Chapter 6 – Conclusion
3. Method
4.4 Analysis
4.4.1 Equivalent heat emission through a roof
A atuação da Psicologia na Atenção Primária à Saúde é evidenciada num período bem anterior ao período da criação e implementação do SUS. Observamos, nesse sentido, que, já, a partir da década de 1970, vários (as) psicólogos (as) passaram a desenvolver experiências nas comunidades periféricas do nosso país, por meio de diferentes modos de inserção e de práticas. Como observa Freitas (1998), existiam (e existem, até hoje) várias formas de atuação da Psicologia, na Atenção Primária à Saúde, umas orientadas por perspectivas teórico-metodológicas mais conservadoras e outras por orientações mais político-transformadoras.
Assim, havia (e ainda há) um tipo de inserção da Psicologia nas comunidades populares, mais identificada com o trabalho filantrópico (de caridade) voltado para os mais desfavorecidos. Nesse tipo de inserção, o (a) psicólogo (a) oferecia e ainda oferece sua ajuda às pessoas, realizando atendimento psicológico de baixo custo ou gratuito, implantando serviços e estratégias psicológicas para que a população melhore e se adapte às exigências da sociedade instituída, ou que, no mínimo, diminua seus problemas e sofrimentos. Além disso, havia e ainda continua havendo outra forma de inserção do (a) psicólogo (a) no contexto comunitário guiada pela curiosidade científica em conhecer esse “ser estranho: as populações mais desfavorecidas, dessa maneira, grandes [...] contingentes de universitários passaram a caminhar nos bairros populares fazendo entrevistas, questionários e vários outros instrumentos importados de outros contextos e modelos” (FREITAS, 1998, p.3).
Divergindo, entretanto, dessas tradicionais e conservadoras formas de inserção da Psicologia, havia e continua havendo experiências da Psicologia no âmbito da Atenção Primária à Saúde, que apontam para um tipo de inserção mais crítica e político-transformadora do (a) psicólogo (a) nas comunidades populares. Nesse tipo de inserção são observadas experiências, que se situando na contra mão da Psicologia Clínica e Social hegemônicas, utilizavam (e ainda utilizam) os referenciais da Educação Popular e do materialismo histórico dialético como ferramentas de sua práxis. Nessa direção, existiam experiências que visavam colaborar para organizar os setores oprimidos da sociedade, voltando-se para a
militância e a participação políticas. Outras, que, desde a década citada, apontavam para um tipo de inserção do (a) psicólogo (a), que se orientava pelo compromisso com a transformação das condições vividas cotidianamente pela população. Essa perspectiva de inserção da Psicologia considera que é a população quem deve estabelecer o caminho do trabalho a ser desenvolvido, apontando às suas necessidades prementes (FREITAS, 1998).
Merecem ser mencionadas, nesse contexto, as contribuições desenvolvidas por Sílvia Lane e Wanderley Codo, entre outros representantes históricos, que muito contribuíram para reorientar a práxis do (a) psicólogo (a) social e da Psicologia da Ciência. Silva Lane (2004), analisando, de forma histórica, a relação entre a Psicologia e a Psicologia Social, teceu críticas veementes à Psicologia americana desenvolvida a partir de 1950. Essa autora criticou essa psicologia, por sua finalidade pragmática, cuja intervenção deveria garantir a produtividade, minimizar os conflitos sociais e tornar os homens “felizes”. Criticou, também, a Psicologia europeia, por sua tradição filosófica, com raízes na fenomenologia, que, segundo ela, buscava “modelos científicos totalizantes, como Lewin e sua teoria de campo” (LANE, 2004, p. 10).
De acordo com sua análise, as perspectivas psicológicas referidas, se inseriam, de forma específica, no contexto político-ideológico do período pós- Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, como bem observou Lane (2004), já no seio dessa mesma Psicologia Social e de seus estudos, esses modelos começaram a ser questionados em meados da década de 1960, “quando as análises críticas apontavam para uma „crise‟ do conhecimento psicossocial que não conseguia intervir nem explicar, muito menos prever comportamentos sociais” (Idem; p.11).
A referida autora também observa que, na América Latina, até 1976, a Psicologia Social oscilava entre a influência da Psicologia americana e da Psicologia europeia, uma oscilação que, num congresso internacional, realizado em Miami, no referido ano, culminou em várias críticas e novas propostas por parte do grupo da Venezuela. Esse momento resultou na organização da Associação Venezuelana de Psicologia Social (AVEPSO), que passou a coexistir com a Associação Latino- Americana de Psicologia Social (ALAPSO). Salientamos, de acordo com a autora, que, nesse período em que foi criada a ALAPSO, vários psicólogos brasileiros também criticavam o tipo de Psicologia Social instituída e buscavam novos
caminhos para a Psicologia, de forma a atender ás demandas da nossa realidade social. Esses movimentos culminaram em 1979, em Lima (Peru), “com propostas concretas de uma psicologia social em bases materialista-históricas, voltadas para trabalhos comunitários, agora, com a participação de psicólogos peruanos, mexicanos e outros” (LANE e CODO, 2004).
Nessa perspectiva crítica de atuação, tanto a tradição biologicista quanto o sociologismo da Psicologia, em geral, foram problematizados, pois, em suas tentativas de descrever e de explicar o homem e seu comportamento, o ser humano, como produto histórico-cultural, é desconsiderado, reproduzindo assim, os interesses e a ideologia da classe dominante. Por sua vez, contrapondo-se a esse tipo de concepção abstrata do ser humano, a Psicologia Social Crítica, ao enfatizar o ser humano como um sujeito histórico e criativo, capaz de transformar a realidade em que vive, nega as dicotomias físico x psíquico, individual x social, objetividade x subjetividade, entre outras, e enfatiza as experiências e os processos grupais, coletivos como vias de desenvolvimento da consciência social. No contexto desse estudo, consideramos importante ressaltar as implicações metodológicas envolvidas na perspectiva em questão, ao destacar o trabalho com grupos e a pesquisa-ação como estratégias fundamentais à práxis do (a) psicólogo (a) social crítico (LANE, 2004).
O trabalho com grupos é visto, assim, “como condição necessária para conhecer as determinações sociais que agem sobre o indivíduo, bem como sua ação como sujeito histórico” (LANE, 2004, p.78). O grupo é, portanto, considerado como ação histórica, que só pode ocorrer quando os indivíduos se agrupam. Nessa linha de raciocínio, Lane (2004) desenvolveu um estudo sobre o processo grupal e identificou, a partir de algumas teorias sobre o tema e de algumas experiências observadas, os aspectos reprodutivos da ideologia dominante nas diferentes concepções e práticas. Por outro lado, verificou nesses espaços que é possível superar as contradições existentes, rumo à transformação social, desde que o grupo se analise como tal (LANE, 2004, pp.78-98).
No tocante à pesquisa-ação como via de produção do conhecimento, se considera a impossibilidade de se gerar um conhecimento “neutro” e que não tenha interferência em nossa existência. Conforme essa perspectiva, a prática científica e a relação pesquisador- pesquisado,
[...] se definem por relações sociais que tanto podem ser reprodutoras como transformadoras das condições sociais onde se inserem: desta forma, conscientes ou não, sempre a pesquisa implica intervenção, ação de uns sobre os outros. [...] A pesquisa em si é uma prática social onde pesquisador e pesquisado se apresentam enquanto subjetividades que se materializam nas relações desenvolvidas, e onde os papéis se confundem e se alternam, ambos objeto de análise e portanto descritos empiricamente (ibid. p.18).
Orientando-se por essa perspectiva de produção do conhecimento e de atuação comunitária observamos o trabalho desenvolvido na década de 80, em Belo Horizonte/Minas Gerais, pelo Professor Willian Castilho Pereira, da PUC-MG, e Eduardo Mourão Vasconcelos, dentre outros profissionais de diferentes áreas do conhecimento, na comunidade denominada Cabana do Pai Tomás. Essa experiência refletiu uma pesquisa-ação que, envolvendo a comunidade, visava, inicialmente, “investigar as demandas de saúde mental que estavam constantemente emergindo no posto de saúde no Bairro de Antena” (bairro no qual a comunidade do Pai Tomás estava inserida) e “desenhar serviços alternativos que pudessem responder a essas demandas” (VASCONCELOS, Eduardo; et al, 2002, p 243). Orientando-se pela perspectiva da Psicologia institucional e da Psicanálise, e fortalecendo os grupos de diferentes faixas etárias e temáticas, já existentes na comunidade, a referida prática social, que durou dez anos, foi se desdobrando numa práxis que contribuiu significativamente para a organização e o empoderamento político dos moradores no processo de reivindicações, luta e algumas conquistas em direção aos seus direitos por uma melhor assistência à saúde e à saúde mental.
No início da década de 90, observamos uma expansão dos trabalhos dos (as) psicólogos (as) com as pessoas das camadas populares, os quais eram baseados em variadas práticas, com diferentes referenciais teóricos e metodológicos. Nesse período, era comum se utilizar a denominação Psicologia da Comunidade. A atuação dos (as) psicólogos (as) estava vinculada basicamente aos postos de saúde, órgãos ligados às questões familiares, instituições penais. O envolvimento dos profissionais da Psicologia, nas questões ligadas á saúde coletiva, e a sua postura eram de um trabalhador social dentro desse movimento de saúde. Nesse período, a Psicologia passa a ser vista como uma profissão da área de saúde, com o intuito de desenvolver uma psicologia menos academicista, menos intelectual e mais ligada às questões do povo no contexto comunitário. Nessa direção, surge a
denominação Psicologia Social Comunitária que, utilizando o enquadre teórico da Psicologia Social Crítica, privilegiava o trabalho em grupo, colaborando para a formação da consciência crítica e para a construção de uma identidade social e individual (FREITAS, 1998).
Nessa mesma década, e seguindo essa perspectiva de atuação crítica da psicologia social, temos notícias de alguns relevantes trabalhos desenvolvidos, na década de 1990, por pesquisadores da América Latina (Costa Rica, Porto Rico, Venezuela, entre outros), os quais merecem ser citados. Na Costa Rica, podemos citar o trabalho desenvolvido por Teresita Cordero e H. Hernán Hermosilla (1996), que analisa a problemática psicossocial de plantadores de banana que, devido ao uso contínuo de praguicidas, ficaram esterilizados e prejudicados em suas relações cotidianas e perspectivas sociais de vida. Em Porto Rico, podemos nos referir ao estudo realizado por Irma Serrano-Garcia e Lydia S. Andújar (1992), que desenvolveram um trabalho na perspectiva de prevenção ao câncer oral, que envolveu vizinhos e amigos, em um bairro onde havia um alto índice de alcoolistas. Na Venezuela, podemos citar os trabalhos desenvolvidos por Maritza Montero (1991; 1994; 1995), no Bairro San José de La Urbina, que envolveram a associação comunitária e grupos de moradores na construção de relações comunitárias participativas. No Chile, o pesquisador Domingo Asún desenvolveu trabalhos com grupos de jovens em uma proposta de prevenção da saúde. Na Argentina, podemos citar Enrique Saforcada, que trabalhou com agentes de saúde oriundos da própria comunidade em uma perspectiva de educação problematizadora (FREITAS, 1998).
No contexto atual de implementação do SUS, observamos vários estudos relacionados à atuação da Psicologia na APS com vistas à efetiva inserção e contribuição do (a) psicólogo (a) no referido contexto e modelo de assistência á saúde. Esses estudos, apesar de abordarem o tema, a partir de diferentes perspectivas psicológicas (como por exemplo, a psicologia social crítica, a psicologia comunitária, de enfoque multirreferencial, a psicologia institucional, a psicologia clínica, de enfoque fenomenológico, entre outras) têm em comum tomarem como ponto de partida as limitações e as insuficiências da formação profissional e os desafios colocados aos (às) psicólogos (as) na atual conjuntura e organização dos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, esses estudos identificam o conhecimento acumulado pela Psicologia como relevante no sentido de poder contribuir para o
processo de humanização do cuidado em saúde e a necessária emancipação dos sujeitos e seus coletivos, nesse âmbito de atenção (FRANÇA e VIANA, 2006; TRAVERSO-YÉPEZ, 2001; TRAVERSO–YÉPEZ e MORAIS, 2004; COSTA e BRANDÃO, 2005; SOUSA e CURY, 2009).
Entretanto, percebemos, no contexto desta pesquisa, que a maioria dos estudos desenvolvidos acerca da atuação da Psicologia na APS, no contexto do SUS, têm centrado seus objetivos e reflexões mais na perspectiva da atuação do (a) psicólogo (a) na esfera da saúde mental em sua interface com a Estratégia Saúde da Família (ESF), como tem sido usualmente concebida a sua atuação. Nesse sentido, evidenciamos uma contradição, pois, nas últimas décadas, vem-se lutando para a definição de um papel mais amplo do psicólogo (a), na área da intervenção em saúde, visto que tanto a formação quanto a intervenção profissional do (a) psicólogo (a) têm estado, geralmente, restritas ao campo da saúde "mental" e da prática clínica individual (RONZANI e RODRIGUES, 2006; TRAVERSO-YEPEZ, 2001; TRAVERSO-YÉPEZ e MORAIS, 2004; SOUSA e CURY, 2009, entre outros). Lembramos, assim, que, conforme o Conselho Federal de Psicologia (CFP), a atuação do psicólogo (a) contempla diversas áreas (educação, saúde, segurança, justiça, lazer, trabalho, comunidades e comunicação), visando promover o respeito à dignidade e à integridade do ser humano.
Tendo em vista essa amplitude e abrangência do trabalho do (a) psicólogo (a), a função do (a) psicólogo (a) é definida como aquela que,
[...] procede ao estudo e à análise dos processos intrapessoais e das relações interpessoais, possibilitando a compreensão do comportamento humano individual e de grupo, no âmbito das instituições de várias naturezas, onde quer que se dêem essas relações. Aplica conhecimento teórico e técnico da Psicologia, com o objetivo de identificar e intervir nos fatores determinantes das ações e dos sujeitos, em sua história pessoal, familiar e social, vinculando-as também a condições políticas, históricas e culturais (Conselho Federal de Psicologia, 2005, p. 01).
Mas, como salientamos, anteriormente, ainda predomina uma visão limitante com relação à contribuição da Psicologia, no âmbito da APS, ao se situar, identificar e restringir a práxis do (a) psicólogo (a) com a questão da saúde mental, isto é, com o cuidado às pessoas com transtornos psíquicos, e não com a atenção integral à saúde. Apesar desse dado, observamos, por outro lado, que a maioria dos estudos levantados traz contribuições importantes no tocante à atuação da Psicologia na
APS, ao discutir de modo específico, aspectos importantes a serem considerados na práxis do (da) psicólogo (a), no referido âmbito de atenção à saúde. Um desses aspectos enfatizados está relacionado à necessidade de se atentar para os aspectos da subjetividade do (a) usuário (a) e do trabalhador (a) de saúde envolvidos no processo de cuidado. A ação multiprofissional e interdisciplinar além de fundamental e necessária ao trabalho em saúde apresenta-se como um dos grandes desafios colocados ao (a) psicólogo (a) no atual contexto de sua inserção na APS (TRAVERSO-YÉPEZ, 2006; (TRAVERSO-YÉPEZ, 2001; TRAVERSO- YÉPEZ e MORAIS, 2004)
Com relação a esse aspecto, esses estudos têm chamado a atenção para a necessidade de se definir um perfil específico e adequado a esse novo modelo de assistência à saúde do SUS. Segundo essa perspectiva, ao atuar de forma multiprofissional e interdisciplinar, nesse campo, a ação do (a) psicólogo (a) deveria forçosamente partir de uma visão holística de saúde, em que o psicólogo (a), assim como os demais profissionais em formação
(...), deveriam ter oportunidade de compartilhar, desde os anos da graduação, um espaço permanente de encontro baseado numa concepção sistêmico-ecológica da vida humana. Esse espaço teria como objetivo gerar uma base conceptual comum para lidar com o processo saúde-doença numa perspectiva interdisciplinar (TRAVERSO-YÉPEZ, 2001; p.9).
Nessa perspectiva é enfatizada a necessidade de superarmos a visão antropocêntrica e individualista do modelo hegemônico de atenção à saúde vigente e promover uma atuação profissional baseada na escuta e no diálogo, e não, na imposição de "receitas" (prescritivas, verticalizantes), como correntemente vem sendo feito. A escuta assim enfatizada deve valorizar o sujeito e sua experiência. O modelo biomédico é criticado como também o modelo psicossocial, por ainda privilegiar, na prática, a etiologia biologicista, também predominante na Psicologia, em que, na relação com os sujeitos, buscam-se estabelecer relações de causalidade, a partir de bases biológicas para explicar e “tratar” as enfermidades físicas e psíquicas (TRAVERSO-YÉPEZ, 2001).
A escuta, sendo enfatizada como o dispositivo que deve permear toda a relação sujeito/usuário, precisa respeitar às diversas formas de linguagem e de
expressões simbólicas dos diversos sujeitos envolvidos no processo de atenção. Segundo essa visão, o (a) psicólogo (a) teria muito a contribuir com a equipe multiprofissional para o desenvolvimento dessa e de outras habilidades técnicas, visto que a sua formação clínica o (a) favorece mais precisamente.
Essa perspectiva considera, assim, que, no âmbito da ação profissional em saúde, deve-se atentar para a necessidade do estabelecimento de relações horizontais (dialógicas), que favoreçam o exercício da criticidade entre os sujeitos, e a construção coletiva de alternativas. Elementos esses que devem permear o intercâmbio entre os membros da equipe de profissionais e a relação profissional/paciente-usuário do serviço. Nesse contexto, estar atento e valorizar as questões da subjetividade envolvidas no processo de trabalho e da atenção disponibilizada são atitudes consideradas fundamentais (TRAVERSO-YÉPEZ, 2001; TRAVERSO-YÉPEZ e MORAIS, 2004).
Orientando-se por essas premissas, o trabalho do psicólogo é considerado como de suma importância, no âmbito da promoção da saúde da comunidade, compreendida geograficamente na área de atuação do PSF, sem que se tenha que negligenciar a questão da saúde mental. Com relação a esse âmbito, são destacadas as habilidades e as competências do (a) psicólogo (a) para acolher, escutar, diagnosticar e encaminhar aos serviços de referência os casos mais complexos ou que necessitam de reabilitação.
Em suma, o (a) psicólogo (a) seria aquele (a) profissional que, ao apresentar sensibilidade para as questões de ordem psíquica, inerentes aos sujeitos e às relações sociais, teria muito a contribuir com essa perspectiva, tanto no que diz respeito aos aspectos preventivos quanto à manutenção dos aspectos saudáveis da comunidade alvo, priorizando a melhoria na qualidade de vida da população. Assim, seriam muitas as possibilidades de ação em que este profissional poderia contribuir para o avanço do processo da reforma antimanicomial (TRAVERSO-YÉPEZ, 2001).
Numa perspectiva, de reconhecimento da importância e das várias possibilidades de contribuição do (a) psicólogo (a) no âmbito da APS, França e Viana (2006), tendo em vista às diversas áreas de atuação e as especificidades do trabalho do (a) psicólogo (a), consideram notório que as atribuições do referido profissional tornam imprescindível a sua presença no contexto da Atenção Primária à Saúde, como que é proposto no PSF. Nessa direção, argumentam em favor da
importância e contribuição desse (a) profissional no processo de implementação da Reforma Psiquiátrica, uma vez que esta prioriza a desconstrução do dispositivo e do paradigma da Psiquiatria manicomial, por meio da humanização do serviço e da desinstitucionalização dos usuários, tanto agudos quanto crônicos, implicando maior participação da família e da sociedade, em seu processo de reabilitação e ressocialização.
[...] o PSF, em sua essência, trabalha com a lógica da desinstitucionalização com maior ênfase no vínculo, estando suas equipes intensamente engajadas no cotidiano da comunidade, incorporando ações de promoção e educação para a saúde na perspectiva da melhoria das condições de vida da população (FRANÇA e VIANA, 2006, p. 252).
Segundo essas autoras, a perspectiva, assim, enfatizada, aponta um terreno propício para o desenvolvimento do trabalho do (a) psicólogo (a) na ESF, uma vez que, este se faz necessário, principalmente, no que diz respeito à prevenção e à promoção da saúde mental, tanto na Atenção Primária quanto na manutenção dos aspectos saudáveis, sempre considerando os recursos disponíveis na comunidade onde atua e suas potencialidades. Mas, apesar de outros estudos corroborarem com importância e a necessidade de inserção do (a) psicólogo (a) no cotidiano da ESF e vida comunitária, acreditamos que esta possibilidade de inserção do psicólogo (a) na ESF como parte integrante da sua equipe mínima é uma luta a ser empreendida por esta categoria profissional, visto que, apesar de ser reconhecida a necessidade desse profissional na ESF, sua alocação está legalmente prevista para os Núcleos de Apoio à Estratégia Saúde da Família (NASF), como bem preconiza o atual modelo de assistência à saúde.
Com relação aos desafios colocados ao (a) psicólogo (a) frente à ação multiprofissional e interdisciplinar observamos alguns aspectos interessantes no estudo desenvolvido por Neckel et al (2007) envolvendo diversos profissionais das equipes de um município do sul do Brasil. O referido estudo visava refletir sobre a integralidade na atenção primária e a composição das equipes de saúde da família, na perspectiva dos integrantes da equipe mínima do PSF, caracterizando as possibilidades de atuação e contribuições de outros profissionais de saúde do PSF.
Ao destacarmos os aspectos importantes relacionados ao referido estudo, consideramos pertinente observar que a interdisciplinaridade é considerada como uma forma de se buscar ultrapassar o aspecto individual e clínico, visando
desenvolver uma abordagem integral dos sujeitos. Nesse sentido, o referido introduz os conceitos de Campo e de Núcleo, para designar, de modo específico, as