• No results found

Chapter 6 – Conclusion

3. Method

4.1 Aerial thermography of a PV system

4.1.3 Single infrared photos

Essas visitas aconteciam todos os sábados pela manhã, na comunidade, e eram realizadas por duplas multiprofissionais e interdisciplinares, formadas por estudantes de Psicologia e extensionistas de outros cursos, participantes do Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família (PEPASF), com o qual o “Para Além” estabelecia uma relação multiprofissional e interdisciplinar.

De forma semelhante ao que já vinha ocorrendo através do PEPASF, nessas visitas, as duplas multiprofissionais e interdisciplinares se inseriam nas casas, colocando-se disponíveis para dialogar com as famílias cadastradas pelo Projeto a respeito de suas questões e demandas particulares e/ou vividas coletivamente, objetivando acompanhar e assistir essas famílias em seu processo saúde/doença. Nessa perspectiva, compreendiam-se a saúde e o referido processo como fenômenos que, relacionados às condições e à qualidade de vida em que viviam as pessoas, sofriam determinações sociais. Assim, entendíamos que os “fatores econômicos, como renda, emprego e organização da produção, interferiam, positiva

ou negativamente, na saúde dos agrupamentos populacionais”. Tínhamos consciência que, “os ambientes de convivência e de trabalho podem ter efeito mais ou menos lesivos à saúde das pessoas”. Nesse contexto, considerávamos também que a cultura e os valores assim produzidos tinham grande influência sobre a saúde dos sujeitos (CAMPOS in CAMPOS et al., 2006; BARATA in CAMPOS et al. 2006).

Durante essas visitas que, geralmente, começavam com uma simples saudação, as duplas multiprofissionais e interdisciplinares procuravam conversar com as famílias, de modo natural e espontâneo, sobre assuntos e aspectos que lhes fossem de interesse ou que lhes estivessem gerando alguma inquietação e/ou sofrimento implícito ou explícito. Assim, depois de um “Bom dia” ou um “Como vai Seu Fulano ou Dona Fulana?”, a conversa se iniciava, envolvendo os olhares e as experiências diferenciadas de cada sujeito (estudantes e professor) dos cursos ali representados, nos limites e possibilidades pessoais e profissionais de cada um (a), em diálogo com as experiências e saberes dos moradores.

Durante esse diálogo, os participantes do “Para Além”, juntamente com seu (sua) companheiro (a) de dupla, dispunham-se a escutar, de modo respeitoso e sensível, as falas dos sujeitos e responder a elas, confirmando que haviam entendido o que estava sendo dito, o que facilitava o fluir da comunicação que, nem sempre, era tão fácil de ser estabelecida nos primeiros contatos com as famílias. Essa comunicação ia acontecendo de maneira mais fluida, com o evoluir do processo de construção de vínculos com as famílias visitadas. Somente com esse vínculo estabelecido era que os (as) estudantes do “Para Além”, seguindo as premissas da Psicologia Humanista enfatizada, eram orientados (as), em momentos oportunos do diálogo e da escuta envolvida, a tentar problematizar, de modo profundamente humano e genuinamente relacional (Eu-Tu), o conteúdo dessas falas, inserindo outros elementos ou conhecimentos sobre a situação vivida e/ou sofrida pelo (s) sujeito (s), de modo a favorecer a compreensão do seu sofrimento e a identificação das condições possíveis de seu enfrentamento. Assim, orientados (as) pelas premissas da Educação Popular, as duplas multiprofissionais e interdisciplinares discutiam com os sujeitos e as famílias visitadas sobre as condutas e os encaminhamentos possíveis de serem feitos, no sentido de enfrentar as situações vividas tanto no âmbito particular quanto coletivo.

Muitas vezes, as conversas com as famílias, giravam em torno de temas que, às vezes, pareciam banais e sem muito sentido, inclusive, sem referências a assuntos relativos à saúde, o que nos deixava com a sensação de inutilidade, de estarmos num “blá, blá, blá” (BUBER, 1974), e isso, realmente, também ocorria. Entretanto, por várias vezes, fomos surpreendidos (as), nesses momentos de aparente superficialidade, com o surgimento de questões mais profundas, relacionadas às situações de opressão e de sofrimento pessoal e familiar e que também envolviam questões relativas ao desemprego; à insuficiente renda familiar; à falta de comida e de água; à perda de um ente querido por causa da violência do tráfico; à opressão do (a) companheiro (a), à doença física e/ou mental, entre outros. A prontidão na condução do diálogo criava espaço para a conversa ir além dos temas normalmente entendidos como relacionados às questões de saúde.

No âmbito das reflexões desenvolvidas, no decorrer do diálogo com as famílias, e buscando discutir em roda sobre as possibilidades de enfrentamento conjunto das situações sofridas por essas, fomos identificando e recorrendo às várias redes informais solidárias existentes na comunidade. Assim, em várias situações de sofrimento e de opressão vividos pelas famílias, solicitamos e dispusemos da ajuda de vários grupos, setores e instituições, situados tanto na comunidade quanto na sociedade, de uma forma geral, no enfrentamento dos problemas.

Dessa forma, além do apoio disponibilizado pelos projetos de extensão parceiros (PEPASF, “Fisio na Comunidade”, PEPAST, PROENF, entre outros), também contamos com o apoio de diversos outros coletivos e instituições parceiras, dentre os quais, podemos citar o apoio e a parceria da Associação Comunitária (ACOMAN), disponibilizados por seus associados e suas diferentes lideranças comunitárias; pessoas das igrejas, profissionais do PSF, pessoas da creche e de diversos setores da gestão pública municipal e estadual, com os quais o Projeto estabelecia interlocução, juntamente com os moradores da comunidade. Nessas visitas, a conduta adotada encontrava seus fundamentos tanto na Educação Popular freireana quanto na Psicologia Humanista de Rogers.

No que tange à Educação Popular enfatizada, observamos que os (as) participantes do Projeto “Para Além”, nessas visitas domiciliares, encontravam-se coerentemente orientados (as) pelas premissas da Educação Popular relativas à

necessidade de se partir, em qualquer prática social, das demandas concretas dos sujeitos e de poder construir as ações mediadas pelo diálogo entre os sujeitos envolvidos. A nosso ver, estava subjacente também à conduta adotada a premissa de valorização e possibilidade do diálogo entre os que são detentores do saber popular e os que detêm o saber científico, visando entender e enfrentar as questões sofridas. Observamos, então, que as visitas domiciliares realizadas por duplas multiprofissionais e interdisciplinares também demonstraram coerência com as premissas de Freire, no tocante à ênfase dada á importância e à necessidade de se estabelecer o diálogo multiprofissional e interdisciplinar no ato educativo. Identificamos, ainda, nessas visitas, a premissa relativa à importância da ação coletiva e de se contribuir para o fortalecimento das redes informais solidárias, no enfrentamento das demandas vividas no meio popular (FREIRE, 2011a; FREIRE, 2011b; MELO NETO, 2010; VASCONCELOS, Eymard, 2006).

No tocante aos fundamentos da Psicologia Humanista de Rogers (1977a), identificamos, no diálogo com as famílias visitadas, o respeito aos princípios relacionados à premissa de que os sujeitos são a maior autoridade, o centro de onde devem partir a relação e o diálogo. De acreditar que os sujeitos têm a capacidade de saber o que lhes é mais importante compartilhar e de definir a direção em que deve ser estabelecido o diálogo. Nas bases desses princípios e premissas rogereanas, encontram-se subjacentes o respeito à experiência (o vivido, aquilo que é subjetivamente experimentado) dos sujeitos e a confiança de que eles detêm uma “sabedoria organísmica” (isto é, que é oriunda do próprio sujeito como totalidade biopsíquica, um organismo), direcionando o seu comportamento, no sentido do seu crescimento, autopreservação e manutenção de sua centralidade (Self). Trata-se de uma premissa que considera qualquer invasão ou ameaça a essa centralidade como inadequada por incorrer em riscos à integridade psíquica dos sujeitos e ao seu desenvolvimento (KINGET e ROGERS, 1977b).

Tendo em vista os princípios de respeito à centralidade dos sujeitos, lembro, no contexto de explicitação dessas premissas rogereanas, o caso de uma senhora idosa que visitei, há algum tempo, na comunidade. Na ocasião, ela me falou sobre o sofrimento e a dificuldade que vivenciou na relação com uma estudante, participante de uma dupla multiprofissional e interdisciplinar, que insistia em tocar em assuntos que a faziam sofrer muito, quando a visitava, principalmente, sobre a perda de dois

filhos e do marido, ocorridas em anos subsequentes. O desconforto era tanto que esta senhora chegou a falar que pedia fortemente a Deus para que a referida estudante não voltasse mais a sua casa. Falou, também, do alívio que sentira quando recebeu a informação de que ela não poderia mais visitá-la por questões pessoais. Fiquei muito sensibilizada ao ouvi-la, por perceber o quanto isso foi traumático para ela. Ao mesmo tempo, fiquei preocupada ao imaginar que o ocorrido pudesse ter sido provocado por alguém da Psicologia, devido aos psicologismos dominantes no mundo acadêmico. Mas, apesar de isso ser possível, não foi o que aconteceu. A referida senhora me informou que a pessoa com quem estabeleceu esse tipo de contato foi uma estudante de outro curso. Esse caso ilustra, de forma sucinta, o quanto pode ser antidialógica e antissalutar uma relação, mesmo que imbuída de uma intencionalidade de promover saúde. Atentos (as) a esses riscos, os (as) participantes do “Para Além” se dispuseram a experimentar, no contato e no diálogo com as famílias da comunidade, as atitudes facilitadoras propostas por Rogers (1985) de aceitação, empatia e autenticidade (congruência). Buscavam se expressar de maneira sensível, respeitosa e acolhedora, desenvolvendo uma escuta fenomenológica (que valoriza o subjetivo, o particular) e, ao mesmo tempo, reflexiva e existencial (dialógica) frente às comunicações feitas pelas pessoas.

Como já havíamos ressaltado, inicialmente, as visitas domiciliares multiprofissionais e interdisciplinares eram atividades específicas do PEPASF e em desenvolvimento, antes mesmo da inserção do “Para Além”, na comunidade. Entretanto, com a nossa chegada, fomos nos inserindo, gradativamente, na referida atividade, e passando a construir a história do nosso Projeto, construindo outras ações. Nesse contexto, lembro que as visitas domiciliares foram a via de inserção inicial do nosso Projeto na comunidade. Paralelamente à referida atividade fomos confrontando-nos com outras demandas e avançando em outras frentes de atuação, como forma de responder aos chamados dos sujeitos, expressados pelos diferentes grupos sociais e setores ali residentes. Fomo-nos direcionando, gradativamente, para a construção de outras estratégias de cuidado em saúde: implantamos o plantão psicológico na comunidade; criamos o grupo de criatividade para as crianças, e também grupos de encontro comunitário, o qual, posteriormente, transformou-se num grupo de cuidado envolvendo moradores, estudantes e os

trabalhadores da Unidade de Saúde da Família local, além de outras ações e estratégias que serão descritas a seguir.