5.2 Intervju
5.2.6 Kjennetegn ved prosess
Com os movimentos feministas que se fortificam no século XX, as mulheres começam a adquirir o direito à palavra pública. Está rompido o silêncio. Por volta dos anos 1960, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, iniciam-se as maiores mudanças na história das mulheres. Na França e em outros países essas mudanças aparecem com maior intensidade somente uma década depois. Em 1970, os acontecimentos são muitos, entre eles a redescoberta da família. Incidentalmente, nessa época, a mulher se definia como um sujeito mais ativo e mais presente na/para a sociedade. A partir de então, marcam mais fortemente sua presença em todos os campos, principalmente no intelectual.
Nasce o desejo de uma nova história, de um novo retrato feminino, de novas identidades. Segundo Hall (2006, p.07), essas identidades surgidas na contemporaneidade passam por situações de crises, pois, “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado”. Para Bauman (2007), isso se dá porque vivemos em tempos líquidos, em que tudo se desfaz, tudo dura pouco, nada é eterno. Não há solidificação dos comportamentos, os quais passam por rápidas e constantes modificações nas sociedades contemporâneas.
Para Baracuhy (2009, p.63) “as identidades só existem no interior das instituições sociais, estando ligadas à cultura e ao imaginário social, de onde elas (as identidades) retiram seus símbolos e representações. A identidade é uma construção sócio-cultural”. E essa construção, que a todo momento se desconstrói e se reconstrói, é lembrada constantemente pela mídia.
Junto a essas mudanças, a mídia, seja televisiva, digital, impressa, assume um papel essencial: o da representação desses novos sujeitos. Essa mídia, que invade as vidas dos sujeitos, mostra a imagem dessa mulher, a qual representa hoje os mais variados papéis sociais. Na mídia, mostra-se uma mulher inteligente, independente, decidida, sedutora. Mudam os discursos da mulher e muda a discursivização sobre a mulher. Isto pode ser visto, por exemplo, em várias campanhas publicitárias que circulam pela sociedade. A mídia, através dos variados
gêneros do discurso - como reportagens, músicas, charges, propagandas, entre outros, cristalizam a nova imagem da mulher contemporânea.
Essa nova imagem, que aparece materializada no discurso midiático, pode ser vista nas propagandas abaixo:
(Fig.10: Campanha Meias Puket – 2007) (Fig. 11: Campanha Sandálias Melissa - 2008) Na figura 10, vê-se uma releitura do conto de fadas Cinderela. No enunciado aparece uma nova personagem que, ao descer a escadaria de bicicleta, sem um dos sapatos nos pés, feliz, com os cabelos ao vento, pouco lembra a Cinderela dos contos de fadas em sua fuga angustiada, comandada pelas badaladas do relógio. Essa Cinderela criada para divulgar a coleção de meias Puket não parece preocupada com a hora, muito menos com um “príncipe encantado” ou com um futuro casamento. A sensação de “liberdade”, da qual nem sempre a mulher pôde usufruir, paira nessa propaganda.
Em meio a esses novos efeitos de sentidos, vê-se, no texto, o atravessamento dos discursos do conto medieval através dos deslocamentos da escadaria, do tapete vermelho, da falta de um dos sapatos nos pés da moça e no próprio enunciado verbal “Abóbora? Tô fora!”. A palavra “abóbora”, neste exemplo, nos remete a uma memória sobre o conto, quando há a transformação desse vegetal em uma carruagem para levar Cinderela ao baile e, consequentemente, ao casamento21.
21
Na versão contada pelos irmãos Grimm, todas as moças da cidade são convidadas para o baile, com o intuito de o príncipe escolher uma delas para ser sua noiva.
E, para que exista uma memória, Davallon (2007, p.25) coloca que é preciso que “o acontecimento ou o saber registrado saia da indiferença, que ele deixe o domínio da insignificância. É preciso que ele conserve uma força a fim de posteriormente fazer impressão”. Parece ser isso o que acontece com a nova posição-sujeito assumida pela mulher, a qual se mostra independente e dona de seu próprio destino.
Na releitura analisada, verifica-se uma nova identidade feminina circulando pela sociedade através da mídia. Nessa identidade percebe-se a vontade de liberdade, a sensualidade, a exposição do corpo. Diferentemente das moças de outrora, das princesas dos contos de fadas, essas mulheres não parecem dependentes de uma união estável e cômoda, não andam suspirando pelo homem idealizado. Na antiguidade, segundo Foucault (2007b, p. 156), o fato de casar-se ou não levava os homens a refletirem sobre as vantagens e desvantagens de se ter uma “esposa legítima e de dotar-se, graças a ela, de uma descendência honrosa, e em troca, preocupações e distúrbios, quando se tem que sustentar a própria mulher, velar pelos filhos, prover as suas necessidades e enfrentar, às vezes, suas doenças e morte [...]”. Na contemporaneidade, muitas vezes, esses papéis se invertem. Tudo isso hoje não representa somente preocupações masculinas, mas femininas, com a diferença de que à mulher nunca foi oferecido dote algum em favor do casamento. A ela cabia assumir todas as responsabilidades junto ao esposo, aos filhos e ao lar. Hoje, essas não são as únicas ocupações que lhes cabem, pois, grande parte das mulheres trabalha fora, têm uma profissão, o que lhes obriga muitas vezes a fazer opções, como não ser mais uma dona-de-casa, não casar e/ou não ter filhos.
Na figura 11, uma propaganda que traz uma releitura do conto de fadas Rapunzel, observa-se que a imagem do corpo submisso não está retratando uma mulher, mas um homem. Relembrando a propaganda das calças Mr. Leggs, apresentada neste mesmo capítulo, pode-se ver o quanto os conceitos, as atitudes, as relações de poder podem se modificar em quatro décadas. Realmente, parece que o “coração selvagem da tigresa” não era tão fácil de domar assim. Na imagem que se apresenta na figura 11, em vez de uma princesinha frágil, indefesa, à espera de um príncipe encantado, a Rapunzel dessa propaganda é uma mulher sensual, feminina e destemida. Mais do que isso, ela mostra-se uma mulher dominadora ao envolver seus cabelos em tranças no homem de seu desejo e prendê-lo embaixo de
um de seus pés. Nessa releitura, não só a mulher comanda a situação, como também o homem assume uma atitude indefesa e submissa. Esse novo príncipe contemporâneo representa uma nova identidade masculina nessa sociedade machista. Pode-se ver o olhar de admiração e encantamento em direção à mulher que o submete as suas vontades. Numa atmosfera medieval - em que as imagens nos transporta ao mundo da magia dos contos de fadas -, os dois demonstram atitudes inovadoras. Seria um momento de revanche? Tudo isso é necessário para se despertar o consumo dos produtos acima, afinal, as mulheres, propensas consumidoras, precisam se identificar com os sujeitos mostrados/criados pela mídia.
Observando esse texto, pode-se averiguar ainda que a memória traz o passado para o presente prevendo o futuro. Isso acontece através dos discursos que circulam e das retomadas aos arquivos da história. Ao se olhar para essa propaganda, percebe-se que não basta prender os cabelos femininos, como se pregava até o século XIX, para afastar o poder da sedução. A imagem mostra que, mesmo presos em tranças, os cabelos tornam-se uma arma poderosa nas mãos de uma mulher. Os mesmos cabelos em tranças que, no conto de fadas, servem para o príncipe escalar a alta torre em busca de sua amada, são utilizados agora para prendê-lo aos seus pés.
No jogo dos sentidos, a mídia tenta negociar com a diferença. Ela mostra uma mulher diferente daquela rotulada pelo machismo persistente por tantos anos em todas as sociedades. É um grito de independência feminina, uma demonstração da emancipação da mulher. E como coloca Foucault (2008a) – numa citação já feita neste trabalho -, nas malhas do poder, os indivíduos estão sempre circulando, exercendo ou sofrendo a ação desse poder. É o que se vê nas propagandas das calças Mr. Leggs e das sandálias Melissa. Há uma inversão dos sentidos. Ora a mulher sofre, ora exerce a ação do poder. O que não poderia ser dito há quarenta anos torna-se natural que seja dito/visto agora, pois as condições de produção dos discursos são outras. Mas como esses papéis se inverteram a esse ponto? De que forma as relações de poder entre homem e mulher circularam de forma tão intensa? Foucault (2008a, p.75) vai dizer que “cada luta se desenvolve em torno de um foco particular de poder”. O que explica a luta entre os gêneros pela conquista dos direitos, da liberdade feminina.
Nesse sentido, isto acontece porque, segundo Hall (2006) as identidades, que por muito tempo estabilizaram a esfera social, estão sendo substituídas por novas identidades. O autor (2006, p.07) ainda explica que
a assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.
Para Hall, a identidade do sujeito se constrói através dos discursos que circulam na sociedade, sendo então, a identidade, um processo cultural. Daí ele dizer que não há identidades fixas, porque os cenários das sociedades modernas estão em constantes transformações, o que leva o sujeito às mudanças de comportamento e de identidade.
Na década de 70, Martinho da Vila canta a música, de sua composição, Você não passa de uma mulher. Na letra da música, através da linguagem, vê-se a condição feminina, apesar das mudanças ocorridas. Uma variedade de identidades, de papéis sociais femininos é mostrada pelo compositor.
Mulher preguiçosa, mulher tão dengosa, mulher
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Mulher tão bacana e cheia de grana, mulher
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher Olha que moça bonita,
Olhando pra moça mimosa e faceira, Olhar dispersivo, anquinhas maneiras, Um prato feitinho pra garfo e colher Eu lhe entendo, menina,
Buscando o carinho de um modo qualquer Porém lhe afirmo, que apesar de tudo, Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher
Olha a moça inteligente,
Que tem no batente o trabalho mental QI elevado e pós-graduada
Psicanalizada, intelectual Vive à procura de um mito,
Pois não se adapta a um tipo qualquer Já fiz seu retrato, apesar do estudo, Você não passa de uma mulher (viu, mulher?)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Menina-moça também é mulher (ah, mulher)
Pra ficar comigo tem que ser mulher (tem, mulher)
Fazer meu almoço e também meu café (só mulher)
Não há nada melhor do que uma mulher (tem, mulher?)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Nos enunciados “Mulher preguiçosa, mulher tão dengosa”, “Mulher tão bacana e cheia de grana”, “moça mimosa e faceira, olhar dispersivo, anquinhas
maneiras”, percebe-se, entre cada uma das mulheres, as diferenças. Porém, um outro enunciado “você não passa de uma mulher”, que se repete após a apresentação de cada tipo encontrado, mostra a igualdade para o mundo masculino. Mesmo a citada moça inteligente, psicanalizada, intelectual, a que tem um trabalho mental, para o compositor, “apesar do estudo”, ela “não passa de uma mulher”. Os adjetivos/ predicativos desse sujeito feminino de nada valem para a sociedade machista ditada na música. Ou seja, diante das colocações, há uma resistência do masculino em assumir esse novo papel feminino. Não adiantar estudar, trabalhar, ter QI elevado, pois para o tipo de homem retratado na música, ela não passa de uma mulher. Há ainda uma provocação quando se enuncia ironicamente “viu, mulher?”, no sentido de tentar conscientizá-la de sua condição sexual, de seu gênero. Mas, qual o sentido de ser mulher no enunciado tão repetido, tão retomado através de um refrão musical? A verdadeira mulher seria essa que serve para “Fazer meu almoço e também meu café”? Esse é o tipo idealizado pelo homem? Numa sociedade patriarcal, machista, cria-se um estereótipo de papéis sociais que são reafirmados a todo instante, apesar das mudanças, que muitas vezes são mascaradas, invisibilizadas.
A comodidade masculina com os costumes patriarcais fica bem clara nos enunciados acima, afinal, a situação do gênero masculino mostrava-se bastante confortável em relação à mulher. Para que mudar então? A mudança do homem parece ser tão inimaginável que no trecho, “vive à procura de um mito, pois não se adapta a um tipo qualquer”, o qual se refere à moça intelectual, pós-graduada, aquela que se acha no direito de escolher, a palavra “mito” parece ter o sentido de uma impossibilidade em encontrar o homem de seus sonhos, que certamente não é esse homem que canta e ressalta uma condição submissa, inferior, do gênero feminino. Essa nova mulher (estudada, pós-graduada, trabalhadora) enfrenta grandes batalhas em seu cotidiano. Se o homem idealizado é um “mito”, como canta Martinho da Vila, será por isso a opção - assumida por tantas mulheres - por não casarem, por viverem sozinhas, independentes, sem a necesidade de acordarem todos os dias e prepararem o café desse homem que canta a submissão do sexo feminino?
Martinho da Vila, ao cantar Você não passa de uma mulher, produz sentidos que não representam os seus sentimentos individuais, mas, os sentimentos
de uma época que ainda resistia à emancipação feminina. Como ressalta Kolontai (2009, p.16),
Há 50 anos, considerava-se a participação da mulher na vida econômica como desvio do normal, como infração da ordem natural das coisas. As mentalidades mais avançadas, os próprios socialistas buscavam os meios para que a mulher voltasse ao lar. Hoje em dia, somente os reacionários, encerrados em preconceitos e na mais sombria ignorância, são capazes de repetir essas opiniões abandonadas e ultrapassadas há muito tempo.
Hoje, com a crescente população feminina nas salas de aula e no mundo do trabalho não se pode dizer que, “apesar do estudo, você não passa de uma mulher”. Esse refrão faz lembrar que, segundo Blay (2009, p. 39), “na história brasileira, passaram-se cinco séculos até que a mulher fosse considerada um ser humano”. Os direitos humanos não especificavam a mulher até então, “subentendendo-a sob a denominação „homens‟ ou „seres humanos‟, o que, na prática significava ocultá-la” (BLAY, 2009, p.39). Somente no século XX começam a repercutir os reais direitos das mulheres. Mesmo assim, os discursos que diminuíam a mulher perante a sociedade continuaram a ser retomados; e esses discursos se repetiam/repetem principalmente por meio da mídia.
Apesar da retomada dos discursos machistas e de sua materialização na mídia, percebem-se as mudanças. Surgem os novos discursos paralelos a essas repetições que aparecem por meio da linguagem verbal ou não-verbal. Isso acontece devido às transformações das identidades femininas e “tal como a linguagem, a tendência da identidade é para a fixação. Entretanto, tal como ocorre com a linguagem, a identidade está sempre escapando. A fixação é uma tendência e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade” (SILVA, 2007, p.84). Isto pode ser visto nas imagens a seguir, que retratam dois momentos do mundo feminino, no que se refere ao controle das máquinas criadas pelo homem e, provavelmente, para o homem.
(Fig.13: Revista VEJA, 23 de março de 2011) (Fig. 12: Propaganda Volkswagen, anos 70)
Muito antes da década de 70, algumas mulheres já dirigiam um automóvel, porém, o papel de motorista, exercido pela mulher, parece ser um dos que mais recebeu a rejeição do homem. Até hoje, em pleno século XXI, as mulheres são criticadas quando assumem a direção de um carro.
Nas ruas da cidade ou nas estradas do país podem-se ver motoristas de táxi, condutoras de caminhões, motogirls, mas o discurso que se repetiu constante e negativamente sobre esse fato, criou uma memória cristalizada de que um veículo motorizado, mais especificamente o carro, ao ser conduzido por uma mulher, oferece perigo constante - no entanto, não é o que dizem as 22estatísticas ao apontarem que o maior número de acidentes de trânsito envolve homens na direção. Essa memória (a do perigo constante) está bem presente no enunciado criado para uma propaganda da Volkswagen23 ao mostrar iconicamente um fusca batido, com o
22
Nos dados divulgados pelo DENATRAN, até 2009, é traçado “um perfil dos acidentados no sistema viário brasileiro, no qual prevaleceram os homens (74,2%), jovens (entre 20 a 29 anos), com escolaridade média (até o 2º grau ou médio), solteiros (55,4%), morenos ou pardos (56,5%), e na sua maioria desempregados ou desocupados seguidos por estudantes, motociclistas e ciclistas de entregas rápidas. Os motociclistas constituíram a maior proporção das vítimas (40,1%). Na segunda posição ficaram os pedestres e os ciclistas. Em relação ao consumo de álcool pelos motoristas, a prevalência de alcoolemia positiva entre os acidentados no conjunto de cidades foi de, aproximadamente, 27%. [...] Fortaleza foi a cidade que registrou o maior índice (36,5%) e Brasília o menor (16,3%). Os homens apresentaram prevalência uma vez e meia maior que as mulheres”. Sendo que boa parte das mulheres acidentadas estavam em veículos conduzidos por homens. Disponível em: http://vias-seguras.com/os_acidentes/as_vitimas_de_acidentes_de_transito/o_mundo _desconhecido_das_vitimas_de_acidentes_do_transito/perfil_dos_acidentados_maio_2009. Acesso em 25/03/2012.
farol quebrado e a materialidade verbal que diz: “Mais cedo ou mais tarde sua esposa vai dirigir. Essa é uma das razões para você possuir um Volkswagem”. Ou seja, ela vai dirigir, vai bater e você não pode ficar no prejuízo, por isso a necessidade de comprar um Volks, que é composto por peças mais baratas e acessíveis na hora da troca. No enunciado percebe-se também, de maneira sutil, uma forma de rendição do homem ao dizer: “Mais cedo ou mais tarde sua esposa vai dirigir”, não tem jeito, as mulheres estão mudando, deve-se, então, acompanhar a mudança delas. Os efeitos de sentido que emanam desse enunciado mostram a resistência feminina sobressaindo aos preceitos sociais, na época citada.
Mas, em meio a essas mudanças, a mulher não quis apenas dirigir um carro, ela quis muito mais, ela quis ter o comando de todo e qualquer meio de transporte inventado e conduzido pelo homem. Isto está explícito na matéria da revista VEJA (acima), a qual traz como tema os problemas de transportes aéreos do Brasil e a contratação de mais pilotos pelas empresas. A matéria é iniciada com a imagem de uma mulher na cabine do piloto, demonstrando com simpatia e segurança a profissão que exerce. Em menos de 50 anos entre a propaganda da Volkswagen e essa matéria de VEJA vivenciamos o quanto a mulher não tem limites em sua busca por uma profissão, por um lugar no espaço público. Isto, necessariamente não quer dizer que os preconceitos desapareceram. Esses preconceitos permanecem bem presentes nas mentes das pessoas, inclusive das próprias mulheres, principalmente das mais velhas, que viveram e foram educadas numa época completamente diferente da que vivemos e somos educadas hoje.
Isto pode ser visto em um trecho da matéria que diz:
Com dezenove anos de carreira, a comandante MARIA MEDEIROS, da Azul, trabalhou como comissária de bordo a fim de pagar os estudos e se tornar piloto. Para completar sua capacitação, fez também um curso universitário, no caso, comércio exterior. O fato de ela ser mulher desperta curiosidade entre os passageiros, mas também preconceito. “Certa vez, uma senhora olhou para mim e me mandou voltar para casa e cuidar da minha família”, ela conta. Agora, Maria terá de ficar em casa. Aos 37 anos, está grávida de cinco meses e não pode voar.
(VEJA, 23/03/2011, p.107) O enunciado “Certa vez, uma senhora olhou para mim e me mandou voltar para casa e cuidar da minha família” retrata a condição em que a mulher esteve limitada por muito tempo: ficar em casa e cuidar da família. Não é de surpreender que uma senhora tenha falado isto, pois era assim que a mulher era educada e,
certamente, essa foi a condição vivida pela senhora que exteriorizou, por meio da linguagem, seu pensamento. Por outro lado, outras senhoras, educadas na mesma época, podem estar satisfeitas com essas mudanças, pois o sujeito, como o ser disperso e múltiplo que é, assume diferentes posições em diferentes momentos de sua vida.
Para Maria Medeiros, o fato de estar grávida e não poder voar por um determinado tempo mostra as condições biológicas que não podem ser modificadas; e mostra também que a mulher, mesmo se realizando profissionalmente, continua assumindo seu papel de reprodutora, continua constituindo família, desejando ser mãe, mesmo que isto implique em desvantagens profissionais em relação ao