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As relações de mentoria geralmente acontecem de forma espontânea. Este estudo, entretanto, tentou compreender como mentores e mentorados se relacionariam em um programa formal de mentoria. A temática ‘relação de mentoria’ nas falas dos entrevistados foi bastante elucidativa. Contando com o número expressivo de 147 evocações sobre o tema, 109 ou 74,15% descrevem relações positivas com ênfase em aprendizado, respeito mútuo e amizade, conforme os relatos abaixo:

Eu achei ótimo. Tive a oportunidade de conviver mais com o meu mentor, que é uma pessoa maravilhosa [...] Eu me senti ótima. Achei que foi algo muito importante para mim. Foi uma boa experiência (Mentorada 6, entrevista em 22 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Eu tive muito contato com ela e ela me fez enxergar uma outra pessoa dela. Antes eu tinha respeito apenas, agora tenho admiração [...] Só posso dizer que foi ótima, né? Foi maravilhoso e me acrescentou muito na vida (Mentorada 2, entrevista em 21 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Ah, esta parte foi ótima... desde antes do processo que a gente sempre conversava sobre as aulas, pelos corredores mesmo. Se cumprimentava, falava sobre coisas da vida. No face a gente sempre mantinha contato... comentava as coisas. Foi uma relação amigável sempre (Mentorada 3, entrevista em 21 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Foi muito bom mesmo... uma grande oportunidade para mim... acho que foi um momento muito especial para mim [...] Foi uma experiência que eu vou guardar pra vida (Mentor 9, entrevista em 28 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Foi algo muito novo para mim... mas tenho como uma ótima experiência para relatar (Mentora 10, entrevista em 28 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Olha a relação foi muito boa [...] Pra mim foi muito positivo porque tem hora que nesse dia a dia, as vezes (sic) incomoda algumas coisas de ações minhas, então essa mentoria quando você começa a conversar com a pessoa, (sic) ela acaba te dando um feedback (Mentor 8, entrevista em 10 de Dezembro de 2013, grifos nossos).

Quatro respondentes reportaram dificuldades na relação com os mentores. No entanto, os que citaram relações negativas, apresentaram comportamentos reativos, o que não corrobora com as características desejáveis de mentorados pelos mentores. Entretanto, após reconsiderarem suas afirmações, perceberam que deveriam ter assumido um papel mais proativo da relação:

Deixou a desejar [...] Ele me deixou a vontade (sic) [...] Eu também deveria ter procurado ele mais (Mentorada 1, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Eu só encontrei com (cita o nome da mentora) para conversar sobre isto apenas duas vezes. [...] A gente acabou se encontrando muito pouco por conta do meu tempo e do dela. [...] Eu acho que faltou um pouco de interesse... eu ter ido mais atrás (Mentorado 11, entrevista em 20 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Eu, eu... esperava mais contato. Eu, eu... acreditava talvez... não sei. Acreditava que teria que haver mais diálogo, mais...(sic) deixa eu ver... como é que eu poderia dizer? Eu imaginava que fosse ser da seguinte maneira: é como se ele fosse o meu guia, ele fosse determinando, você faz primeiro esse passo, depois você faz esse. [...] Em nenhum momento (sic) teve nenhuma conversa. [...] Do mesmo jeito que ele não me cobrou eu também não fui a sua procura (Mentorada 5, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nossos);

A experiência não foi tão positiva quanto eu espera.(sic) [...] Porque eu acho que, pelo menos a minha expectativa, era que (sic) ela transmitisse mais conhecimento e experiência. [...] Eu acho que poderia ter me cobrado mais (...) me comprometesse comigo mesma (Mentorada 3, entrevista em 21 de Novembro de 2013, grifos nossos).

Das 38 evocações com conotações negativas, 27 elucidaram o desejo de ter encontros mais longos e/ou constantes com seus mentores; 8 evocações corresponderam à expectativa do

mentorado de ser procurado pelo mentor; 2 comentários sobre dificuldades dos mentorados em identificar seus papéis na relação; e 1 comentário sobre sentimento solitário, de falar sozinho, durante encontros de mentoria.

Quando questionados sobre o porquê de não terem relatado estas dificuldades nos relatórios de controle e nas conversas com o pesquisador, informaram:

Porque... (risos)... é isso, eu não sei porque eu nunca relatei. Eu acabei... não sei (Mentorado 11, entrevista em 20 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Eu acredito que assim... talvez... não queria colocar a culpa no meu mentor (Mentorada 5, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nossos).

É importante destacar diálogo entre o pesquisador e mentorada 5 sobre os desafios enfrentados por esta em sua experiência de mentoria, o que evidenciou importante achado sobre relação de mentoria:

Eu não sei se entendi bem, mas eu achava que a função do mentor seria o seguinte: (Cita o próprio nome) a sua tarefa é... por exemplo: leia esse livro sobre finanças, leia e me diga o que você achou... me resuma, pronto. Eu ia ter um conhecimento nítido da área, ai em um segundo momento: (Cita o próprio nome) analise essa questão... o que está acontecendo no momento. E assim, ele ver minhas necessidades, os meus pontos fracos, e ver o que eu posso melhorar. Eu acho que faltou essa conversa.

Com ele?

Com ele. Faltou essa conversa e quando a gente tentou marcar, nunca deu certo e ninguém nunca persistiu... não deu certo e todo mundo parou. Tu ta entendo? (sic) Mas eu estava aqui.

(Risos) Mas você não é o meu mentor (Mentorada 5, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nossos).

Percebe-se que a relação de mentoria na opinião da mentorada supracitada foi disfuncional. No entanto, a opinião do seu mentor parece divergir do relato acima, indicando uma diferente forma de olhar para a relação:

Foi a melhor possível (falando sobre a relação com as mentoradas)... sempre com um clima de muito respeito... [...] (cita o nome da mentorada 5) pelo fato de já ter estudado comigo, a gente tem um projeto que estamos trabalhando juntos e estamos sempre conversando sobre várias coisas. A (cita nome de outra mentorada) até dois meses estávamos sempre em contato com data e horários marcados e nesse semestre ela passou a ser minha aluna e a gente passou a ter um contato mais diário (Mentor 1, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nossos).

As percepções do mentor 1 e da sua mentorada sobre a relação de mentoria foram bastante conflitantes. Apesar das dificuldades, é perceptível a existência de relação de mentoria. Ao ser questionada sobre o porquê de não ter relatado os problemas na relação ao pesquisador, esta exerce a função de proteção, servindo de anteparo para que as falhas do seu mentor não fossem vistas. Esta função de proteção, entretanto, é descrita por Kram (1985) como uma função dos mentores e não dos mentorados. Na visão da mentorada, a relação foi disfuncional podendo ser categorizada na discussão de Scandura (1998) como ‘dificuldade de relacionamento’. No entanto, no diálogo travado com este pesquisador afirma: “você não é o meu mentor” como indicativo de que outro o era. Já na visão do mentor, a mentoria ocorria de maneira informal, durante os encontros de projeto de pesquisa do qual ambos são participantes.

Neste caso específico, verifica-se que a mentorada procurava uma relação mais formal, ou pelo menos, encontros distintos para o exercício da mentoria. Ela não foi a única a interpretar ou distinguir cognitivamente estes encontros:

Eu não sei se eu estava confundindo um pouco... como eu estou tendo encontro para a monografia (a mentora é a orientadora da pesquisa) eu acho que deve ter encaixado alguma coisa (Mentorado 11, entrevista em 20 de Novembro de 2012, grifos nossos).

Destacam-se, também, nas falas dos mentores e mentorados, como estes construíram e perceberam suas imagens ou suas relações na mentoria:

Eu não pego muito o rótulo. [...] Quando eu converso com ele não especificamente eu chego e digo quem ta falando agora é o mentorado ou o mentor. [...] é mais amigo mesmo (Mentor 8, entrevista em 10 de Dezembro de 2013, grifos nossos); [...] me considero mais como orientador (Mentor 1, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nossos);

[...] via ele (sic) como um irmão (Mentor 9, entrevista em 28 de Novembro de 2013, grifos nossos).

Eu queria ajudar mesmo (Mentora 2, entrevista em 26 de Novembro de 2013, grifos nossos);

[...] passei a ver mais meu lado humano (Mentora 4, entrevista em 27 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Foi boa... de muito respeito... mas também teve muita formalidade (Mentorada 4, entrevista em 22 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Normal. A gente se encontrava (sic) e ela conversava comigo (Mentorado 12, entrevista em 26 de Novembro de 2013, grifos nossos).

[...] fiquei muito próximo do (cita o nome do mentor) (Mentorado 10, entrevista em 25 de Novembro de 2013, grifos nossos);

Me agregou ao lado dela (Mentorado 8, entrevista em 22 de Novembro de 2013, grifos nossos).

4.1.1 Discussão dos achados sobre a relação de mentores e mentorados no âmbito de um programa formal de mentoria

Os resultados obtidos sobre relação de mentoria estão em conformidade com as expectativas teóricas e achados de estudos anteriores. Neste sentido, destacam-se o processo relacional e transformacional que inspiram aprendizado e benefícios percebidos por participantes de relações de mentoria (RAGINGS; KRAM, 2007; ALLEN; FINKELSTEIN; POTEET, 2009). A partir dos relatos, observa-se que das 147 evocações de relação de mentoria, 109 ou 74,15% descrevem relações positivas com ênfase em aprendizado, respeito mútuo e amizade, o que corrobora com a literatura (UNDERHILL, 2006; RAGINS; KRAM, 2007; ALLEN; EBY, 2007).

Das 38 evocações negativas, apenas uma foi relatada pelos mentores. Neste estudo, os que citaram relações negativas apresentaram comportamentos reativos durante o processo, o que não coincide com as características desejáveis de mentorados pelos mentores, a saber: proatividade, desejo de aprender e habilidades interpessoais (RAGINS; KRAM, 2007; DUTTON; RAGINS, 2007). Todos os mentorados que tiveram maiores expectativas em relação ao mentor abstiveram-se de procurá-los, o que ratifica a afirmação anterior. Na concepção destes, a obrigação de iniciar os contatos e encontros era responsabilidade exclusiva dos mentores. A literatura expõe que tanto mentores ou mentorados podem iniciar a relação (RAGINS; KRAM, 2007). No caso deste estudo, as relações já haviam sido estabelecidas através de um programa formal de mentoria. Assim sendo, percebe-se que estes mentorados confundiram o estágio inicial da mentoria com o processo de cultivação da relação, falhando em criar um ambiente favorável para seu florescimento (RAGINS; KRAM, 2007). Durante as entrevistas, todos os mentorados que apresentaram características de passividade na relação chegaram, de diferentes formas, à conclusão de que deveriam ter exercido um papel mais dinâmico na relação. Segue abaixo um relato para exemplificação:

[...] então tem que partir de mim. Não sou eu que estou querendo? Ele já tem o que eu quero. Ele já é um modelo, então teria que ter partido de mim e não houve esta atitude (Mentorada 5, entrevista em 13 de Novembro de 2013, grifos nosso).

Os teóricos afirmam que programas de mentoria formal são criados na tentativa de se reproduzir a espontaneidade caracterizada pelas relações informais (RAGINS; KRAM, 2007; ALLEN, FINKELSTEIN; POTEET, 2009). Este estudo identificou que alguns mentorados interpretaram a relação com um grau maior de formalidade, falhando em reconhecer encontros de orientação e projetos de pesquisa como semelhantes à mentoria. Neste sentido, são importantes estudos mais específicos para se compreender até que ponto as relações de mentoria confundem-se com as relações de orientação de pesquisas e projetos acadêmicos.

Os mentores 1 e 8 autodenominaram-se de orientador e amigo possivelmente na tentativa de imprimir uma nova personalidade ao ambiente formal do programa de mentoria (FREDDO, 1988). Esta necessidade é bastante difundida nos estudos de Dejours, Abdoucheli e Jayet (1994), que apontam o conflito de interesses decorrente da história singular dos indivíduos e o ambiente fixado independentemente da vontade do sujeito. As falas dos mentores são mais alusivas a estados psicossociais da relação, a saber: “irmão” (Mentor 9), “ajudar” (Mentora 2), “lado humano” (Mentora 4). Os mentorados, por outro lado, focaram mais no processo da mentoria, exemplificados pelas falas de: “formalidade” (Mentorada 4), “normal” (Mentorado 12), “agregar” (Mentorado 8).

Todos os participantes (100%) afirmaram por meio de pergunta adicional às entrevistas semiestruturadas (Apêndice F e G) que reviveriam a experiência de mentoria em um programa formal. Este dado revela que ainda que problemas tenham transcorrido em algumas relações, o sentimento de mentoria como algo positivo foi preservado.

A seção a seguir abordará as questões relacionadas aos desafios de implementação de um programa formal de mentoria respondendo o segundo objetivo específico desta pesquisa.