• No results found

Número Físico Papéis Institucional (sociais,, praxiológicos e comunicativos)

Relações Objetivos

Quadro 4– Elementos de análise do contexto de produção

No esquema acima, têm-se como constituintes dos parâmetros do mundo objetivo os interlocutores da interação e o quadro espaço-temporal físico, os parâmetros do mundo sociossubjetivo compõem-se dos papéis sociais, praxiológicos (FILLIETAZ, 2002) e comunicativos dos interlocutores, suas relações e objetivos comunicativos, bem como o lugar institucional em que o texto se materializa.

4.2 A organização global dos textos

Essa fase de estudo procura identificar nos textos a organização global, a organização tópica, os tipos de perguntas e os tipos de discurso presentes nos textos.

O estudo da organização global tratou de “reconstituir o cenário que embasa o desenvolvimento do conjunto da interação” (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006:54). Para a consecução desse estudo, consideramos que os procedimentos são um tipo particular de conversação constituído por seções de abertura, desenvolvimento e

fechamento, como o gênero a entrevista (Guespin apud KERBRAT-ORECCHIONI,

1990:119).

O nível seguinte de análise – a organização tópica – tratou de estudar a maneira pela qual se efetua, passo a passo, o encadeamento das intervenções. Esse estudo foi possibilitado pela segmentação das intervenções em tópicos – sobre o que se diz (cf. BROWN & YULE 1983:73) – e subtópicos. Esse tipo de segmentação do texto deve-se ao fato de entendermos que no plano hierárquico do texto as seqüências dialogais se

75

desdobram, dando origem a quadros tópicos caracterizados pela centração num tópico mais abrangente (JUBRAN, 1992:364). Por exemplo, na ACS, as sequências dialogais que tratavam do uso do projetor multimídia e do microfone no desenvolvimento da aula, foram agrupadas em um tópico mais abrangente – “uso de instrumentos tecnológicos no desenvolvimento da aula”.

Com tal análise, objetivamos responder a dois tipos de questões: i) como se organiza o conteúdo temático dos textos? e ii) quais aspectos do trabalho docente são tematizados nesses textos? Para responder à primeira questão, utilizamos o princípio temático, isto é, buscamos identificar os conteúdos abordados nos textos, a partir do par dialógico pergunta/resposta. Além disso, conforme afirmam Fávero, Andrade e Aquino (1996), o par dialógico pergunta/resposta e o tópico discursivo estão intimamente relacionados, na medida em que a conversação se organiza por meio de tópicos que se estabelecem por meio desse par.

É preciso lembrar que a segmentação tópica é um processo interpretativo10, o que nos autoriza afirmar que, aos olhos de outros leitores com outros objetivos, o texto analisado poderia configurar-se de modo diferente. Em outras palavras, dependendo do nível – tópico ou subtópico – que o analista coloca sob enfoque, diferentes formas de segmentação são possíveis.

Para responder à segunda questão – que aspectos do trabalho docente são tematizados no texto? –, classificamos e agrupamos os tópicos presentes de acordo com a ocorrência dos mesmos. Agrupamos, por exemplo, segmentos que tratavam do uso de tecnologias no desenvolvimento da aula conforme eles foram aparecendo no desenvolvimento temático do texto.

Assim, na análise do desenvolvimento temático dos textos, nos orientamos por dois percursos metodológicos, a saber: a descrição cronológica dos tópicos presentes no texto da entrevista e a classificação desses mesmos tópicos tendo em vista a ocorrência dos mesmos. Esse percurso metodológico de segmentação dos textos em segmentos tópicos e sua “etiquetagem” permitiu-nos identificar os tópicos presentes e o jogo interlocutivo instaurado entre os participantes.

Realizada essa parte da análise, nos dedicamos ao estudo dos tipos de pergunta. Em primeiro lugar, vejamos os valores que são atribuídos ao ato de perguntar.

76

A definição desse ato não é simples, ao contrário do que se possa imaginar. Para Kerbrat-Orecchioni (2008:86), “uma questão é todo enunciado que se apresenta como tendo por finalidade obter de seu destinatário uma informação”. Além dessa finalidade mais comum, a autora assinala outros objetivos que podem ser detectados: quem pergunta sabe a resposta, mas quer saber se quem responde também a tem (como nas perguntas em sala de aula, avaliações etc.); quem pergunta quer que quem responde confesse algo (como nos interrogatórios); quem pergunta quer ter o prazer de escutar de quem responde a informação que já tem ou pensa ter (como nas perguntas feitas por casais de namorados); quem pergunta quer informar uma terceira pessoa (como nos talk show); quem pergunta quer provocar em quem responde um processo associativo (como nas entrevistas psicoterapeutas); ou ainda, quem pergunta quer ser educado, polido, em relação ao questionado (como na conversação cotidiana).

Nessa enumeração de objetivos do questionador feita por Kerbrat-Orecchioni (2008), vimos que nem sempre será fácil para quem recebe a pergunta saber exatamente qual é o objetivo real de quem faz pergunta, podendo essa dúvida ou uma representação errônea sobre o objetivo levar a diferentes tipos de respostas.

Seguindo sua reflexão sobre o ato de perguntar, Kerbrat-Orecchioni (2008) descreve os tipos de informações requeridas pelas perguntas e as funções que elas podem assumir. Segundo a autora, há dois grandes grupos: as totais, em que a informação demandada diz respeito ao valor de verdade atribuído por quem pergunta ao conteúdo proposicional global (como em “João chegou?”) por meio de respostas do tipo Sim/Não, e as perguntas parciais -, construídas com pronomes interrogativos, com as quais se pede a identificação de um dos constituintes da frase (como em “Quando João chegou?”).

Para Kerbrat-Orecchioni (2008), essas perguntas parciais veiculam pressupostos muito mais precisos do que as totais, estabelecendo um quadro muito mais restritivo às respostas, que freqüentemente são determinadas por eles. Assim, normalmente, quando quem responde se encontra em posição comunicativa inferior a quem pergunta, aquele evita entrar em conflito, respeitando o tópico colocado em pauta e as pressuposições porventura sugeridas na pergunta, mantendo, desse modo, a coerência do diálogo.

Na identificação dos tipos de discurso – discurso interativo, relato interativo, teórico, narração –, utilizamos os critérios propostos por Bronckart (1999, 2006, 2008) e já adotados em análise de textos em português por inúmeros autores há algum tempo,

77

entre os quais destacamos Machado (1998), Liberalli (1999) e seus grupos de pesquisa. Esse estudo permite abordar formas de planificação nos textos, a partir das quais se espera encontrar as marcas lingüísticas que organizam ou dão pistas para a caracterização lingüística dos gêneros. Para isso, observamos tanto as unidades que indicam implicação de parâmetros da situação de produção, quanto aquelas que indicam conjunção ou disjunção do mundo discursivo, em relação ao mundo da situação de produção. As unidades de implicação consideradas foram:

• dêiticos espaciais e temporais (aqui, lá, agora);

• pronomes pessoais de 1ª. e 2ª. pessoas do singular e do plural (eu, nós, você); • pronomes possessivos (meu, minha);

• pronome indefinido a gente funcionando como pronome de 1ª pessoa do singular e do plural;

• tempos verbais (presente do indicativo, pretérito perfeito, pretérito imperfeito, pretérito

mais que perfeito, futuro perifrástico) e

• organizadores temporais (aí, então).

Por sua vez, as unidades de conjunção ou disjunção foram:

• verbos conjugados no presente do indicativo; • verbos conjugados no perfeito do indicativo; • verbos conjugados no imperfeito do indicativo;

• verbos conjugados no futuro perifrástico com o auxiliar ir.

4.3 Os mecanismos enunciativos dos textos

Uma vez determinada a organização global dos textos, realizamos o estudo das diferentes marcas lingüísticas que possibilitam identificar as modalizações que permitem ao enunciador comentar sua própria fala, bem como a quem se atribui a responsabilidade enunciativa (MAINGUENEAU, 2001:139). Assim, nessa fase, mapeamos os dêiticos de pessoa que indiciam enunciadores presentes nos textos – eu,

78

você, nós, a gente – e identificamos a presença dos tipos de modalizadores propostos

por Bronckart (1999) – lógicos, deônticos e apreciativos.

Por fim, é preciso dizer que o estudo de um nível separadamente levou-nos à necessidade de compreensão do outro nível subseqüente, de maneira que esses níveis podem ser vistos como imagens espelhadas um do outro, sendo o contexto de produção o pano de fundo. Dito de outra forma, o estudo dos elementos lingüísticos materializados nos textos apresentou-se a partir da relação de interdependência desses índices com as propriedades da situação instaurada no ato de realização dos procedimentos.

A figura a seguir procura representar essa dinâmica dos níveis de análise dos dados:

Dinâmica dos níveis de análise dos dados

Neste capítulo, oferecemos as bases teóricas da ACS e da IAS, o contexto de produção dos dados e os procedimentos utilizados para análise dos textos.

No próximo capítulo, apresentaremos a análise dos textos, a partir da metodologia apresentada neste capítulo.

Plano global Tipos de discurso Mecanismos enunciativos Conte xt o d e pr od ão

79

CAPÍTULO 4