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Por que estudar a mídia? Investigando os discursos midiáticos, pode-se perceber a história que é contada, não somente pelos historiadores, mas também por aqueles que formam, informam, investigam, influenciam, criam novas identidades a cada época, a cada acontecimento discursivo que é (a)temporalizado nos textos midiáticos. Através da mídia se faz conhecer/reconhecer as mudanças sociais, as polêmicas travadas, as buscas, as lutas, os mecanismos de poder, as vontades de verdade. A mídia comenta o mundo e, nessa forma de comentar o mundo, aparece o discurso materializado nas mais variadas formas, nos mais diferentes gêneros, formando então os arquivos da mídia.

Nos arquivos midiáticos pode-se encontrar o real unindo-se ao imaginário, em cada temática apresentada nos mais diversos gêneros discursivos, seja pela notícia, reportagem, música, charge, propaganda, fazendo a mediação entre autor/leitor. Segundo Gregolin (2003b, pp. 98-99), “o real é, pois, sobredeterminado pelo imaginário; nele, os sujeitos vivem relações e representações reguladas por sistemas que controlam e vigiam a aparição dos sentidos”. Esse imaginário parte dos discursos que se dizem, pela vontade de verdade que surge e que é levada ao público. Quanto a isso, Silverstone (2005, p.181), destaca que

partilhamos valores, idéias, interesses e crenças como os nossos. Partilhamos passados e também o presente imediato: nossas biografias entrelaçadas com histórias e amalgamadas pela memória. Encontramos nossas identidades nas relações sociais que nos são impostas e nas que procuramos. Nós as vivemos diariamente. Percebemos uma necessidade de pertencer. E precisamos restabelecer a certeza de que realmente pertencemos.

Conforme comenta o autor, a história e a memória estão entrelaçadas e nossas ideias, valores e crenças são compartilhados. Com isso, a mídia faz acender princípios éticos, morais e também as vontades de verdade, que podem ser divulgadas ou não, podem ser aceitas ou não. Há um jogo discursivo que ressalta os

mecanismos de poder detidos na e pela mídia. Nesse jogo de linguagem e na produção dos sentidos, há uma história que é resguardada na memória constituída pelos arquivos midiáticos. É através dessa memória que “os fios privados do passado se entrelaçam no tecido público, oferecendo uma visão alternativa às versões oficiais da academia e do arquivo” (SILVERSTONE, 2005, p.233). O autor, em seu dizer, lembra ainda que

essas memórias inauguram outros textos, não menos históricos do que os primeiros, mas, não obstante, outros. Eles emergem do popular e do pessoal e são o produto de nossos próprios tempos. Na fluidez de tais memórias, o passado surge como uma realidade complexa, e não singular; e, como outros já disseram, a pluralidade da memória é, ela mesma, prova da pluralidade da realidade e não, em algum sentido, um engano. (SILVERSTONE, 2005, p.233).

A mídia é, dessa forma, um instrumento para a disseminação, a articulação da memória. Essa memória, que fixa os acontecimentos tanto no espaço público quanto no privado, está registrada por enunciados verbais ou imagéticos materializados e dicursivizados nos arquivos midiáticos.

Achard (2007, p.11) comenta que o “discursivo vai constituir a materialidade de uma certa memória social”. Isso acontece porque o discurso, uma vez produzido, pode ser retomado e reformulado, lembrando um outro enunciado já dito. Esses discursos não dependem, hoje, somente do registro na mente dos sujeitos, pois, depois da imprensa, encontraram-se outros meios para se registrar os discursos. Como esclarece Davallon (2007, p.23), essa memória está “inteiramente e naturalmente presente nos arquivos das mídias”. Isto muito favorece o trabalho do analista do discurso que deseja enveredar por esse campo, como é o nosso caso, porque, dessa forma, se pode recorrer aos acontecimentos registrados pela mídia impressa ou imagética (móvel ou estática), para se ter acesso ao material de análise. Pode-se observar, por exemplo, que a mídia, seja em propagandas, em anúncios ou reportagens, utiliza-se da imagem para produzir sentidos, despertando, assim, o sujeito leitor, a demonstrar maior interesse pelo assunto tematizado. Vê-se então a importância da imagem para o despertar da memória.

Referindo-se ao que Davallon reiterou a respeito das imagens, Pêcheux (2007, p.51) considera que

essa negociação entre o choque de um acontecimento histórico singular e o dispositivo complexo de uma memória poderia bem, com efeito, colocar em jogo a nível crucial uma passagem do visível ao nomeado, na qual a imagem seria um operador da memória social, comportando no interior dela mesma um programa de leitura, um percurso escrito discursivamente em outro lugar: tocamos aqui o efeito de repetição e de reconhecimento que faz da imagem como que a recitação de um mito. Na transparência de sua compreensão, a imagem mostraria como ela se lê, quer dizer, como ela funciona enquanto diagrama, esquema ou trajeto enumerativo.

A publicidade, por exemplo, utiliza-se de uma dupla materialidade verbo- visual, despertando assim, o pretenso consumidor a demonstrar maior interesse pelo produto lançado. É necessário então pensar a relação sujeito/mídia, ou seja, como o sujeito vê o que é anunciado pela mídia e que estratégias utiliza para resistir ao discurso midiático/publicitário. Como destaca Silverstone (2005, p.150) “consumimos a mídia. Consumimos pela mídia. A mídia, não é exagero dizer, nos consome”. Mas, nesse consumo, pode-se dizer, o sujeito constrói seus sentidos, seus valores, sua identidade.

Para Gregolin (2007b, pp. 39-40), “a mídia faz parecer que a identidade é essencialmente resultado de uma construção do próprio eu; cria a idéia de que ela é projeto de cada indivíduo, concebido ao longo de sua vida e desenvolvido mediante suas próprias escolhas”. Na modernidade, constata-se uma fabricação de indivíduos que são, a todo momento, compelidos pelo discurso midiático, pois, a mídia, seja pelos jornais, revistas, TV ou Internet, invade a vida do sujeito contemporâneo interpelando-o e impulsionando-o a criar sua história.

No entanto, na constituição desse sujeito, em suas práticas discursivas, a mídia pode ser usada, não somente como a voz que liberta, mas também como um mecanismo de controle, um poder disciplinar que serve para docilizar os corpos, designando-os aos seus devidos lugares, no espaço privado e/ou no público. Isso pode ser visto, mais adiante, nos demais textos do arquivo constituído para esta pesquisa.

1.5 O ARQUIVO E A SELEÇÃO DO CORPUS: SEGUINDO O TRAJETO TEMÁTICO