O final do século XIX foi marcado, desta forma, por sucessivos ataques à concepção racionalista redutora do humano ao logos. Com o impulso proporcionado pelo darwinismo, que afirmou o homem como membro do reino animal, e portanto portador de instintos e de uma face irracional, a psicanálise freudiana, através de suas teorias sobre o inconsciente,
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RODIN, Auguste. A Arte: Conversas com Paul Gsell. Traduzido por BARRETO, Anna Olga de Barros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 141.
corroeu a idéia logocêntrica totalizadora. Sigmund FREUD pressupunha ser o inconsciente a base geral da vida psíquica, uma esfera mais ampla que incluiria em si a esfera menor do consciente. Entendia essencial abandonar a supervalorização da propriedade do estar consciente para que se pudesse formar um juízo correto do que é psíquico, apregoando a necessidade de estudar o inconsciente, “tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e (...) apresentado de forma tão incompleta pelos dados da consciência quanto o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos sensoriais”. Destacava o valor da interpretação dos sonhos para a compreensão e tratamento das patologias que acoimavam os indivíduos, pois reconhecia na faculdade onírica uma forma de expressão dos impulsos que se encontravam sob resistência durante o dia, mas que vinham à tona no tempo do sono porque encontravam reforço em fontes profundas de excitação174.
Ao relegar à consciência apenas o papel de “um órgão sensorial para a percepção
de qualidades psíquicas”175
, propondo que as mais complexas operações da psiquê residiriam no inconsciente, a psicanálise freudiana desferiu um duro golpe na megalomania da razão, que era manifestamente percebida como a operação consciente por excelência. Mas FREUD era também um racionalista, a seu modo. Esta racionalidade manifesta-se desde a própria divisão psíquica proposta por FREUD (id, ego, superego) e suas laboriosas deduções que daí derivaram176, na ferocidade e presteza com que defende seus conceitos e métodos de investigação como corretos177, na apologia da ciência como única forma de “encontrar a
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FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Traduzido por OLIVEIRA, Walderedo Ismael de. Rio de Janeiro: Imago, 1999, pp. 584-586.
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FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Traduzido por OLIVEIRA, Walderedo Ismael de. Rio de Janeiro: Imago, 1999, p. 587.
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Sobre a estrutura da personalidade proposta por Sigmund Freud, além de sua dinâmica e desenvolvimento, ver HALL, Calvin S.; LINDZEY, Gardner; CAMPBELL, John B. Teorias da Personalidade. Traduzido por VERONESE, Maria Adriana Veríssimo. Porto Alegre: Artmed, 2000, pp. 53-61.
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Freud era realmente tenaz e implacável na defesa de sua teoria. A característica de extrema combatividade descobre-se nítida em seu escrito “O futuro de uma ilusão”, no qual ele mesmo faz indagações às suas proposições (como se fosse um crítico de suas próprias idéias) e logo após as responde. Em outras palavras,
realidade” (com evidente rechaço à intuição, à religiosidade e ao imaginativo)178, na crença em um progresso da humanidade de uma barbárie instintual para uma civilização racional (conduzida pelos mais capazes – os líderes)179, e até mesmo na convicção de que nada poderia unir os homens de forma tão completa e firme quanto a submissão dos instintos dos indivíduos pertencentes à comunidade aos domínios da razão180. Pode-se desta forma atentar ao fato de que, paradoxalmente, as idéias de FREUD impulsionaram um processo de desagregação de uma racionalidade totalizadora da qual ele mesmo não escapou181.
revida antecipadamente, e de forma contundente, as críticas que poderiam ser efetuadas por seus opositores. Também no texto “Por que a guerra?”, elaborado em resposta a Albert Einstein, por ocasião da promoção pela Liga das Nações de trocas de correspondência entre intelectuais de renome da época, pode-se inferir o ânimo aferrado de Freud. Após expor suas idéias, para o caso de não ser tomado com a seriedade que desejava, deixou ao seu inquiridor uma espécie de advertência: “Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável. Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta? Não se pode dizer o mesmo, atualmente, de sua física?”. FREUD, Sigmund. “Por que a guerra?” in Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXII. Traduzido por SALOMÃO, Jayme. Rio de
Janeiro: Imago, s/d, p. 254. FREUD, Sigmund. “O futuro de uma ilusão” in Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Traduzido por ABREU, José
Octávio de Aguiar. Rio de Janeiro: Imago, s/d.
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“Mas o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos. É, mais uma vez, simplesmente uma ilusão esperar qualquer coisa da intuição e da introspecção; elas nada nos podem dar, a não ser detalhes sobre nossa própria vida mental, detalhes difíceis de interpretar, nunca qualquer informação sobre as perguntas que a doutrina religiosa acha tão fácil responder. (...) Mas a ciência, através de seus numerosos e importantes sucessos, já nos deu provas de não ser uma ilusão. (...) Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.” FREUD, Sigmund. “O futuro de uma ilusão” in Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Traduzido por
ABREU, José Octávio de Aguiar. Rio de Janeiro: Imago, s/d, p. 45; 69; 71.
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A convicção de que o progresso da humanidade de uma barbárie ontológica rumo à civilização decorre do desenvolvimento da razão, através da renúncia e da repressão aos instintos, vem explicitada por Sigmund FREUD na obra O mal-estar na civilização. Traduzido por ABREU, José Octávio de Aguiar. Rio de Janeiro: Imago, 2002. Sobre o papel dos líderes nesta transição, importante o excerto: “É tão impossível passar sem o controle da massa por uma minoria, quanto dispensar a coerção no trabalho da civilização, já que as massas são preguiçosas e pouco inteligentes; não têm amor à renúncia instintual e não podem ser convencidas pelo argumento de sua inevitabilidade; os indivíduos que as compõem apóiam-se uns aos outros em dar rédea à sua indisciplina. Só através da influência de indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes, as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias de que a existência depende”. FREUD, Sigmund. “O futuro de uma ilusão” in Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Traduzido por ABREU, José
Octávio de Aguiar. Rio de Janeiro: Imago, s/d, p. 18.
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No texto “Por que a guerra?” Sigmund FREUD chega a sugerir que o desenvolvimento da razão poderia diminuir a possibilidade da guerra: “a situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais”. “Por que a guerra?” in Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXII. Traduzido por
SALOMÃO, Jayme. Rio de Janeiro: Imago, s/d, p. 256.
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A formulação de uma teoria sobre o inconsciente humano significou um elemento muito importante para o processo de desagregação do sistema racional totalizador de pensamento, que opunha resistência a qualquer operação de conhecimento que não derivasse da atividade intelectiva consciente, reduzindo a capacidade de
3.4 O Caleidoscópio de Cézanne: A Exuberância do Real e a Fecundação do Percebido