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Dia virá teve repercussão distinta da de Reportagem de um tempo mau, que foi vetada

pelo Departamento de Diversões Públicas (D.D.P.) e não teve nenhuma menção na mídia. Dia

virá, por sua vez, teve certo destaque na imprensa, com sua abordagem estética que trazia

como protagonista um ator negro na figura de Jesus. Inicialmente, consideraremos a crítica de Sábato Magaldi, intitulada Dia Virá, uma história de cristo na base do ginásio61. Nela, ele descreve a peça como um exercício literário e fala sobre a encenação e o desempenho interpretativo dos atores. Além disso, aponta os acertos e as falhas da apresentação:

[...] será obrigatório reconhecer-lhe um certo mérito: Plínio Marcos está acostumado a lidar muito bem com a linguagem do submundo e salta nessa peça para a elevação bíblica, mostrando-se capaz de sair do seu estilo costumeiro. Desse ponto de vista, a experiência é animadora e anuncia para o autor outras possibilidades. O texto falha onde se mostra insatisfatória qualquer recriação evangélica. A Bíblia é em si tão rica e se estratificou numa linguagem tão elevada que as novas exegeses ou as variações estilísticas em torno dela resultam sempre pobres e dispensáveis. Essa história de um Judas revolucionário, que trai Jesus para propiciar a rebelião popular, pode ser curiosa, mas não transcende no espetáculo a brincadeira infantil. O autor não dispõe também a força literária para evitar que as longas tiradas de Judas ou de Maria permaneçam na má retórica. A música, em grande parte plagiada de “Morte e Vida Severina”, contribui para prejudicar o alcance artístico da encenação. Um trabalho escolar, em suma, de inegável dignidade.

Os discursos da crítica veiculados pela mídia constituem-se por vontades de verdade e saber, atuando na sociedade como um mecanismo que exerce poder ao aprovar ou não a forma de linguagem assumida na peça. Em razão da posição ideológica que ela ocupa, em um espaço institucionalizado, a imprensa fala de uma posição de autoridade. Aqui, o crítico teatral exerce o papel daquele que é conhecedor e, por isso, pode falar sobre o assunto. Quando diz, por exemplo, que seria obrigatório reconhecer um certo mérito, o emprego do                                                                                                                          

61 Disponível em: http://www.pliniomarcos.com/criticas/diavira-sabato.htm. Acesso em: 23 de setembro de 2016.

adjetivo [obrigatório] admite, impositivamente, que tal trabalho merece ser valorizado, apesar de Plínio Marcos estar acostumado a lidar muito bem com a linguagem do submundo. O uso do advérbio de intensidade [muito bem] reforça a ideia de o dramaturgo ter certa aproximação com esse ambiente marginalizado. Para Magaldi, esse afastamento do escritor do vulgar – do profano – é o que deve ser ressaltado, e não o fato de a peça ser uma metáfora das relações de poder entre homens e nem a questão de deslizar para o campo político.

O crítico ainda enuncia que a peça possui “um certo mérito”, isso quase indetermina e certamente diminui o valor reconhecido ao trabalho de Plínio Marcos. Desse modo, se é imposto ao enunciador reconhecer/identificar qualidades positivas na que analisa, caso contrário, talvez, ele não o faria.

Em seguida, Magaldi traça os pontos negativos apresentados em Dia Virá, fala que a

recriação evangélica é insatisfatória, uma vez que a Bíblia, sendo um livro tão rico, foi

estratificada numa linguagem tão elevada que as novas exegeses ou as variações estilísticas

em torno dela resultam sempre pobres e dispensáveis. Ou seja, a linguagem erudita é

sinônima de conhecimento, mais precisamente, de um grau elevado de sabedoria, cultura etc. Sendo assim, um “mau uso” dela produz o sentido de que o sujeito não possui estudo, denotando simplicidade e/ou desconhecimento. Magaldi ainda critica a reatualização da história de Judas, ao transformá-lo em um revolucionário, renegando a Cristo para possibilitar condições para uma insurgência popular. E conclui dizendo que as músicas presentes são “em

grande parte plagiadas” do poeta João Cabral de Melo Neto (Morte e Vida Severina). Em

suma, é um trabalho escolar digno – há uma ironia na fala do crítico, que concebe a peça mais cópia do que obra de arte original. É válido ressaltar que Magaldi fala da forma e do estilo para não falar praticamente do conteúdo.

A peça Jesus-Homem (1978) é a 2ª versão de Dia Virá (1967). Sobre seu texto, observamos também formulações de críticos que depõem a favor da peça de Plínio Marcos. Nelas, diferentemente da posição de Magaldi, são ressaltados aspectos inovadores ao reatualizar a Paixão de Cristo e a sua estética bela, simples e prática. Sobre a questão arquitetônica da montagem do espetáculo, entre os anos de 1960 e 1980, o teatro brasileiro se viu obrigado a passar por transformações em decorrência da ditadura e do controle artístico. Por décadas de luta contra a censura, a crise econômica reduziu e afastou expressivamente o público das casas de espetáculos. Essa diminuição de espectadores somado à falta de investimentos aumentava os custos de realização das peças. De modo geral, havia poucos textos que não fossem proibidos, censurados.

Nesse sentido, conforme expõe Clóvis Garcia, Plínio Marcos foi “uma das principais

vítimas do processo de repressão, não somente tendo suas peças interditadas, mas sendo, ele mesmo, um autor proibido, apesar da sua importância”. Reparemos que Garcia define Plínio

Marcos como “uma das principais vítimas” do governo autoritário. A escolha por um termo [vítima] e não outro em seu lugar [culpado/revoltoso/transgressor/subversor] produz determinados efeitos de sentido. Ao eleger o vocábulo vítima, podemos inferir que o crítico é partidário da luta enfrentada pelo escritor contra os procedimentos repressivos e censórios. O emprego da formulação no plural – uma das principais vítimas – nos permite depreender também que não somente Plínio Marcos sofreu com a censura (apesar da grande ocorrência de interdições em seus trabalhos, pelo simples fato de terem sido escritas por ele), mas também vários artistas cuja escrita subvertia as regras impostas.

Vejamos, agora, outro conjunto de formulações que circularam em grandes jornais e revistas da imprensa brasileira, tais como: a revista Isto é, os jornais Folha de São Paulo e O

Estado de São Paulo. Todas as publicações são de 1981, momento em que se dava um

relativo abrandamento político no Brasil.

[1] Qual então a novidade desse Jesus-Homem no processo de criação do dramaturgo? Primeiro, a mescla cada vez mais poderosa que Plínio estabelece entre seu teatro e formas de cultura popular. Segundo, sua incursão pelos campos do lirismo. Terceiro, sua opção por uma visão contemporânea de Jesus, que considera como um místico, mas também como um revolucionário. O lirismo que perpassa o texto revela uma faceta pouco conhecida do escritor. A obra comove pela delicadeza, pela força, pela conhecida revolta de Plínio, que aqui ganha uma dimensão extra, banhada de ternura. Sua pintura de um Jesus revolucionário, que deseja mudar o homem e, a partir dele, a sociedade, apenas acrescenta impacto ao trabalho. A peça fala ao coração do homem simples. O autor atinge seu intento por inteiro (Alberto Guzik – Revista Isto é – 07 de janeiro de 1981). [2] Os que ainda olham com suspeita a obra de Plínio Marcos terão uma surpresa. O dramaturgo parece sair do submundo – sua temática habitual – e ousa fazer um peça falando de Jesus. Mas, se os mesmos adversários (e os admiradores, claro) do dramaturgo prestarem atenção com rigor notarão que, na realidade, Plínio continua no submundo. Seu Jesus Cristo é original, dos mendigos, prostitutas e desempregados. Desvalidos de toda espécie, enfim. O escritor deixou os bordéis, os cais e as pensões em direção aos dias antigos da Galileia, mas com a mesma preocupação por esta gente que, como acentua, está se danando por aí (Jéfferson Del Rios, Jornal Folha de São Paulo – 11 de janeiro de 1981).

[3] O espetáculo, num amplo espaço formalista, que permite a mudança de local com poucos elementos ou com a iluminação, com maleáveis figurinos, cenário e indumentária de Gilda Bandeira de Melo, é belo visualmente, com o diretor Plínio Marcos jogando com movimentos de grupo de atores. Incorporando a nossa música, razão pela qual Zeca da Casa Verde, Jangada,

Talismã e Toniquinho, batuqueiros do grupo, não se apresentam antes, como nos demais espetáculos, mas dentro da ação, com um ator negro, João Acaiabe, de grande força dramática no papel-título, e todo o grande elenco integrado na representação, a montagem resulta num excelente espetáculo. E, se o Bando não quer dar lições a ninguém, sem dúvida dá exemplo de como ainda se pode fazer bom teatro e sobreviver entre nós (Clóvis Garcia – Jornal O Estado de São Paulo – 13 de fevereiro de 1981).

É possível evidenciar, a partir do léxico empregado nos três textos para falar da obra de Plínio Marcos, uma avaliação altamente positiva, que, por sua vez, contrasta com a crítica de Magaldi que identifica e atribui pareceres negativos de Dia Virá. Essa disparidade marca épocas e condições de produção diferentes, além de evidenciar posições discursivas distintas. Conforme já mencionamos, Magaldi fala da posição de crítico “imparcial” enquanto os outros [também críticos teatrais] deixam mais evidente a sua adesão ao trabalho do dramaturgo.

Os textos [1] e [2] abordam o fato de Plínio Marcos ter proposto um Cristo revolucionário e um Judas resistente. Já o [3], não trata especificamente do conteúdo, mas se aprofunda do estilo e da forma. Guzik declara que a obra Dia Virá “comove pela delicadeza, pela força, pela conhecida revolta de Plínio banhada de ternura”. Tal formulação se contrapõe não apenas a crítica de Magaldi, como já dissemos mais acima, mas, inclusive, com o que já foi falado em outros momentos de outras na mídia brasileira. O escritor “maldito” comumente retomado e aludido à subversão, aqui, os adjetivos [delicadeza e ternura] imputados ao texto de Plínio produz o efeito de que o escritor em alguma medida está mais sensível. Ao empregar tais enunciados [delicadeza e ternura] produz-se também que a delicadeza e a ternura se estendeu à linguagem da peça e nas relações entre as personagens assim como no discurso resistente e revoltoso.

Del Rios também fala dessa mudança de ambiente discursivo do dramaturgo. Todavia, o crítico evidencia [Plínio continua no submundo] que mesmo falando a partir do discurso religioso Plínio não foge de suas características, isto é, falar em nome dos desfavorecidos e marginalizados. O enunciador adota também uma linguagem que se aproxima daquela muito utilizada por Plínio Marcos ao comparar o discurso religioso com o discurso marginal [Seu Jesus Cristo é original, dos mendigos, prostitutas e desempregados].

Desse modo, podemos concluir que Plínio Marcos foi censurado por falar “mal” da Igreja e do Governo em nome do povo, deslocando a linguagem bíblica para conteúdos considerados profanos, isto é a subversão e por isso gera censura. Desta feita, analisaremos, no próximo capítulo, os discursos cujo efeito instaura uma censura de ordem moral.

3. RESPEITARÁS OS BONS COSTUMES: A CENSURA E A

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