A ocupação profissional tem sido compreendida como mais um indicador sobre a posição social dos indivíduos (ALVES E SOARES, 2009). Assim, para análise do ofício dos pais13 recorremos aos estratos definidos a partir de um trabalho original de Pastore (1979). Apesar do distanciamento temporal entre a publicação desse estudo e a nossa investigação, optamos por manter tal critério, tendo em vista a descrição das ocupações parecer coerente com os outros indicadores socioeconômicos apresentados acima.
Gráfico 12 - Ocupações dos chefes de família agrupadas por estrato social
Fonte: elaborado pela própria autora a partir do banco de dados da PRACE/UFOP
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13 Utilizamos a denominação pais para designar os chefes de família, provedores da renda familiar, que, na nossa pesquisa, contemplam tanto os pais como as mães.
Assim, os dados acima sugerem, a partir da ocupação dos pais, o pertencimento, majoritário, ao estrato social médio-inferior, caracterizado pela baixa escolaridade associada à atividade profissional exercida. Compõem esse estrato as ocupações artesão; cabeleireiro; carpinteiro; chefe de cozinha; cobrador; costureiro (a) cozinheiro; cuidador de criança/idosos; datilógrafo; depiladora; eletricista; funcionário público - nível fundamental ou sem escolaridade; impressor; instrutor de autoescola; manicure/pedicure; marceneiro; motorista; mototaxista; operador de máquinas e equipamentos; operador de telemarketing; padeiro; pedreiro; pintor; porteiro; recepcionista; secretário; segurança; serralheiro; servente de pedreiro; taxista e vigilante. Identifica-se, portanto, uma possível mobilidade social ascendente dos filhos em relação a seus pais e mães, tendo em vista as ocupações exercidas por esses, associadas a uma baixa escolaridade.
Apesar de a segunda maior concentração de pais de alunos estar no nível médio- superior, supostamente um nível de maior prestígio, percebeu-se que as ocupações que exigem a formação em nível superior possuem poucos representantes nesse caso. Algo em torno de 5%, composto por Administrador; Analista de Tec./Sis; Assistente Social; Atuário; Bancário; Contador; Educador físico; Enfermeiro; Estatístico; Farmacêutico; Fisioterapeuta; Funcionário-público nível superior; Museólogo; Odontólogo; Pedagogo; Professor; Químico e Turismólogo, confirmando, diante da baixa frequência com que aparecem no banco de dados analisado, a característica principal dos pais desses alunos, a saber, possuírem baixa escolaridade, tal qual sugerido acima.
Ressalta-se, ainda, a presença da categoria “outros” composta por donas de casa (do lar) sem rendimento, em menor número, e com rendimentos provenientes de aluguel ou pensão. Há, também, a presença de chefes de família estudantes que, como no caso das donas de casa, foram classificados como outros por não terem sido contemplados no modelo utilizado.
Dentre as ocupações mencionadas, chamam a atenção, em razão da maior frequência com que aparecem, os pais professores (7,5%), funcionários públicos (4,5%), técnico de nível médio (4,1%); pequeno proprietário/comerciante (5,9%) e mães do lar ou pensionistas de aluguel (5,4%). Sobre essas ocupações pode-se aventar a hipótese de que elas tenham agregado, como no caso dos pais professores, o desenvolvimento de ações voltadas para um acompanhamento sistemático dos filhos e mesmo a ostensiva cobrança por bons resultados. (ANDRADE, 2012; CARVALHO, 2012; LACERDA, 2006; NOGUEIRA, 2011; SILVA
SOUZA, 2009; SOUZA, 2009). Ou, no caso dos pais pequenos comerciantes, funcionários públicos, técnicos de nível médio, esses podem ter agregado no sentido de propiciarem uma maior estabilidade econômica, provendo a presença de condições materiais adequadas, possibilitando, por consequência, um melhor planejamento escolar para os filhos. (VIANA, 2009; ALMEIDA, 2012; CARVALHO, 2012). Já sobre as mães do lar ou pensionistas de aluguel, a contribuição, talvez, que lhes caiba, possa ser decorrente da maior disponibilidade para acompanhar o filho. (DIAS, 2010; PORTES, 1993; VIANA, 1998; 2000). No entanto, esses indícios só poderão mais bem averiguados após realizarmos as entrevistas em profundidade, que poderão contemplar tais situações fornecendo elementos para discussão.
Nesse capítulo, portanto, tratou-se do perfil socioeconômico e demográfico dos estudantes da UFOP beneficiados pelo sistema de cotas, de modo a contextualizar tal dimensão em nível macroestrutural e abrangente do ponto de vista do número de pessoas compreendidas nos bancos de dados. Na seção seguinte, oferecemos a discussão em nível microssociológico, de forma a aprofundar as informações relacionadas à trajetória escolar desses alunos, captadas por meio de relatos autobiográficos.
3 SUBGRUPO ENTREVISTADO: A DIMENSÃO QUALITATIVA
De um modo geral, compreende-se que a pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, na medida em que abrange dimensões da ordem dos significados, das crenças, valores, atitudes, tornando-se, por conseguinte, sensível aos fenômenos humanos e sociais. (MINAYO, 2001). Assim, pareceu-nos apropriado adotar o recorte qualitativo tendo em vista o nosso objeto de investigação, qual seja, compreender, em profundidade, a trajetória escolar extensa de alunos de camadas populares, beneficiados pelo sistema de cotas. E tratar da temática de trajetórias escolares, tendo em vista sua dimensão microssociológica, requer a utilização de métodos que possibilitem, exatamente, investigar as ações das pessoas em sociedade, suas crenças, valores e até mesmo os modos de interação, entre outros aspectos que tratem do indivíduo em seu meio social.
Assim, por não ser possível reduzir os elementos constituintes dessas trajetórias a um tratamento operacional de variáveis, mas sim tratá-los de modo a compreender as relações sociais dos indivíduos e suas práticas, optamos pela metodologia qualitativa e seus instrumentos de investigação. Em nossa pesquisa, em especifico, esses instrumentos foram o questionário e a entrevista, ambos semiabertos.
O questionário foi aplicado primeiramente, de modo complementar à entrevista, aos oito alunos representantes das grandes áreas de conhecimento e que fizeram uso do sistema de cotas para entrada no ensino superior. Além dos questionários, esses mesmos estudantes responderam, individualmente, na sequência, a entrevistas em profundidade, em formato semidiretivo. Optou-se pelo questionário, semiaberto, como uma forma de compor a análise qualitativa, buscando-se obter respostas objetivas em torno da escolarização e informações sócio econômicas dos alunos investigados, bem como de suas famílias. Assim, investigou-se idade, religião, estado civil, renda pessoal e familiar, escolas por onde passaram e natureza administrativa das mesmas, escolaridade e ocupação dos pais e avós, entre outros dados que os caracterizariam de forma ampla e que foram mais bem investigados na entrevista.
Optamos por usar a entrevista, por sua vez, por se tratar de um instrumento bastante usual no trabalho de campo, na medida em que possibilita extrair informações contidas nas falas dos atores sociais, retratando uma determinada realidade. (MINAYO, 2001)
Assim, para além de um simples artifício de coleta de informações acerca de determinado tema, a entrevista em questão possibilitou a obtenção da biografia dos sujeitos pesquisados, de modo a auxiliar na compreensão do percurso familiar e de escolarização desses indivíduos.
Os resultados provenientes desses instrumentos de coleta de dados serão apresentados a seguir, em dois momentos. Um primeiro, que aborda os aspectos descritivos e analíticos extraídos dos questionários. E, um segundo, que apresentará a análise do conteúdo das entrevistas de modo a indicar categorias que reflitam os elementos ou configurações explicativas identificados como associados à longevidade escolar desses alunos investigados.