Na ausência de projetos conscientemente elaborados pelas famílias de camadas populares, voltados para a construção de uma carreira escolar que conduza ao ensino superior, e mesmo na ausência de práticas familiares de engajamento específico que pudessem explicar essas situações de longevidade, o acontecimento de êxitos escolares parciais, bem como chances e oportunidades favoráveis ao percurso escolar, identificadas nas biografias desses alunos, têm aparecido como mais um elemento explicativo para a longevidade, pois tais acontecimentos têm atuado de modo a reorientar o curso escolar. (VIANA, 1998; 2000; 2009; 2011). Dessa forma, os êxitos escolares iniciais, compreendidos aqui como ausência de reprovações e bom desempenho acadêmico, constituíram-se, segundo Viana (2011), como “circunstâncias produtoras de sentidos, disposições e práticas que tenderam a reforçá-lo, e se transformaram numa base importante, embora insuficiente por si só, para a continuidade dos estudos” (p. 51). Dias (2010) corrobora com os achados de Viana ao encontrar evidências de
que muitos alunos oriundos de camadas populares tendem a aproveitar as chances de estudar que aparecem em suas vidas, vivenciando esse processo por etapas. Resultados semelhantes foram encontrados por Lacerda (2006).
Andrade (2012), por sua vez, a partir de relatos biográficos, também identificou, no percurso escolar de alunos de camadas populares, a inexistência de um projeto consciente que levasse ao ensino superior. Verificou, no entanto, a construção progressiva desse projeto a partir de êxitos escolares parciais como notas e êxito inicial nos primeiros anos de estudo. Desse modo, os excelentes resultados escolares reformularam os projetos de escolarização, ampliando possibilidades. Piotto (2007), também identificou o surgimento de oportunidades escolares consequentes ao bom desempenho acadêmico, como obtenção de bolsa integral de estudos para cursar o pré-vestibular.
Andrade (2012) encontrou, ainda, a vulnerabilidade permeada pela aleatoriedade, ou seja, a presença da imprevisibilidade no processo de construção da carreira escolar, de modo que esses alunos contassem com as oportunidades que apareciam.
Como se nota, a partir dos estudos mencionados acima, o acontecimento de êxitos parciais escolares, bem como de determinadas oportunidades externas ao contexto familiar pode vir a reorientar o curso escolar desses alunos, de modo a influenciar positivamente o alcance da longevidade escolar. Pois, tal qual teorizado por Bourdieu (1998), comumente, os planos para o futuro de um indivíduo são decorrentes da interiorização do que seria passível de se alcançar, obter, levando-se em conta as perspectivas médias de sua categoria social de pertencimento. Afirma, ainda, que tal julgamento dá-se por meio de uma “estimativa empírica”, isto é, baseia-se em dados da realidade vivida. Dessa forma, depreende-se que a percepção interna de um indivíduo, sobre suas possibilidades de alcançar determinada posição ou bem, pode alterar-se em razão da vivência de determinados eventos externos.
Nesse capítulo buscou-se descrever, a partir da revisão de estudos anteriores, quais elementos explicativos têm sido identificados, na literatura recente, como associados a trajetórias escolares prolongadas nas camadas populares. Ainda que apresentados, para fins didáticos, de forma isolada, compreendemos que se trata de um fenômeno complexo, que não se limita a ser explicado por um único fator isolado, mas de forma interdependente. Fato que se confirma pelos estudos mencionados acima que congregam, simultaneamente, a presença de mais de um fator explicativo. Assim, torna-se mais coerente problematizar tais elementos como combinando-os de modo a criar configurações sociais e pessoais suscetíveis a trajetórias
escolares prolongadas em camadas populares. Estabelece-se, assim, o desafio investigativo de compreender como e quais combinações se fazem necessárias para criar tais configurações.
Levando-se em conta, portanto, a complexidade de tal fenômeno, no próximo capítulo, serão apresentados o percurso investigativo e a configuração do nosso campo de pesquisa, de modo a apontarem-se os caminhos metodológicos percorridos para a investigação de tais trajetórias.
2 O PERFIL SOCIOECONÔMICO E DEMOGRÁFICO DOS ESTUDANTES DA UFOP BENEFICIADOS PELO SISTEMA DE COTAS
Os dados que serão apresentados a seguir foram extraídos do banco de dados cedido pela Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis da UFOP - (PRACE/UFOP) e refletem informações socioeconômicas e demográficas dos alunos que acessam o ensino superior da UFOP por meio do sistema de cotas, em seus quatro agrupamentos.8 Assim, por meio desse banco de dados, foi possível obter informações acerca do perfil pesquisado: alunos com faixa de renda familiar entre os valores pertencentes às classes D e E; uso do sistema de cotas; pais com escolaridade inferior ao ensino superior; e ter cursado as etapas escolares anteriores no ensino público ou como bolsista em escolas particulares. Os dados referem-se aos anos de 2013 e ao primeiro semestre do ano de 2014. Esse recorte temporal foi feito tendo em vista obter dados que contemplassem o período recente de obrigatoriedade da política nacional de cotas em instituições federais de ensino superior e instituições federais de ensino técnico de nível médio, criada para a inserção de frações da população pouco representadas no ensino superior.
Para a descrição e análise dos dados socioeconômicos e demográficos desses alunos foi feita, ainda, a seguinte subdivisão: dados educacionais (tipo de escola frequentada no ensino médio e tipo de ensino médio cursado, curso de graduação vinculado, grupo de cotas vinculadas à entrada na universidade e situação da matrícula); dados socioeconômicos (renda
per capita e familiar; ocupação dos pais, posse de bens (número de automóveis, imóvel além
da moradia, tipo de moradia da família e do aluno).