• No results found

Sensitivitetsanalyse av nytt Basel «IV»-kapitalgulv

10. EMPIRISK ANALYSE AV BASEL «IV»

10.2 A NALYSE AV IRB- BANKER

10.2.2 Sensitivitetsanalyse av nytt Basel «IV»-kapitalgulv

Do lugar onde estou já fui embora.

Manoel de Barros, Livro sobre nada.

Nesta seção, abordarei as noções de sujeito e discurso a partir dos estudos que assumem a perspectiva discursiva atravessada pela psicanálise. Esta afirma que a fala é fundamentalmente heterogênea, e que o sujeito é dividido. Nessa perspectiva, constrói-se a noção do discurso atravessado pelo inconsciente e de um sujeito descentrado, barrado pelo desejo, dito de outro modo, dividido, clivado entre o consciente e o inconsciente. Vale ressaltar o estatuto do sujeito em psicanálise:

Sigmund Freud empregou o termo, mas somente Jacques Lacan, entre 1950 e 1965, conceituou a noção lógica e filosófica do sujeito no âmbito de sua teoria do significante, transformando o sujeito da consciência num sujeito do inconsciente, da ciência e do desejo. Foi em 1960, em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, que Lacan, apoiando-se na teoria saussuriana do signo linguístico, enunciou sua concepção da relação do sujeito com o significante: “Um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante”. Esse sujeito, segundo Lacan, está submetido ao processo freudiano da clivagem (do eu) (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 742).

Ao tratar do processo de constituição do sujeito, vale destacar que a psicanálise utiliza o termo “constituição”, em vez de nascimento ou desenvolvimento, pois o sujeito se constitui a partir da linguagem. Nas palavras de Luciano Elia, “o sujeito só pode ser concebido a partir do campo da linguagem” (2010, p. 36). Lacan recorre à linguística de Ferdinand de Saussure e subverte o signo saussuriano significante/significado, dando primazia ao significante, entendido “como aquilo que convoca o sujeito, exige o trabalho do sujeito em sua constituição” (ELIA, 2010, p. 42), sendo que é a falta que funda o sujeito, e este desconhece o “objeto a” (objeto que causa o desejo no sujeito).

A psicanálise considera a importância da dimensão social para a constituição do sujeito do inconsciente. Sendo assim, Lacan propõe a categoria de Outro (com “O” maiúsculo) para designar a ordem significante e simbólica em que o sujeito se inscreve. A definição de significante para Lacan é diferente da de Saussure, cujo objeto de estudo era a linguagem e não o inconsciente. Para Lacan o significante é o que representa um sujeito para outro significante. O sujeito desliza de significante em significante, sem conseguir entender o que fala, alienado que está ao/do sentido daquilo que diz (LACAN, 2003). Nessa perspectiva, é válido ressaltar que,

sem cadeia significante não há sujeito (do inconsciente) e, ao mesmo tempo, o sujeito advém representado nesses significantes que o constituem. Para haver sujeito há que haver uma inscrição do significante, ou melhor, de um primeiro significante e de uma cadeia que a ele se sucede. O inconsciente é marcado pela inscrição do significante [...] (MARIANI, 2008, p. 144).

Para possibilitar o atravessamento da teoria do discurso pela psicanálise, é relevante retomar os trabalhos de Michel Pêcheux, principalmente os da terceira fase.

A Análise do Discurso pecheutiana surgiu na França, no final dos anos de 1960, iniciada por Michel Pêcheux, que pensou a AD na tensão entre história e linguística. Dessa tensão surge a necessidade de rever a noção de sujeito, que era visto pelo estruturalismo linguístico de forma cartesiana (sujeito logocêntrico, homogêneo). Desse modo, a AD surge como ação transformadora, na qual as preocupações residem na necessidade urgente de problematizar também os conceitos de “língua”, “historicidade” e “sujeito”. Nessa perspectiva, na construção do objeto discursivo, Pêcheux apresenta a tensão tripla entre historicidade, interdiscursividade e sistematicidade da língua. Assim, surge a problematização da noção de sujeito do discurso, a partir das discussões de Pêcheux sobre a materialidade linguística e histórica. A partir daí, o sujeito passa a ser considerado como sendo constituído na e pela linguagem (sujeito da ideologia e do inconsciente). Com isso, a visada discursiva apresenta a linguagem de forma articulada com outras áreas do conhecimento (a linguística, o materialismo

histórico, a psicanálise e outras); por isso a AD se distingue da linguística, para a qual a língua é o centro. Nessa perspectiva, Maria Cristina Ferreira (2003) afirma que a AD não deve ser considerada uma disciplina interdisciplinar, pois possui suas especificidades, uma vez que, ao se apropriar de conceitos de outras áreas, a AD os recria de modo próprio. Daí o reconhecimento da AD como “disciplina de entremeio” (ORLANDI, 1996), justamente por estar no cruzamento de saberes.

Desde o surgimento da AD, Pêcheux lutou pelo seu reconhecimento como área do conhecimento, com especificidade e características próprias, mas, com cerca de 50 anos, a AD ainda é jovem, e, segundo Ferreira, “é pouco para a consolidação de qualquer área de conhecimento” (2003, p. 41). Ferreira (2003, p. 42) afirma que a AD não é uma “linguística discursiva”, pois há pontos de contato, mas também há diferenças nessas duas teorias. A língua, na AD, é vista como algo da ordem da opacidade, do equívoco, das falhas, “da indefinição do direito e avesso, do dentro e fora, da presença e ausência” (FERREIRA, 2003, p. 42). Essa visão justifica o corte saussuriano (de língua/fala para língua/discurso). Considerando tal visão de língua, é preciso ressaltar que o sentido é deslizante, fica à deriva e, por isso, na AD, o sentido sempre pode ser outro e o sujeito passa a ocupar diversas “posições-sujeito” dentro das formações discursivas. O dizer do sujeito é “afetado pela formação discursiva onde se inscreve, também a afeta e determina em seu dizer” (FERREIRA, 2003, p.43). Desse modo, o sujeito da AD é aquele movido pelo desejo, pela busca da completude, que tenta apagar as contradições e que é interpelado pela ideologia. Conforme afirma Eni Orlandi, “não há discurso sem sujeito. E não há sujeito sem ideologia” (2005, p. 46).

Cada um à sua maneira, Michel Pêcheux e Jacques Lacan retomaram e criticaram, no século XX, “o modo de pensar a linguagem nas ciências sociais de seu tempo” (MARIANI et al., 2012, p. 7). Desse modo, a teoria do discurso e a psicanálise se tornaram campos vizinhos, porque inauguraram novos percursos de reflexão acerca do sujeito da linguagem, do discurso, do significante e do inconsciente no modo de pensar a linguagem (MARIANI et al., 2012, p. 7). O quadro epistemológico da AD convoca a psicanálise devido à necessidade, à natureza de seu campo teórico e aos procedimentos de análise. Com isso, podemos

vislumbrar a interpretação que Pêcheux faz da obra de Lacan, destacando a compreensão do sujeito como efeito de linguagem. Nesse sentido, Tavares (2013, p. 308) afirma que:

A afetação da AD pelo conceito de sujeito da psicanálise representa uma possibilidade de investigação da subjetividade em jogo no ensino-aprendizagem de línguas, na medida em que permite incluir o Real da língua como elemento constitutivo da própria língua e considera o equívoco e a opacidade como inerentes à linguagem.

Considerando a discussão sobre o histórico da AD, esse é um campo teórico que tem se consolidado cada vez mais no Brasil, e que, apesar de ser considerada uma teoria jovem, penso que esse campo teórico vem ganhando força e se estabelecendo como teoria que oferece múltiplas e consistentes possibilidades de investigação e que permite ressignificar os conhecimentos advindos de outras áreas do saber, dentre as quais destaco a psicanálise.

De acordo com Lacan, “o sujeito não é aquele que pensa. O sujeito é, propriamente, aquele que engajamos, não, como dizemos a ele para encantá-lo, a dizer tudo – não se pode dizer tudo –, mas a dizer besteiras, isso é tudo” ([1972- 73] 2008, p. 28). Assim, o sujeito não pode ser visto como “uma entidade homogênea, exterior à língua, que lhe seria útil para ‘transpor’ em palavras, um sentido do qual seria a fonte consciente” (AUTHIER-REVUZ, 1982, p. 136). Nesse sentido, estudos sobre formação de professores apontam para a problematização da noção de sujeito (ver ANDRADE, 2008; ECKERT-HOFF, 2004, 2008; GHIRALDELO, 2006; HON, 2009 MASCIA, 2003b; NEVES, 2006, 2008; REIS, 2007; SERRANI, 2005; TAVARES, 2013 e outros).

Nos estudos mencionados acima, o professor de línguas se apresenta como sujeito da falta, sempre em busca de (alg)uma completude, inteireza e controle. Nesse sentido, o sujeito-professor, marcado pela falta e pelo desejo, é visto por Claudete Ghiraldelo (2006) como sujeito sócio-histórico, constituído na e pela linguagem, não possuindo, nessa perspectiva, controle sobre seu discurso e sua prática (o seu dizer será sempre afetado pelo inconsciente). Assim, a subjetividade é compreendida como algo em construção, calcada no inconsciente,

construída com e pelo (O)outro. Cabe ressaltar que, o “Outro” (com maiúscula) é definido por Lacan como o lugar do “tesouro dos significantes”, ou seja, um espaço aberto de significantes que o sujeito encontra, desde o seu ingresso no mundo. É a referência ao simbólico. O conjunto dos termos que constituem esse espaço remete sempre a outros (da ordem do imaginário). Já o “outro” (com minúscula) representa os sujeitos falantes, vem de fora, produz alteridade e marca a diferença nos sujeitos (LACAN, 2008). Desse modo, a subjetividade, neste estudo, é formada a partir da forma como o sujeito se relaciona com várias formações discursivas, e a noção de “discurso” é entendida como a produção de dizeres e de saberes. Nessa concepção, há o atravessamento da noção lacaniana, na qual o discurso é a falação de si mesmo, no dia-a-dia (de caráter ficcional), um saber inconsciente, um saber que não se sabe. Nessa perspectiva, a AD visa a compreender como a linguagem organiza os discursos do enunciador para a produção de sentidos.

Tendo como base as contribuições da psicanálise, o sujeito é visto em oposição ao sujeito cartesiano (existe quando pensa), ou seja, é visto como sujeito barrado pelo inconsciente. Ainda sobre a problematização da noção de sujeito, é importante considerar que existem três tipos de sujeito nas ciências humanas, a saber:

a)O sujeito consciente, que se divide em sujeito cartesiano, racional, centrado na mente [...] e o psicológico, ensimesmado [...]. Em ambos os casos, é o sujeito da enunciação que pode controlar o seu dizer, o dizer do outro e os efeitos do dizer de um e de outro; b)O sujeito do inconsciente, que Lacan define como barrado pelo simbólico, neurótico, em busca de seu desejo que jamais realizará: sujeito da falta, da impossível completude;

c) E, finalmente, bem mais recente – sinal dos tempos! –, o sujeito da pulsão, também denominado pelos psicanalistas (Melman, 2002) sujeito do imaginário, da mercantilização de tudo e de todos, da objetificação do ser humano, da perda dos valores simbólicos: sujeito que acredita tudo poder, tudo realizar e que, em troca, vive na angústia da depressão que não sabe nomear; sujeito enfim, do consumo, que ao consumir, é consumido; sujeito que é o próprio consumo (BAUMAN, 1998; KHEL, 2002 apud CORACINI 2007, p. 151).

Tais definições de sujeito elucidam as nossas reflexões acerca da necessidade de problematizar a visão de sujeito que subjaz à atualidade, na área de formação de professores de línguas estrangeiras. Tais reflexões são imprescindíveis para subsidiar nossos gestos de interpretação dos discursos dos participantes envolvidos neste estudo.

Somando às reflexões sobre sujeito, Coracini (2007) apresenta como ponto central a discussão em torno do interdiscurso e da identidade. Vale lembrar que as definições de “intradiscurso” e “interdiscurso” foram feitas por Pêcheux (1988). Tais definições são suportes teóricos imprescindíveis ao analista de discurso. O intradiscurso é o fio do discurso, é da ordem da linearidade da linguagem. Já o interdiscurso remete às memórias implícitas (o já-dito) que atravessam o discurso (é da ordem do inconsciente). É o interdiscurso que determina o intradiscurso. O interdiscurso é definido como a relação de um discurso com outros:

o interdiscurso são as inúmeras vozes, provenientes de textos, de experiências, enfim, do outro, que se entrelaçam numa rede em que os fios se mesclam e se entretecem. Essa rede conforma e é conformada por valores, crenças, ideologias, culturas que permitem aos sujeitos ver o mundo de uma determinada maneira e não de outra, que lhes permitem ser, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Essa rede, tecido, tessitura, texto, melhor dizendo, escritura se faz corpo no corpo do sujeito, (re)velando marcas indeléveis de sua subjetividade (CORACINI, 2007, p. 9).

Frente ao que foi dito acerca da noção de sujeito, é mister lembrar que os ideais totalizantes e universalizantes não cabem mais na atualidade. Desse modo, “ser sujeito, pois, é ter de recomeçar insistentemente seu percurso singular, ter de lidar com seu desamparo em um mundo em que universalidade e totalidade não mais existem” (BIRMAN, 1999, p. 95). Assim, apresenta-se, a seguir, a definições de identidade, subjetividade e singularidade, noções estas que estão diretamente ligadas à temática do sujeito e que, muitas vezes, se (con)fundem.

1.3 Identidade, subjetividade e singularidade