Regionalokonornisk analyse og planlegging*)
4. Sentralstedsmodell for romslig organisasjon
Mas antes de aprofundar essa discussão, vale uma observação: não se trata aqui, de forma nenhuma, de “colocar a culpa” nos arquitetos de escritórios, menos ainda nas revistas de arquitetura. Não há nenhum problema – e é até muito positivo – que a produção arquitetônica de um país tenha uma grande participação de escritórios voltados ao mercado formal e de alta renda, com um enfoque mais autoral.
O problema está em alimentar a ideia de que a arquitetura autoral “de sucesso” (por conseguir publicar projetos nas revistas), é a única faceta da profissão digna de destaque, “a” atividade de referência na arquitetura, e que o atendimento ao mercado de alto padrão é a única alternativa para trilhar um caminho profissional de reconhecimento e sucesso.
Tal visão, além do mais, transforma o limitado mercado dos escritórios em um verdadeiro campo de caça de oportunidades rarefeitas. O predomínio do mercado imobiliário que pouco atenta para a arquitetura e a alta competitividade decorrente fazem com que mesmo no mundo dos escritórios, a
vida não seja simples. É comum ver arquitetos com anos de experiência tendo, na prática, que pagar para trabalhar. Ou aceitando remunerações pífias para poder exercitar a arquitetura. Isso não pode estar certo, e alimenta ainda mais a necessidade de uma profunda revisão da percepção do que é o nosso universo profissional.
Se a “culpa” desse desvio das expectativas em torno da profissão não é (somente) dos arquitetos e da imprensa, é porque esta é uma responsabilidade coletiva. A extrema centralização em torno de um único modelo profissional é apenas o reflexo de um processo social pelo qual a profissão da arquitetura colocou-se em uma posição de elitização e de afastamento da realidade urbana, como decorrência do longo período de autoritarismo e de políticas econômicas de extrema concentração da renda. A “culpa” é de cada um e de todos nós que reproduzimos ad infinitum essa lógica social elitista e segregadora em todas as instâncias econômicas, culturais e políticas e não só no âmbito urbano/arquitetônico. A culpa é de toda a sociedade que considera “cidade” apenas a cidade do mercado, a cidade oficial e formal. Que se recusa a enxergar o caos urbano e social, o apartheid assustador dos bairros que não são “nobres”. A “culpa” é dos governos, que atentam somente par essa cidade dos mais ricos, que insistem em políticas para eles apenas, por exemplo construindo mais viadutos, túneis e vias expressas exclusivas para os carros individuais em detrimento de investimentos públicos para toda a população. A “culpa” é também das universidades, que formam arquitetos orientados para uma única perspectiva profissional e alimentam o culto à arquitetura autoral; a culpa é das entidades representativas da classe, que pouco discutem a democratização da profissão, e assim por diante.
É claro, se a culpa é de todos, por outro lado não se pode generalizar: há arquitetos “autorais” que tentam de todas as formas entrar no campo de atividades mais voltadas à democratização da cidade, mas se veem frente a muros intransponíveis de burocracias, fisiologismos e impedimentos de todos os tipos. Há arquitetos que fazem arquitetura social de qualidade há muitos anos, mas não conseguem furar a força do pensamento dominante que festeja outro tipo de arquitetura e desconsidera a moradia popular como um problema dos arquitetos. Há números especiais das revistas especializadas sobre habitação popular, embora raros, que mesmo que de forma efêmera, trazem o problema à tona como para lembrar que ele é sim, ou deveria ser, objeto da arquitetura.
A questão é que tais atitudes não são nem maioria, nem fáceis, porque enfrentam um pensamento dominante que, seja conscientemente (o pior), seja simplesmente por inércia (o menos pior), reproduz e divulga permanentemente a visão da sociedade de elite, exclusivista e segregadora. Em suma, o Brasil é um país exacerbadamente elitizado, que precisa urgentemente começar a mudar essa situação. Suas cidades, que são o reflexo no espaço dessa sociedade desequilibrada, também precisam urgentemente mudar.
Isso porque o Brasil está se transformando. Porém, paradoxalmente, o crescimento econômico, tão festejado, muitas vezes escamoteia o acirramento das tensões econômicas e sociais. Nas cidades, se não for controlado, o crescimento acelerado significa, também paradoxalmente, o aumento da destruição ambiental e dos problemas urbanos. Pois nosso modelo de urbanização, que se intensifica neste momento de euforia de crescimento, continua sendo o da impermeabilização das cidades, da verticalização excessiva e não regulamentada nem planejada, dos grandes condomínios fechados que renegam o espaço público e a cidade, dos investimentos viários em detrimento do transporte público de massa, dos sistemas de esgotamento e drenagem insuficientes, da ocupação descontrolada das periferias, e assim por diante.
O resultado desse modelo, estranhamente, ainda choca os brasileiros a cada ano, nas chuvas de verão, como se fossem novidade os desabamentos que tragicamente, mas invariavelmente, se repetem sem que nada seja verdadeiramente feito para evita-los. Nossas grandes cidades são poluídas, imobilizadas pelos congestionamentos, vulneráveis às enchentes, propícias à violência urbana pelo demasiado número de ruas ermas e isoladas por muros intermináveis de condomínios, espaços abandonados,
praças esquecidas. Nossas cidades inspiram medo, elas são, por si só, uma violência. Como lhes falta aquilo que chamamos de “arquitetura e urbanismo”!
Neste momento estratégico, em que parecemos alcançar a modernidade, mas talvez sem perceber que talvez as cidades implodam antes dela chegar, coloca-se uma dupla e antagônica possibilidade: a de, por um lado, descobrirmos uma nova forma de fazer cidades, ou por outro, de continuar a reproduzir e exacerbar cada vez mais o caminho da barbárie urbana. Os arquitetos – como classe profissional coesa e socialmente atuante – deveriam ter sim muito que opinar sobre o assunto.