A utilização de métodos e técnicas em pesquisas está associada aos objetivos, às hipóteses e aos pressupostos teóricos do objeto de estudo. Assim sendo, o método exige uma escolha criteriosa e sistemática para se fazer a descrição, explicação e análise de fatos e fenômenos, que pode ser realizada a partir da abordagem qualitativa e da
quantitativa, ou ainda com aplicação simultânea desses dois tipos de abordagem
(MOREIRA e CALEFFE, 2006):
Como é sabido pela comunidade científica, cada um desses tipos de abordagem apresenta características peculiares quanto ao tratamento dos dados coletados: a pesquisa quantitativa volta-se para a mensuração dos dados através de recursos e técnicas estatísticas e a pesquisa qualitativa explora as características dos dados que não podem ser facilmente descritos numericamente, como a linguagem por exemplo.
Essa distinção entre metodologia quantitativa e qualitativa desenha-se no contexto de afiliação a dois modelos instituídos para pensar a pesquisa científica nas
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ciências humanas: o monismo metodológico e a epistemologia da diferença (SPINK e MENEGON, 1999).
O monismo metodológico advoga a favor da unidade do método científico para todas as investigações científicas. O método científico, conforme relatam Spink e Menegon, (1999) – caracterizado pela reunião organizada de procedimentos racionais utilizados para pesquisar e explicar os fatos ou fenômenos da natureza, por meio da observação empírica e da formulação de leis científicas –, reinou absoluto até o fim do século XIX não só porque os objetos de estudo derivavam basicamente das ciências físicas e naturais e a eles se adequavam, mas também porque a própria ideia de uma ciência do homem não fazia parte do panorama da época.
No apogeu das ciências naturais, o interesse pelo caráter metafísico se apagava diante do interesse prático pelos fenômenos da vida. Como a burguesia lutava pela queda da sociedade feudal, era necessário um saber que desmitificasse a visão do mundo medieval. Daí a busca por um conhecimento capaz de explicar o mundo empírico e suas leis. Para as ciências naturais, o psiquismo subjetivo do homem não constituía objeto de análise, por considerá-lo um processo natural, inato (BAKHTIN, 2004[1977]).
Somente a partir do século XIX que o humano passa a ser objeto legítimo de investigação, possibilitando a Sociologia, a Epidemologia, a Antropologia, a Economia, a Ciência Política e a Psicologia (FOUCAULT 2007[1966]). Na emergência da ciência do homem é que se trava o embate metodológico sobre a influência das ciências naturais sobre as ciências humanas, esboçando-se, deste modo, o segundo modelo: a
epistemologia da diferença. Tal modelo defende a existência de métodos apropriados
para as ciências humanas, mas como observam Spink e Menegon (1999), nem todos os domínios do saber na esfera das ciências humanas pautam-se pela epistemologia da
diferença ou seguem o método fenomenológico. No Brasil, por exemplo, há importantes
variações inter e intradisciplina, explicitadas nas discussões travadas nos anos sessenta e setenta sobre o lugar de inserção da Psicologia nos cursos universitários: se nas ciências biológicas ou humanas.
Embora não se negue o valor da abordagem quantitativa, pesquisadores passam a defender a necessidade de compreender as circunstâncias interacionais imediatas dos eventos no mundo social e do contexto histórico e cultural em que esses eventos acontecem. Esse tipo de postura fundamenta-se no paradigma da ciência contemporânea
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que se opõe ao positivismo estrito – a materialidade a priori dos fatos sociais e o determinismo unilateral desses fatos em relação aos fatos psicológicos (BRONKCART, 2008) e ao behaviorismo – observação e descrição do comportamento humano sem referência à consciência (DORON e PAROT, 2007).
É nesse contexto que nascem as técnicas de pesquisa introspectivas, biográficas, subjetivas ou interpretativistas com o objetivo de desvelar o ponto de vista dos sujeitos no interior de suas práticas sociais (MOREIRA e CALEFFE, 2006). Assim, em vez de coletar dados por meio de técnicas quantitativas como questionários fechados, argumenta-se que o pesquisador deve coletar dados por meio de técnicas projetadas para revelar as perspectivas dos sujeitos.
Influenciada pelas posições sócio-antropológicas da escola de Chicago5, pela crítica à maneira de pensar a ciência nos anos setenta e pela reflexão sobre o pós- modernismo, esse novo paradigma é adaptado às subdisciplinas: psicologia da educação, psicologia da saúde, psicologia clínica e psicologia social (ROUAN e PÉDINIELLI, 2001.).
É importante dizer, juntamente com esses autores, que a abordagem qualitativa não se define por um “qualitativismo” estrito, uma vez que recorre também à abordagem quantitativa. Desse modo, a pesquisa qualitativa é sempre semi-qualitativa: qualitativo e quantitativo são pensados no interior de um continuum em que as imbricações entre qualitativo/quantitativo tornam-se maiores. No que se refere a esta pesquisa, os dados coletados serão lidos a partir dessas duas abordagens por acreditar que a quantificação dos dados poderá subsidiar a leitura qualitativa.
Enfim, a abordagem qualitativa ou também chamada indireta considera que a investigação é construída dentro do fenômeno estudado e preocupa-se em qualificar o objeto de estudo através dos olhos dos participantes (MOREIRA e CALEFFE, 2006).
Para esses autores, o pesquisador é, então, um construtor de informações e os instrumentos (entrevistas, testes etc.) ou o processo que utiliza (psicoterapia,
5 Corrente de pensamento formada por trabalhos da universidade de Chicago entre 1915 e 1940 que
compartilhavam procedimentos metodológicos qualitativos. Ao estudar os grandes centros urbanos, sociólogos dessa corrente concebiam os sujeitos sociais como atores portadores de um saber baseado no senso comum que implicava procedimentos (um etnométodo) para realizar ações quotidianas. Tal teoria foi proposta por Garfinkel (1967). Outro paradigma dessa corrente é o chamado Interacionismo Simbólico (Goffman), que se originou no pragmatismo americano e particularmente no trabalho de George Herbert Mead, o qual demonstrou que os egos (self) das pessoas são produtos sociais, sem deixar de ser propositados e criativos. (ROUAN, G. e PÉDINIELLI, J. Aspects épistémologiques des méthodes qualitatives. In: Marie Santiago Delefosse & Georges Rouan (org.). Les méthodes qualitatives en
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psicanálise, clínica etc.), são indutores da interação, isto é, formas de estabelecer certo tipo de interação que pode permitir ao pesquisador estar simultaneamente em diversas posições: cientista, analista, sujeito, observador.
Entre os vários procedimentos que procuram construir um tipo de interação entre pesquisador e sujeitos de pesquisa há as autoconfrontações utilizadas pela Clínica da Atividade – corrente da Psicologia do trabalho, mais especificamente, da Clínica do Trabalho – que realiza seus estudos observando o agir do trabalhador in loco, na própria situação de trabalho.
Sigamos às discussões deste capítulo, discutindo os pressupostos básicos de dois desses procedimentos: A Autoconfrontação e a Instrução o Sósia.