2.11 Stiftelsen SINTEF
2.11.2 SINTEF IKT
B. como será proposto este procedimento.
A. Proposta da Clinica da Atividade e as experiências de Yves Clot
Esta proposta é muito mais uma sequência de procedimentos com um tipo de co-analise do que um método. Clot (2006, p. 127-129) explica a “clinica da atividade” assim:
[...] muitos dos resultados de nossas pesquisas acima apresentadas são inseparáveis da elaboração em andamento desse método de análise do trabalho. Trata-se de uma senda que mal se começa a trilhar, mas apresenta resultados sobremodo estimulantes. Pudemos chegar à convicção de que a análise do trabalho que praticamos é uma ‘psicologia plena’, uma psicologia do desenvolvimento da ação. [...]
40
Seria possível defini-la numa primeira aproximação como uma clinica da atividade fundada em formas diferenciadas de co-análise do trabalho. (p. 127)
Mas adiante, esclarecendo esta ideia, Clot afirma que a análise psicológica do trabalho é sempre análise de um sujeito ou de vários, numa situação ou num meio, ou seja,a verificação de como os sujeitos lidam com as dificuldades pelas quais passam e as soluções encontradas (cf. Clot, p.127 – 129).
Explicitando os procedimentos sobre as pesquisas, com as ideias da Clinica da Atividade, afirma:
Acentuemos que se trata aqui de instrumento e de gênero no sentido exato que se mantém em nossa problemática, isto é, não de um método a aplicar mas de uma metodologia de co-análise, re-concebida com eles, a cada vez singular, mas não obstante atendendo às expectativas científicas que são as nossas. (Clot, 2006,p. 129)
A proposta da Clinica da Atividade segue alguns procedimentos e etapas:
A. “Concepção partilhada das situações a serem analisadas”. É o momento no qual o pesquisadordeve observar, aproximar-se das concepções
41 evocadas pela atividade envolvida na pesquisa. Nas pesquisas desenvolvidas por Yves Clot, o pesquisador não tem conhecimentos específicos da área pesquisada, no entanto, uma etapa necessária é adquirir o que se chama nesta teoria de “concepção partilhada”, ou seja, o pesquisador precisa saber basicamente os objetivos, fatos, eventos que ocorrem nesta atividade pesquisada.
Produção de documentos vídeogravados. Vídeos das atividades e sobretudo vídeos da autoconfrontação simples (sujeito / pesquisador / imagem) e cruzada (dois sujeitos /pesquisador / imagem). As atividades do (s) sujeito(s) da pesquisa são filmadas e são a base para a reflexão / confronto (auto- confrontação) do sujeito consigo mesmo e com seus pares. A etapa da autoconfrontação também deve ser filmada e é a base para a análise do pesquisador como auxílio nas etapas seguintes de novas autoconfrontações. Várias filmagens da atividade podem ser descartadas por não abordarem o foco central da atividade ou não terem as características adequadas para compor um trecho possível de análise. Estes trechos são aqui denominados de episódios3. Este nome dado por Murta (2008) e por Aguiar e Davis (prelo) são o resultado de uma edição de imagens convergentes ao tema que se deseja abordar. Para a teoria da Clínica da atividade, o pesquisador encontra os trechos que sejam exemplares da atividade desenvolvida pelo profissional pesquisado.
Diversos estudiosos4 sobre métodos de pesquisa apontam as vídeogravações como procedimento que propicia a participação do sujeito na análise, que enriquece as descobertas da pesquisa. A possibilidade de rever os
3
Abordaremos adiante os critérios para a seleção dos episódios
4 André, 1995 (p. 108), 2002 (p. 118-120); Góes, 2000 (p. 6); Carvalho e Gonçalves, 2000 (p. 72-
42 vídeos e confrontar diferentes interpretações favorece aproximações mais refinadas, do objeto pesquisado. As imagens causam impactos e criam a oportunidade de reflexão sobre as ações do sujeito gravado.
B. Autoconfrontação. É um procedimento de confronto do sujeito com a filmagem dele mesmo. Clot (2001, p. 20-22; 2006, p.134- 135) apresenta a técnica de autoconfrontação que tem por objetivo a reflexão dos sujeitos filmados sobre sua própria atividade. Caracteriza-se por ser uma “atividade em
si, em que o trabalhador descreve sua situação de trabalho para o pesquisador”.
Ocorre junto com o pesquisador que apresenta as vídeo-gravações realizadas e reflete sobre alguns aspectos previamente elencados, os “episódios. A reflexão ocorre como uma re-descrição da atividade, porém, não é só a mera explicação, mas a busca do que está por trás do observado. É uma forma de interação entre o sujeito, a imagem e o pesquisador. É o momento no qual o sujeito fala sobre o que fez, o que poderia ter realizado, o que previa realizar e ouve, do pesquisador, questionamentos para esclarecer o que foi dito.(cf. Aguiar e Davis, 2008) O sujeito da pesquisa é grande colaborador para que a autoconfrontação se realize, ou seja, o personagem central é o próprio sujeito que se dispõe a participar do processo, assistindo aos episódios e falando de suas reflexões, de sua atividade. Por fim, Clot (2006 a, p.5) ao expor sobre como ocorre este processo afirma que “o pensamento se desenvolve na discussão, na
confrontação e, portanto, a controvérsia é a fonte do pensamento”, ou seja, o
sujeito é confrontado com sua imagem e com o pesquisador (que é uma mediação deste processo na medida em que, além de estar presente, faz perguntas, conjecturas, faz comentários sobre sua atividade), de forma que ao elaborar a descrição de sua atividade (frente ao visto na filmagem) passa por
43 controvérsias, como uma crise. A autoconfrontação também é gravada para uma nova análise.
C. Autoconfrontação Cruzada. Também utilizada por Clot na Clínica da Atividade, é o momento no qual uma terceira pessoa assiste a filmagem e emite seus comentários. Escolhe-se um colega de atividade que tenha condições de tecer alguma análise sobre o vídeo. Cria-se um diálogo do sujeito que foi gravado com os comentários da terceira pessoa. Clot (2006, p. 135-136) aponta que a autoconfrontação cruzada complementa a autoconfrontação simples(com o próprio sujeito) possibilitando mudanças significativas a partir da primeira análise. A opinião da pessoa escolhida para participar também relaciona as imagens com suas experiências e “dá um acesso diferente ao real
da atividade”.
D. “Filtragens da experiência profissional posta em discussão”. É efetivamente um tempo de co-análise. “Nesta última fase, [...] estabelece-se um
ciclo entre aquilo que os trabalhadores fazem, aquilo que eles dizem daquilo que eles fazem e, por fim, aquilo que eles fazem daquilo que eles dizem. Nesse processo de análise, a atividade dirigida ‘ em si’ torna-se uma atividade dirigida ‘para si’.” (p. 136)
Para Clot, um aspecto significativo é o pesquisador ser alguém que tenha certo afastamento da atividade, para que haja uma diferenciação do discurso da confrontação simples com a cruzada. Clot relata:
44
Não se poderia dizer melhor a que ponto o destinatário da verbalização é constitutivo dos conteúdos desta. [...] É por isso que se impõe, a nosso ver, a presença de um “não-especialista” na tarefa cuja “ingenuidade profissional” possa criar um obstáculo a essa cumplicidade, revelando paradoxalmente a utilidade da convivência entre especialistas quando não deixada a si mesmo. (2006, p. 138)
A verbalização sobre as imagens é, para esta teoria, claramente diferenciada; o interlocutor, ou seja, na autoconfrontação simples, o pesquisador que pouco ou quase nada entende da atividade em questão ou na autoconfrontação cruzada, com um par de profissão, que apresenta cumplicidade na atividade. Esta diferença da verbalização é chave importante para a análise dos dados.
A verbalização do sujeito está diretamente relacionada com o interlocutor (pesquisador ou par), de forma apossibilitar “um acesso diferente ao
real da atividade” (2006,p.135), isto é, a fala do sujeito considera não somente o
objeto (a situação filmada), mas também o interlocutor. Este interfere, quando reconhecido por suas experiências, conhecimentos ou ingenuidades sobre a atividade profissional em questão.
Ainda sobre a autoconfrontação, Clot esclarece que a autoconfrontação simples é orientada por um pesquisador, seja psicólogo ou não. Trata-se, basicamente, do trabalhador descrever sua situação de trabalho
45 para o pesquisador; a autoconfrontação cruzada amplia a possibilidade de compreensão da atividade, tendo em vista a mudança de enfoque da verbalização (conforme exposto acima) já que houve a presença do par, como interlocutor qualificado para a compreensão da atividade. A autoconfrontação cruzada é também explicada por Clot como uma “prova do poder de um tal
fenômeno (referindo-se ao que foi dito na autoconfrontação simples) [...], isto é, quando se retoma à análise em comum da mesma gravação em vídeo com um especialista do domínio (campo) [...].” (p. 135), ou seja, utilizando-se do mesmo
vídeo, primeiramente, para exploração na autoconfrontação simples e, posteriormente, na cruzada.