O século XIX foi de pouco consenso no plano das idéias. Paralelamente ao Romantismo, o pensamento de inspiração Iluminista continuava propagando-se pela Europa ocidental, embora com algumas características diferentes (não se tratava, em absoluto, de mera transposição da doutrina dos philosophes franceses do setecentos). Utilizando-se a expressão de BAUMER116, este “Neo-Iluminismo”, partilhado por um grupo bastante
heterogêneo, que englobava utilitaristas ingleses, positivistas franceses, jovens hegelianos alemães, “realistas” e cientistas, liberais e socialistas de toda a Europa, exibia traços do Antigo Iluminismo: a crítica à tradição religiosa externada pelo culto ao “livre pensamento” pautado pela razão, transmutando a crença em Deus em fé na humanidade racional (“humanização de Deus”), sobre a qual depositavam as esperanças de progresso.
115 HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital: Europa 1848-1875. Traduzido por NETO, Luciano Costa. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 127.
116 Sobre considerações à respeito da corrente “Neo-Iluminista” de pensamento, ver BAUMER, Franklin Le Van.
O Pensamento Europeu Moderno: séculos XIX e XX. Traduzido por ALBERTY, Maria Manuela. Lisboa:
Era muito forte a confiança na capacidade do homem de progredir através do uso da razão, construindo um “paraíso terreno” (destino histórico), onde os indivíduos atingiriam a prosperidade e a plena integração, ao menos na parte ocidental do globo. A história, que pelos Novos Iluministas continuava sendo percebida como universal, encontrava-se ainda mais marcada pelo etnocentrismo, pois acreditava-se que os europeus haviam mais rapidamente aprendido a triunfar sobre a natureza. O progresso “iluminado”, maciço, autoconfiante, mas acima de tudo inevitável, constituía a inabalável convicção da época, e isto se devia em boa parte aos avanços proporcionados pela ciência117. O homem deveria aplicar a razão à atividade técnico-científica, à política e na administração de seus bens, fazendo da racionalização o princípio por excelência da organização da vida pessoal e coletiva, dentro da concepção de que o universo avança através das conquistas da razão, e a abundância, felicidade e a liberdade constituem o conjunto de efeitos produzidos no futuro pelo progresso estribado no logos.
De fato, sob a chancela da razão neo-iluminista, observou-se um rápido desenvolvimento da ciência, em especial a partir de 1820, e a busca da aplicação das “conclusões” obtidas ao claro domínio da ação. BAUMER118 refere que o determinismo foi o
117 Eric J. HOBSBAWM refere que a história do século XIX, em especial entre o ano de 1848 e o início da
década de 70, foi basicamente a do maciço avanço da economia do capitalismo industrial em escala mundial, da ordem social que ele representou, das idéias e credos que pareciam legitimá-lo e ratificá-lo: razão, ciência, progresso e liberalismo. O ferro derramou-se em milhões de toneladas pelo mundo, serpenteando em estradas que cortavam continentes; cabos submarinos atravessaram o Atlântico; foi construído o Canal de Suez; as grandes cidades, como Chicago, surgiram do solo virgem do meio-oeste americano; observaram-se imensos fluxos migratórios. Era o poder europeu e norte-americano, com o mundo a seus pés, espalhando “respeitabilidade” e “superioridade racial” juntamente com gasômetros, estradas de ferro e empréstimos. Consoante o autor, para duas espécies de pessoas o “drama do progresso” não foi uma metáfora, e sim uma realidade literal. Para milhões de pobres, transportados para um novo mundo, freqüentemente transpondo fronteiras e oceanos, o “progresso” significou uma mudança de vida cataclísmica. Para os povos do mundo fora do capitalismo, que foram atingidos e sacudidos por ele, o “progresso” significou a escolha entre uma resistência passiva em nome de suas antigas tradições e modos de ser e um traumático processo de tomada das armas do Ocidente para voltá-las contra os conquistadores: de compreensão e manipulação do progresso por eles mesmos. HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital: Europa 1848-1875. Traduzido por NETO, Luciano Costa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, pp. 22-23.
118 BAUMER, Franklin Le Van. O Pensamento Europeu Moderno: séculos XIX e XX. Traduzido por
dogma principal da ciência tal como entendida pelos Neo-Iluministas em meados do século XIX, significando o domínio da lei da natureza, em oposição ao acaso, e a previsibilidade desta natureza, pois desde que houvesse conhecimento suficiente das causas do evento, poder- se-ia lhes deduzir os efeitos.
Este cientificismo que negava o plano metafísico expandiu-se também ao mundo da arte, redundando no que veio a se chamar Realismo, caracterizado pela acentuação do concreto, e pela busca da representação de objetos reais e existentes, do mundo tal como era visto, excluindo da pintura todo o abstrato, o que não pertencia ao domínio do visível, e também o etéreo. As obras de Gustave Coubert (1819-1877) apresentam características manifestamente Realistas: o autor não queria beleza, mas a “verdade”, e dizia que “a pintura é essencialmente uma arte concreta e tem de ser aplicada às coisas reais e existentes. (...)
Nunca vi anjos. Se me mostrarem um, eu pinto”119. Porque acreditava que “tudo o que não
aparece na retina está fora da pintura”120, limitava os temas ao que estava próximo ao lar, e a
situações que tinha vivenciado. Representou a si mesmo, caminhando pelo campo com uma mochila de pintor nas costas, em mangas de camisa, num momento em que era respeitosamente saudado por seu amigo e patrocinador, apondo à obra o nome “Bonjour Monsieur Coubert”121.
119 STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Traduzido
por ANDRADE, Angela Lobo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p. 84.
120 STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Traduzido
por ANDRADE, Angela Lobo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p. 84.
121 COUBERT, Gustave. Bonjour Monsieur Coubert (1854). Óleo sobre tela: 129 x 149cm. Montpellier:
Musée Fabre. Reproduzida em GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Traduzido por CABRAL, Álvaro. Rio de Janeiro: LTC, s/d, p. 510. Figura 07.
Anos mais tarde, ao observar as obras dos artistas realistas, NIETZSCHE lhes endereçou vasta e irônica crítica, em especial à sua crença na viabilidade de apreensão do real, como se o mundo fosse por inteiro captável no trabalhar do pincel. O filósofo alemão ainda aludiu ao que entendia como confusão realizada pelos realistas entre uma simples e parcelar imagem e a natureza em si: “‘Fiel à natureza inteira!’ – Como faz ele então: / Desde quando a natureza acabou na
imagem? / Pois é infinita a mais ínfima parcela do mundo!”122. NIETZSCHE diagnosticava
soberba nos pintores realistas que, conforme sua visão, se acreditavam “melhores” do que seus pares pois imunes às paixões e fantasias, idôneos a expressar somente o que de verdadeiro haveria na natureza: “não existe ‘realidade’ para nós – e tampouco para vocês, sóbrios -, estamos longe de ser tão diferentes como pensam, e talvez nossa boa vontade em ultrapassar a embriaguez seja
tão respeitável quanto sua crença de que são incapazes de embriaguez”123.
2.3 O Germe da Mutabilidade e a Negação do Espontâneo: Duas Faces do Mesmo