Na segunda metade do século XIX persiste a crença otimista em um progresso alcançável através da ciência pautada na razão, porém agrega-se ao conjunto um novo elemento: o evolucionismo124 (mudança para melhor), que projetava um quadro de natureza
122 NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Traduzido por SOUZA, Paulo César de. São Paulo: Companhia das
Letras, 2004, p. 43.
123 NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Traduzido por SOUZA, Paulo César de. São Paulo: Companhia das
Letras, 2004, pp. 95-96.
124 O termo “evolucionismo” é utilizado neste trabalho para abarcar o conjunto de teorias científicas descritas na
segunda metade do século XIX que rechaçavam a crença em um desígnio divino, entendendo o homem como membro do reino animal, e os seres da natureza como em processo de evolução (mudança para melhor), de otimização com base em um mecanismo seletivo. O evolucionismo não se cingiu às idéias de Charles Darwin, muitos outros cientistas elaboraram suas teorias em vieses semelhantes, aproveitando partes de seu legado e repelindo outras.
sem desígnio divino, em que o homem era “reduzido” a membro do reino animal. Notadamente a vertente darwiniana alcançou notável prestígio entre os cientistas da época, acentuando o sentimento de fluxo, de movimento, de impermanência, que já havia tomado lugar no oitocentos. As únicas coisas fixas no processo descrito por Charles Darwin, um dos expoentes do evolucionismo, eram as leis, a ordem racional que impregna sua teoria: a natureza é pura mutabilidade, seletividade, e luta por sobrevivência. O acaso foi banido da ciência pela doutrina darwiniana, assim como o espírito e a espontaneidade: intensamente naturalista e determinista, não havia espaço para outra forma de pensar que não a puramente racional.
Na ciência da segunda parte do século XIX já é possível perceber a grande modificação que estava a tomar lugar no mundo: a perenidade, instrumento e condição dos sistemas totais, aos poucos cedia espaço à transitoriedade, ao movimento. Obviamente uma revolução de tamanho porte não aconteceu de forma brusca e definitiva, e o pensamento dos darwinianos não negava certo conservadorismo: apresentava ainda muito de um modelo fechado, completo, dotado de leis fixas. Mas não se pode deixar de admitir que o germe do movimento fora plantado no âmago da ciência do oitocentos, em especial quando se acentuava a transformação, a evolução das espécies biológicas, e o fato de que umas tinham origem nas outras, através de um processo, em contraste com a fixidez de um mundo criado por Deus, em que se dispunha de número limitado de tipos de seres vivos, dentro de uma concepção mecanicista de natureza estática, sem espaço para a criatividade.
A contribuição dos evolucionistas, particularmente dos darwinianos, também diz com a negação ao homem de qualquer origem especial, explicando-a por forças naturais já em funcionamento. Doravante, seria sobre a natureza irracional do homem que mais se falaria:
seus instintos, agressividade, o parentesco com o mundo animal125. Um tanto quanto paradoxal: desvelar a irracionalidade do homem através de um método extremamente racional, sob a “transparência” de uma ciência pautada pelo logos hipertrofiado, supostamente apreensor das leis fixas do universo; conseguir ver o movimento escondido sob a transformação e a evolução das espécies, mas negá-lo ao banir por completo o acaso e ao abraçar a idéia de um sistema hermético, perfeito e completo.
Os darwinianos colaboraram para a destruição da convicção quanto à unidade da espécie humana, porém colocaram a questão da diferença em determinantes biológicos, fazendo repousar a desigualdade em três aspectos principais: nas raças, nas nações e nos indivíduos126, deslocando, portanto, a perspectiva Neo-Iluminista, que centrava a diferença em fatores ambientais, nas circunstâncias, dentre elas, em especial, na educação (civilização). É importante salientar, no entanto, que Charles Darwin não avançava a doutrina evolucionista para além de seu campo específico, qual seja, a biologia, ao menos não publicamente. Isto não impediu seus colegas intelectuais de transporem o evolucionismo darwiniano para o campo social, religioso e político, não raro utilizando-se do conceito de seleção natural para legitimar uma política
125 BAUMER, Franklin Le Van. O Pensamento Europeu Moderno: séculos XIX e XX. Traduzido por
ALBERTY, Maria Manuela. Lisboa: Edições 70, 1977, p. 111.
126 Franklin Le Van BAUMER assevera que na época de Darwin era comum distinguir as raças com base na cor,
formato de crânio, nádegas, ou relacionar o comportamento mental e moral com a estrutura física. Os darwinianos também acreditavam em raças superiores e inferiores, contribuindo assim para os preconceitos etnocêntricos correntes. O autor lembra que Alfred Russel Wallace, também evolucionista, afiançava poderem várias raças descender de um único “tronco”, havendo a diferenciação a partir de um dado momento, qual seja, aquele em que os homens se tornaram capazes de pensar. Uma subseqüente competição moral e mental entre as raças teria tomado lugar, resultando na vitória dos melhor dotados na luta pela vida, e, finalmente, na emergência de uma classe de homens mais evoluída, que não raro era identificada com o
Homo Europaeus. A desigualdade fundada na nacionalidade constituía-se, em última análise, em uma
variante da diferença fulcrada na raça. Conforme refere BAUMER, tornou-se bastante comum a afirmação da superioridade da “raça ariana”, cuja expressão encontrava-se, segundo alguns evolucionistas, nos alemães, nos franceses, ou em qualquer equivalente nacional ao homem europeu “branco” considerado evoluído. Os geneticistas e os eugenistas do período acentuavam não só a diferença biológica entre os indivíduos, mas também o fato de que tais particularidades eram transmissíveis hereditariamente, “colocando uma pátina de destino no comportamento dos indivíduos e dos grupos”. BAUMER, Franklin Le Van. O Pensamento
Europeu Moderno: séculos XIX e XX. Traduzido por ALBERTY, Maria Manuela. Lisboa: Edições 70,
aristocrática, que via no igualitarismo um contra-senso (pois os homens seriam biologicamente diferentes), na liberdade uma ilusão (face ao determinismo das leis da natureza), na sociedade um organismo, e na luta o principal instrumento para lograr progresso social127.
2.4 A Fratura do Total pela Arte: Para Além dos Cânones Racionais da Perspectiva, da