No ajustamento do modelo de Cox, utilizou-se o processo de selec¸c˜ao de vari´aveis, proposto por Collett (2003) e referido no Cap´ıtulo 2 (sec¸c˜ao 2.3.3).
Apenas os casos que n˜ao apresentavam valores omissos nas vari´aveis explicativas permaneceram na an´alise, pelo que a base de dados passou a ser composta por 8 586 casos.
A primeira fase do processo de selec¸c˜ao consiste em efectuar uma an´alise uni- variada, de modo a avaliar a influˆencia de cada vari´avel, por si s´o, no tempo at´e ao desenvolvimento de SIDA. Os resultados obtidos encontram-se na Tabela 3.6.
Tabela 3.6: Valor da estat´ıstica -2 log ˆL e do valor-p associado ao teste de raz˜ao de verosimilhan¸cas obtido na an´alise univariada para o VIH-1.
-2 log ˆL valor-p Nulo 22738 - AZT 22471 4,9×10−60 Sexo 22707 2,4×10−8 IdadeG 22629 1,7×10−23 Origem 22732 0,1 Ctrans 22628 1,27×10−24 CD4 21604 5,8×10−247
Nesta an´alise univariada (Tabela 3.6) verificou-se que todas as vari´aveis reve- laram influˆencia significativa no tempo at´e ao desenvolvimento de SIDA dos in- div´ıduos com infec¸c˜ao pelo VIH-1 (α = 10%). A maior redu¸c˜ao em -2 log ˆL observou-se para a vari´avel CD4, dado que o valor da estat´ıstica passou de 22738 para 21604.
Na segunda fase, constru´ıu-se um modelo com as seis vari´aveis explicativas que foram consideradas importantes na fase anterior. Omitiu-se depois uma vari´avel explicativa de cada vez, verificando se havia um aumento significativo do valor da estat´ıstica -2 log ˆL. Obtiveram-se os resultados constantes na Tabela 3.7.
Pela an´alise da Tabela 3.7, observa-se ent˜ao que quando se omite uma vari´avel explicativa de cada vez do modelo, o valor de -2 log ˆL em cada um dos casos au- menta, embora para a vari´avel Sexo e Origem seja um pouco aumento. Assim, as seis vari´aveis explicativas que se revelaram estat´ıstica e epidemiologicamente signi- ficativas ser˜ao inclu´ıdas no modelo de Cox final.
Tabela 3.7: Valor da estat´ıstica -2 log ˆL e do valor-p associado ao teste de raz˜ao de verosimilhan¸cas obtido na compara¸c˜ao de modelos para o VIH-1.
-2 log ˆL valor-p
Modelo Completo 21250 -
Modelo sem CD4 22180 1,4×10−202 Modelo sem Ctrans 21349 3,1×10−22 Modelo sem Origem 21257 0,03225 Modelo sem IdadeG 21318 1,17×10−14
Modelo sem Sexo 21253 0,0437
Modelo sem AZT 21423 1,6×10−39
Legenda: Modelo Completo = AZT+Sexo+IdadeG+Origem+Ctrans+CD4
Constru´ıu-se um modelo de Cox com as vari´aveis AZT, Sexo, IdadeG, Origem, Ctrans e CD4 e obtivemos os seguintes resultados:
Tabela 3.8: Resultados para o VIH-1 utilizando o modelo de regress˜ao de Cox.
ˆ
β exp( ˆβ) se( ˆβ) Teste de Wald valor-p IC (95%) AZT2 -0,773 0,462 0,058 -13,391 < 0, 0001 [0,412; 0,517] Sexo1 0,029 1,029 0,072 0,404 0,690 [0,895; 1,185] IdadeG2 0,439 1,551 0,066 6,621 3,6×10−11 [1,362; 1,767] IdadeG3 0,616 1,852 0,089 6,877 6,1×10−12 [1,554; 2,207] IdadeG4 0,607 1,835 0,121 5,035 4,8×10−7 [1,449; 2,324] Origem2 0,197 1,218 0,108 1,819 6,9×10−2 [0,985; 1,505] Origem3 -0,436 0,647 0,252 -1,728 8,4×10−2 [0,394; 1,060] Ctrans2 0,711 2,037 0,081 8,734 < 0, 0001 [1,736; 2,389] Ctrans3 0,113 1,120 0,1200 0,944 3,5×10−1 [0,885; 1,417] CD42 -1,467 0,231 0,064 -22,771 < 0, 0001 [0,203; 0,262] CD43 -2,139 0,118 0,089 -23,871 < 0, 0001 [0,099; 0,140]
Legenda: AZT2 - casos diagnosticados desde 1997; Sexo1 - sexo masculino; IdadeG2 - entre 30 e 39 anos; IdadeG3 - entre 40 e 49 anos; IdadeG4 - 50 ou mais anos; Origem2 - naturalidade africana; Origem3 - outra naturalidade; Ctrans2 - categoria de transmiss˜ao “toxicodependentes”; Ctrans3 - categoria de transmiss˜ao “homossexual”; CD42 - n´umero de linf´ocitos T CD4+entre 200 µL e 499 µL; CD43 - n´umero de linf´ocitos T CD4+ superior a 499 µL.
Na Tabela 3.8 podemos constatar que as vari´aveis Sexo, Origem2, Origem3 e Ctrans3 n˜ao apresentam significˆancia estat´ıstica a 5% no desenvolvimento de SIDA. Vamos agora obter a estimativa dos riscos relativos. Assim, para cada vari´avel, para os casos com iguais valores nas restantes vari´aveis podemos afirmar:
• Os casos diagnosticados desde 1997 apresentam, aproximadamente, 54% menos risco de desenvolver uma doen¸ca indicadora de SIDA do que os casos diagnos- ticados antes de 1997;
• Os casos do sexo masculino tˆem praticamente o mesmo risco de desenvolver SIDA do que os casos do sexo feminino (RR = 1,029; valor-p=0,69);
• Um caso diagnosticado no grupo et´ario dos 30 aos 39 anos, dos 40 aos 49 anos ou no grupo et´ario de 50 ou mais anos apresenta 55,1%, 85,2% e 83,5%, mais risco, respectivamente, de desenvolver SIDA, do que um caso diagnosticado no grupo et´ario dos 13 aos 29 anos;
• O facto de um caso ter naturalidade africana representa um pior progn´ostico para evoluir para SIDA do que um caso que apresenta naturalidade portuguesa. No entanto, se um caso referir outra naturalidade apresenta, aproximada- mente, 35% menos risco de evoluir para SIDA do que os casos de naturalidade portuguesa. Contudo, o efeito desta vari´avel n˜ao se mostrou significativo a 5% (valor-p=0,069 e valor-p=0,084), n˜ao estando assim associada ao risco de desenvolver SIDA;
• Ser “toxicodependente” aumenta o risco de desenvolver SIDA relativamente a um caso “heterossexual” em 2,037 vezes, ou seja, um caso diagnosticado com categoria de transmiss˜ao “toxicodependentes” tem, aproximadamente, mais do dobro do risco de desenvolver alguma doen¸ca indicadora de SIDA do que um caso diagnosticado na categoria de transmiss˜ao “heterossexual”;
• Um caso na categoria de transmiss˜ao “homossexual” tem 1,12 vezes (12%) o risco de desenvolver SIDA relativamente ao caso diagnosticado na categoria de transmiss˜ao “heterossexual”. Contudo, o seu efeito n˜ao se mostrou si- gnificativo (valor-p=0,35) pelo que os casos diagnosticados nesta categoria de transmiss˜ao n˜ao est˜ao associados a um aumento do risco de desenvolver SIDA; • Os casos que apresentam um n´umero de linf´ocitos T CD4+ entre 200 µL e 499 µL tˆem, aproximadamente, 77,1% menos risco de evoluir para SIDA do que os casos com um n´umero de linf´ocitos T CD4+ inferior a 200 µL.
• Em rela¸c˜ao aos casos com um n´umero de linf´ocitos T CD4+ superior a 499 µL
verifica-se que apresentam um melhor prog´ostico na evolu¸c˜ao para SIDA do que os casos com um n´umero de linf´ocitos T CD4+ inferior a 200 µL, uma vez
que tˆem, aproximadamente 88,2% menos risco de evolu¸c˜ao.