os empregados das fábricas, que compõem o APL é o ensino fundamental para aqueles que ocupam posições no chão de fábrica, e o ensino médio para os que estão nos níveis de supervisão ou coordenação na fábrica e nos escritórios. Os dirigentes das empresas das duas concentrações também oferecem, em parceria com as escolas técnicas, cursos de formação, ou empregam estudantes dos cursos oferecidos por elas, instalados nos dois aglomerados.
Para o empresário de Jaú, o APL da cidade está em um momento de transição; várias empresas não estão conseguindo acompanhar a alta competitividade do setor, que envolve não só o produtor como também o lojista.
Para o de Santa Cruz, nota-se que os empresários do APL da cidade estão mais preparados que no passado em termos de gestão, e também que estão com um conhecimento superior do setor, mas que eles se mantêm cautelosos.
Este “acompanhar a alta competitividade do setor” mereceria um estudo à parte, uma vez que para acompanhar os desafios externos as empresas dependem das bancas terceirizadas, de forma que “acompanhamento” pode ser uma ilusão. Quais são os custos para manter a empresa competitiva? Certamente o caminho não é o da construção informal. com as bancas. Uma boa alternativa seria a realização de uma reforma tributária, pois esta poderia auxiliar na formalização e na construção de concentrações mais vigorosas que pudessem competir como empresas economicamente viáveis.
Em relação à exportação, constata-se que esta fica muito difícil se a empresa não comparece às grandes feiras e eventos do setor, ou ainda se não conhece os trâmites legais para essa atividade. Se o nosso mercado está sendo altamente disputado, os APLs, com apoio de entidades como, por exemplo, o Sebrae, poderiam buscar novos nichos ainda não explorados fora do Brasil. Nós somos reconhecidos como produtores de alta qualidade no setor, porque não usar isso a nosso favor?
O APL de Jaú recebeu apoio do Sebrae-SP, que realizou consultorias na área de gestão e produção e cursos de design por aproximadamente um ano, e do Senac, do Sesi e da Fatec, na oferta de cursos de gestão, produção e design dirigidos ao setor calçadista.
Um convênio realizado entre a Fatec Jaú, o Sindicalçados e a SDECT disponibilizou mais de 1.340 milhões de reais para a estruturação e implantação do Núcleo de Inteligência para o Setor Coureiro-Calçadista – NICC –, uma espécie de observatório, que é utilizado para oferecer informações para a tomada de decisão, beneficiando as empresas do setor. O NICC tem uma importância que extrapola os limites do estado de São Paulo, por ser um projeto inédito em nível nacional, com o Sistema de Inteligência Competitiva da Cadeia Produtiva de Couro, Calçados e Artefatos, em que a Fatec Jaú atua como gestora da tecnologia da informação e comunicação.
Já o aglomerado de Santa Cruz do Rio Pardo recebe apoio da Fiesp em assessoria e diagnóstico nas áreas de gestão e produção; do Sebrae-SP com eventuais subsídios para cursos de design e produção; e do Senai com a oferta de cursos de gestão, produção e design. De acordo com a Coordenadoria de Desenvolvimento Regional e Territorial, o APL de Santa Cruz ainda não apresentou um projeto que justifique o apoio da SDECT.
Entretanto, os apoios mencionados acima são extremamente pontuais e intermitentes e não fazem com que as concentrações se fortaleçam o suficiente. Eles não estão dando resultado necessário e esperado. Os aglomerados necessitam é de uma força tarefa, realizada por uma entidade com reconhecimento na área, que consiga estruturá- los e que permaneça por um período apoiando, não só financeiramente, mas também na gestão, na identificação das necessidades do grupo, na criação de uma espécie de estatuto com regras claras com direitos e deveres de cada membro. Eles precisam, inicialmente, de uma liderança externa e independente, que consiga atrair cada um dos produtores, inclusive as bancas.
Para os dois empresários, as maiores dificuldades encontradas pelo APL da cidade são: a alta competitividade do setor, incluindo fábricas e lojas; a alta inadimplência, seja das lojas com relação às fábricas, seja das fábricas com relação aos bancos, que dificulta a liberação de créditos para elas; e a discrepância do ICMS para o lojista, que é de 12% para os produtos que ele compra da região Sul e de 7% para os produtos adquiridos de Jaú ou de Santa Cruz do Rio Pardo (SP).
de forma solitária, serão poucas as sobreviventes. A inadimplência do setor é alta porque as empresas não são competitivas e porque usar crédito externo para capital de giro pode ser o início do fim, já que os juros são altíssimos e a margem de lucro está se tornando cada vez menor. Sem um órgão representativo é difícil sensibilizar, inclusive, as entidades de classe, como a Abicalçados ou a Fiesp, para que elas possam defender as empresas junto aos governos no tocante à carga tributária.
Com base nas entrevistas, nota-se que, apesar de todos os problemas citados acima, o otimismo está presente entre os empresários, de forma que pensamos que este momento seria perfeito para uma mobilização em direção à formalização da união do grupo, que precisa antes aparecer para as entidades de apoio. A SDECT se mantém passiva, à espera que as aglomerações façam um projeto demandando que os recursos sejam a elas dirigidos, o que ainda é difícil de acontecer, já que eles não sabem ainda como fazê-lo; uns poucos não conseguem decidir por tantos outros que ainda devem se juntar ao grupo.
Ambos empresários atribuem ao APL a melhora no PIB e no IDH, a urbanização crescente, e o crescimento do comércio. Eles destacam que nas referidas cidades não existe favela, e que a criminalidade é baixa, porque existe emprego. De fato o PIB, o IDH, a urbanização e o comércio cresceram e acompanharam o desempenho dos APLs. É fato que as duas localidades, como mencionado anteriormente, possuem outras atividades econômicas, mas quando se avaliou a correlação entre o desempenho da indústria de calçado e os indicadores citados, verificou-se que esta foi positiva nas duas cidades.
3.4.20.5. O APL na visão dos dirigentes sindicais patronais, dos municípios