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Também localizado em Araponga, região rural do Estouro (Foto 04), o Camping Remanso é a única propriedade rural envolvida com o turismo no espaço rural que não participa, oficialmente, do Circuito Turístico Serras de Minas. Entretanto, seu proprietário está envolvido com o TER desde o início de 1990, sendo um dos pioneiros na região.

Foto 04. Área de pastagens e cobertura vegetal de Mata Atlântica da Serra do Brigadeiro, na região rural do Município de Araponga, denominada “Estouros”, onde se localiza o Camping Remanso .

Foto: TIRADENTES, L. Abr. 08

Morador da região deste os anos de 1970, o proprietário trabalhou como meeiro por vinte anos, até conseguir comprar 130 ha, adquirindo dois mil pés de cafés, à época, e

algumas cabeças de gado. A técnica utilizada na cafeicultura foi aprendida no dia-a-dia da lida no campo, não contando com a presença de técnicos locais; entretanto, faz uso de curva de nível.

A produção local é vendida na própria fazenda e destinada, posteriormente, para depósitos nas cidades de Araponga, Ervália e Viçosa, sendo que o transporte desse produto é realizado por conta do proprietário, assim como todo o custo de produção, contando com financiamento, mas está estudando a possibilidade de financiar um trator, para ampliar a produção. Os principais tipos de café produzidos são o catuaí vermelho e o conilon.

A origem do nome da propriedade está ligada, diretamente, aos remansos19 que existem no Córrego do Boné (Foto 05). As primeiras visitações turísticas na propriedade não se caracterizaram como atividade turística e começaram no ano de 1975; tinham, como finalidade, apenas o acampamento; normalmente, eram pessoas de fora da região, na maioria jovens, oriundos de Viçosa, que buscavam o lugar como área de lazer, não gerando renda para a propriedade.

Foto. 05. Remanso que deu origem ao nome da propriedade Camping Remanso, localizado no Córrego do Boné e distante a 23 km da sede do Município de Araponga – MG.

Foto: TIRADENTES, L. Abr. 08. O turismo, na propriedade, começou conjuntamente com outro camping, localizado em suas proximidades, estando associado à idéia do surgimento do Parque Estadual da Serra do

19 Remanso - Adotamos a definição de Antônio T. Guerra e seu Dicionário Geológico Geomorfológico, que o

Brigadeiro (PESB), no ano 2000. Segundo o entrevistado, “....as primeiras visitações no início foram de desconfiança, sem nenhum serviço oferecido...”, mas com a chegada da energia elétrica houve um incremento de turistas, encontrando-se o turismo hoje (2010), totalmente integrado à rotina diária da propriedade.

Na propriedade Remanso, o turismo divergiu dos outros tipos praticados em outras localidades. Primeiro, pelo seu pioneirismo, já que, até 2004, restringia-se a uma área de camping, que era caracterizado, de acordo com Tiradentes (2004, p.96), como “um camping bastante rudimentar”, sem nenhum tipo de melhoria ou beneficiamento. Segundo, o envolvimento dessa propriedade com o turismo começou por acaso, nada planejado, quando há mais de quinze anos, apareceram os primeiros mochileiros, para acampar. Terceiro, o turismo não abocanhou a cafeicultura, tornando-se uma atividade de ampliação da renda familiar, contando com a participação de toda a família, nesse processo.

Para o proprietário, “o turismo não atrapalha a rotina da propriedade...”, uma vez que conta com a ajuda e participação de familiares tais como: esposa, filhos, e noras. As razões para a prática do turismo, nessa propriedade - e também em outras - estão ligadas, diretamente, às estagnadas agricultura e pecuária da Região, compelindo-os a buscar uma alternativa de ampliação da renda, gerada, entretanto, à custa de um sobretrabalho. A atividade turística não gera muito lucro ou prejuízo, é uma atividade intermediária que complementa a renda familiar, tendo o proprietário construído uma estrutura física para abrigar os turistas que preferem não acampar (Foto 06).

Com relação à participação do Estado ou de suas políticas públicas para a atividade turística, o proprietário afirma que não percebe essa ação do Estado, a não ser em áreas da saúde e da educação, afirmando também que não recebe apoio ou ajuda de outras instituições, sendo que a contribuição do Estado, para o turismo local, é totalmente ineficiente, na prática.

A total falta de preocupação com o turismo local também ocorre em nível municipal. Não conseguimos, junto à Prefeitura Municipal de Araponga, qualquer documento ou manifestação da existência de uma política pública ou um planejamento para esse setor, o que pode ser identificado nas entrevistas dos proprietários rurais, mesmo existindo um departamento municipal específico para o turismo.

Foto 06. Pequeno alojamento para pernoites dos turistas no Camping Remanso. Esse alojamento demonstra a preocupação do proprietário em melhorar a qualidade do atendimento no camping.

Foto: TIRADENTES, L. Abr. 08 A participação familiar, no turismo da propriedade, é intensa, contando o proprietário com a ajuda de quatro filhos e quatro noras, que trabalham com um sistema de rotação por final de semana, recebendo uma diária como salário pago. Esse sistema de rotação se refere, principalmente, à escolha de qual filho ou nora ajudará nos serviços ligados às atividades turísticas, e é realizado pelo próprio pai. As tarefas da lavoura estão a cargo dos filhos, mas todos participam das atividades turísticas quando necessário, sendo que um dos filhos trabalha como Guarda-Parque no PESB e também é um dos guias da propriedade, tendo realizado, conjuntamente com outros membros familiares, cursos de guia turístico pelo Sistema Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR).

Os primeiros contatos do turista com os proprietários são realizados por telefonema, quando se agenda um dia ou final de semana para acampar. Ao chegar à propriedade, o espaço para o acampamento é mostrado e algumas normas básicas do acampar são repassadas, estando os visitantes livres para conhecer toda a área do camping. Entretanto, para realizar uma visita ao PESB, é necessário contratar o guia local, que é filho do proprietário.

Não identificamos qualquer tipo de festa local ou manifestação religiosa; o que ocorre são as festas juninas, com as quadrilhas, realizadas na escola rural da região, que não pertence a essa propriedade. Também não foi identificada qualquer manifestação cultural, artesanal ou histórica que seja caracterizada como um importante atrativo turístico. O grande atrativo é a

exuberância natural do local, cercado por elevada região montanhosa, denominada Serra do Brigadeiro e recoberta pela Mata Atlântica, constituindo hoje uma importante reserva florestal do Estado, com destaque para a Cachoeira da Laje, a piscina natural do remanso, o paredão de pedras para escaladas e as „trilhas ecológicas‟ realizadas no PESB, mas com acampamento base localizado na propriedade.

Como vimos, as festas não fazem parte dos atrativos do lugar e os grandes atrativos são, sem dúvida, os recursos naturais (Foto 07) existentes, favorecidos pela proximidade com o parque estadual. A propriedade é rica em paisagens culturais, como a produção do café, a sede da fazenda e, também, a própria história do lugar. No entanto, essas paisagens não são absorvidas como um atrativo turístico importante, o que pode ser trabalhado.

Quando questionamos o proprietário a identificar qual seria o símbolo que melhor caracteriza a propriedade, recebemos como resposta que não existe esse símbolo propriamente dito, mas destacou que é uma região privilegiada por ter duas “chegadas de água” em suas terras, e isso é um símbolo para poucos. Para o entrevistado, a relação com o lugar é de felicidade, de melhor lugar para viver, argumentando que a vida dele está naquele local, fruto de anos de esforços e luta para adquirir.

Foto 07. Cachoeira do Córrego do Boné, localizado dentro do Camping Remanso e um dos principais atrativos turístico da propriedade.

A própria justificativa do proprietário sobre a sua percepção do que melhor representaria a propriedade é um fato interessante a se analisar nesse contexto. Símbolos significam pertencimento ou apenas uma representação de algo concreto? Entende-se que o símbolo pode ser um conceito ou uma idéia e surge como uma representação concreta ou imaginável de um objeto, de uma paisagem ou de um fato, e leva as pessoas a acreditarem que sua representatividade assume um caráter fiel ao imaginado.

Nesse sentido, divergente do que ocorreu com as propriedades portuguesas, que trazem na heráldica o seu maior significado de representatividade e também de um sentimento de pertencimento ao lugar, as propriedades rurais da Microrregião de Viçosa e, mais especificamente, essa propriedade, é desprovida de uma simbologia típica, tornando os símbolos naturais (montanhas, matas, rios) mais representativos do que os símbolos culturais (brasão, cabeça de boi, porteira).

No Camping Remanso, a presença do café é uma atividade marcante. É através da cafeicultura que essa família tira seu sustento, não se caracterizando contudo, como uma agricultura familiar, pois a propriedade possui cerca de 100.000 pés de café, entre os tipos Catuaí-Vermelho e Conilon, espalhados em 130 hectares.

Na última parte da entrevista, questionamos sobre o Circuito Turístico Serra de Minas e sua participação. Para ele, é um “...povo que se junta para discutir sobre o assunto”, sendo ele sempre bem visto nas reuniões dos associados, argumentando que a origem do circuito é desconhecida e que sua divulgação é muito lenta.

Embora justificando que sempre é bem vindo quando participa das reuniões do CTSM, esse proprietário não faz parte do grupo de associados do circuito turístico local, não demonstrando interesse em participar. Sendo sua propriedade uma das pioneiras em trabalhar com o turismo, no espaço rural da Microrregião de Viçosa, essa recusa está associada a dois fatores: o primeiro, de ordem física, reflete-se diretamente na dificuldade de deslocamento e acesso até a sede do CTRM; e o segundo, pela baixa confiança no Circuito que, a passos lentos, não concretizou o esperado desenvolvimento turístico.

A integração da propriedade com o circuito turístico (CT) não é aprofundada, ela ocorre com a participação nas reuniões e nas discussões do Circuito. Indagado sobre as melhorias que o circuito trouxe, recebemos como resposta que o grande benefício foi no sentido de trabalharem em conjunto e que suas perspectivas com o CT é se “envolver mais e sempre melhorar, e essa melhora tem que ser com um bom atendimento e uma boa hospedagem”. Vale destacar, também, que a propriedade é um ponto de cavalgada para a região e oferece seis quartos e três banheiros para os que preferem não acampar.

O turismo é uma realidade que cobra, de todos, melhorias, e isto significa buscar caminhos que possibilitem o desenvolvimento, não apenas econômico, do lugar, mas também o desenvolvimento social e cultural de uma região até então esquecida, em todos os sentidos.

O turismo, na propriedade Camping Remanso, ocorre de maneira diferenciada das demais propriedades investigadas. A presença das atividades turísticas, no local, iniciou-se em 1995, predominando dois tipos de turismo: o „campismo‟, identificado como uma questão de lazer e de ocupação de espaço, e o turismo rural, mais integrado com a realidade turística no campo, e nesse processo a produção cafeeira não para.

Com a chegada do turismo no espaço rural, a família se envolve por completo, adequando-se e reestruturando seus afazeres de acordo com a complexidade das atividades, agora vestida com uma roupagem pluriativa, ou seja, uma combinação de tarefas específicas. Seus membros são deslocados quando da necessidade de suprir uma demanda é o que chamamos de multifuncionalidade das famílias envolvidas no turismo.

A atividade turística, no Camping Remanso, envolve a produção do café, que continua a ser a mais importante atividade econômica da propriedade, mas que, nos finais de semana ou feriados prolongados, perde sua importância para o turismo, transformando os produtores em empreendedores do turismo. Isso tudo se reproduz na família, que tem o seu modo de vida alterado, pois tornam-se administradores do próprio negócio, nem sempre de forma planejada, resultando na exploração do trabalho familiar, pelas suas múltiplas atividades produtivas.