Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891) operou uma revolução na maneira como a poesia era realizada na segunda metade do século XIX. O deslocamento imprevisível de seu pensamento transtornou as mentes acostumadas a associações de idéias de acordo com uma lógica e raciocínios coerentes, subvertendo, também, o poeta, a produção artística do ponto de vista formal, num movimento contrário à poesia francesa da época, que primava pelo convencionalismo dos metros, rimas e versos. Apropriou-se do “poema em prosa”, incipiente na França do oitocentos, buscando escapar às rígidas normas de versificação impostas pela Academia, e fundindo as duas categorias (poesia e prosa) outrora dicotomizadas pelos escritores.
141 NÉRET, Gilles. Manet. Traduzido por BOLÉO, João Bernardo. Köln: Taschen, 2003, pp. 36; 38; 42. SHLAIN,
Produzida aproximadamente entre seus quinze e vinte anos, a obra poética de Rimbaud surpreende pela precoce tradução de uma experiência vital rica, que incluiu a metamorfose de um colegial estudioso em um rebelde escritor boêmio e em perpétuo trânsito, que conheceu porções inóspitas do mundo, retirando de cada uma instantâneas sensações e registrando suas visões, fantasias e alegorias estimuladas pela diferença. Pode-se destacar “Iluminuras: Gravuras Coloridas” (provavelmente 1874-1875) como o registro que o poeta fez de seu tempo: captou com grande agudeza o fenômeno provocado pela concentração de grandes massas em centros urbanos e a conseqüente perda de referências, a desorientação diante da dimensão enigmática da metrópole, a vertigem da velocidade, sem falar na rotina programada do indivíduo, a vida quase automática, a iluminação artificial, as construções de ferro e vidro, pontes, o ambiente noturno dos prostíbulos e bares, “entre outras fantasmagorias”142:
“Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como da planta da cidade. (...) Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística louca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, - nossa
sombra dos bosques, nossa noite de verão!”143
“A acrópole oficial excede as mais colossais concepções da barbárie moderna. Impossível exprimir o dia fosco produzido por este céu invariavelmente cinza, o
brilho imperial dos edifícios, e a neve eterna do chão.”144
142 Sobre a percepção de Rimbaud em relação aos acontecimentos que tomavam lugar na sua época, especialmente
quanto àqueles que repercutiram de forma intensa no espírito do homem, ver comentários de Rodrigo Garcia LOPES e Maurício Arruda MENDONÇA. RIMBAUD, Arthur. Iluminuras: Gravuras Coloridas. Traduzido por LOPES, Rodrigo Garcia; MENDONÇA, Maurício Arruda. São Paulo: Iluminuras, 2002, pp. 165-166.
143 Trecho do poema “Cidade”, que integra “Iluminuras: Gravuras Coloridas”. RIMBAUD, Arthur. Iluminuras:
Gravuras Coloridas. Traduzido por LOPES, Rodrigo Garcia; MENDONÇA, Maurício Arruda. São Paulo:
Iluminuras, 2002, p. 45.
144 Excerto do poema “Cidades”, que também faz parte da obra “Iluminuras: Gravuras Coloridas”. RIMBAUD,
Arthur. Iluminuras: Gravuras Coloridas. Traduzido por LOPES, Rodrigo Garcia; MENDONÇA, Maurício Arruda. São Paulo: Iluminuras, 2002, p. 53.
Contudo, o que mais impressiona em “Iluminuras” é que de sua poesia em prosa saltam imagens! As palavras nascem do matrimônio entre sons, odores e cores, compondo, através de associações inusitadas, uma imagem poética polissêmica. Como indicam LOPES e MENDONÇA145, o poeta abre suas imagens para várias interpretações, como uma vasta galeria de espelhos, tal qual uma pintura. Este recurso atraiu sobremaneira os Simbolistas, que reverenciaram, anos mais tarde, a poesia em prosa rimbaudiana, caleidoscópio de imagens, que, como salienta BACHELARD146, podem ser “o germe de um mundo, o germe de um
universo imaginado diante do devaneio de um poeta”, desse mundo criado pelo poeta. E se “a imagem só pode ser estudada pela imagem, sonhando-se as imagens tal como elas se acumulam no devaneio”, a poesia de Rimbaud escapa a qualquer possibilidade de apreensão, de explicação objetiva, pois só se recebe verdadeiramente a imagem quando ela é admirada147.
Excitando as forças vivas da linguagem ao devanear utilizando-se de palavras, liberto da teleologia da frase, assim, numa “alquimia do verbo”, obedecendo tão somente à sua “lógica do improvável”, Rimbaud, que “acreditava em todos os encantamentos”, em sua obra “Uma Temporada no Inferno” (1872), coloriu as vogais, e depois “explicou seus sofismas mágicos com a alucinação das palavras”, terminando por “achar sagrada a desordem de seu espírito”:
“Inventei a cor das vogais! – A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. – Regulei a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, nutri a esperança de inventar um verbo poético que seria um dia acessível a todos os sentidos. Eu me reservava sua tradução. Foi, antes, simples estudo. Eu escrevia
silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.”148
145 Ver comentário à obra “Iluminuras: Gravuras Coloridas”. RIMBAUD, Arthur. Iluminuras: Gravuras
Coloridas. Traduzido por LOPES, Rodrigo Garcia; MENDONÇA, Maurício Arruda. São Paulo: Iluminuras,
2002, p. 136.
146 BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Traduzido por DANESI, Antonio de Pádua. Sâo Paulo:
Martins Fontes, 2001, p. 01.
147 BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Traduzido por DANESI, Antonio de Pádua. Sâo Paulo:
Martins Fontes, 2001, p. 52.
148 RIMBAUD, Arthur. Uma Temporada no Inferno & Iluminações. Traduzido por IVO, Lêdo. Rio de Janeiro:
Rimbaud questionou a racionalidade construída sobre conceitos que pretendem identidade com a coisa, porque ao fazer eclodir de seu texto imagens poéticas, rompeu com a unicidade de sentido dos termos, essencial aos sistemas meramente racionais. A imagem, jamais completamente encarcerada no conteúdo da palavra, reivindica mobilidade, multiplicidade de significações no tempo e também na diversidade dos intérpretes, de forma que, como comenta BACHELARD149, “o conceito, dando estabilidade à imagem, lhe asfixiaria a vida”. Apartando-se do didatismo doutrinador de quem intenta incutir nos outros a sua forma de ver o mundo, Rimbaud exprime seus sentimentos abrindo espaço para que o leitor devaneie sobre o devaneio do poeta, e assim se torne co-autor desse universo fecundo e mutante, produto de almas labirínticas150 que “abriram todas as prisões do ser para que o
humano tivesse todos os devires”151
149 BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Traduzido por DANESI, Antonio de Pádua. Sâo Paulo:
Martins Fontes, 2001, p. 50.
150 “Se quiséssemos e ousássemos uma arquitetura conforme a natureza de nossa alma (somos covardes demais para
isso!) – então o labirinto seria o nosso modelo!” NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os
preconceitos morais. Traduzido por SOUZA, Paulo César de. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 169.
151 Gaston BACHELARD, analisando a importância dos comunicadores de devaneios poéticos para a riqueza do
humano, para o aprofundamento também do ser que os recebe, ressalta: “E é assim que os grandes poetas nos ensinam a sonhar. Alimentam-nos de imagens com as quais podemos concentrar nossos devaneios de repouso. Oferecem-nos suas imagens psicotrópicas, pelas quais animamos um onirismo desperto. É nesses encontros que uma Poética do Devaneio toma consciência de suas tarefas: determinar consolidações dos mundos imaginados, desenvolver a audácia do devaneio construtivo, afirmar-se numa boa consciência de sonhador, coordenar liberdades, encontrar o verdadeiro em todas as indisciplinas da linguagem, abrir todas as prisões do ser para que o humano tenha todos os devires.” BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Traduzido por DANESI, Antonio de Pádua. Sâo Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 152.