• No results found

O que se propõe neste trabalho de pesquisa é, através da vertente da Análise do Discurso de tradição Francesa, investigar e analisar os textos midiáticos que contam a história da mulher e sua relação com o trabalho e a família. A mulher que buscou/busca um lugar de sujeito em meio ao social, a mulher que luta para sair do silenciamento, do espaço privado e procura dar voz ao seu querer, a sua vontade, a mulher que não se conformou/conforma somente com a sua função de reprodutora e quer, de braço dado com o homem, ocupar um espaço público, um espaço de produtora, pois é ocupando o lugar de um sujeito público, um sujeito produtor no mercado de trabalho, que sente justificar sua existência além dos portões do seu lar. No entanto, nem por isso, essa mulher deixou de lado os papéis mais primitivos do seu sexo, os papéis de mãe, esposa e dona-de-casa. É nesse sentido que se faz aqui um estudo mais complexo sobre a história dessa mulher que, por tanto tempo, esteve na penumbra e que agora procura um lugar ao sol, andando com as próprias pernas e fazendo suas próprias opções de vida.

Investigando a história das mulheres, descobre-se que, por muito tempo, elas foram tomadas como um ser de completa submissão ao sexo masculino e 2“durante muito tempo as mulheres ficaram abandonadas na sombra da história” (DUBY e PERROT, 2000, p.19). A mulher era um sujeito visto como delicado, frágil e sem maiores competências intelectuais para resolver os problemas sociais tidos como função masculina. Um sujeito que deveria zelar pelo bem-estar do marido, dos

filhos, da família, e que não deveria trazer grandes ambições de realização que não fosse a do casamento, a da constituição familiar.

Durante muitos anos, mesmo o direito à educação formal lhe era negado. Poucas eram as que estudavam, geralmente, as pertencentes a famílias com mais posses podiam usufruir desse privilégio, mesmo assim, não era bem visto levar uma carreira adiante, pois, em relação ao trabalho, sobrava às mulheres apenas o trabalho doméstico, esse que sempre foi fundamental para uma vida em sociedade e sempre foi uma responsabilidade e um peso a ser carregado somente pelas mulheres. “O caráter doméstico marca todo o trabalho feminino: a mulher é sempre uma dona-de-casa” (PERROT, 2007, pp.114-115).

A mulher começa a conquistar espaço com o trabalho fora de casa a partir da industrialização, mas, muitas dessas mulheres, as quais começam a trabalhar muito cedo, acabam deixando o trabalho em prol do casamento, pois fica muito difícil conciliar trabalho, casamento e filhos. Lagrave (2000) comenta que, quando se comparam homens e mulheres, a situação não é a mesma em toda parte, pois,

3aos homens se induz um trabalho para atender as necessidades da família, enquanto que as mulheres são acusadas de abandonar essa mesma família por um salário complementar. Os homens “ingressam em uma carreira”; em compensação, as mulheres abandonam o lar. (LAGRAVE, 2000, p.522)

Essa era a concepção sobre o trabalho feminino. Dessa forma, muitas mulheres só voltam a trabalhar quando os filhos já têm idade para assumir também uma profissão.

Já no século XX, nos anos 50, muitas são as jovens que frequentam os cursos de corte e costura, e o que antes seriam prendas domésticas, torna-se profissão. Com a revolução da indústria têxtil surge muito trabalho de costura. “Das mulheres, diz-se que nasceram „com uma agulha entre os dedos‟” (PERROT, 2007, p.122). Afinal, esse era um ofício o qual se começava a aprender com as mães, em casa.

Com as qualidades reconhecidamente femininas, eram as mulheres quem mais exerciam as profissões de vendedora, secretária, enfermeira, professora

3

A los hombres se lo exhorta a trabajar para atender las necesidades e la família, mientras que a lãs mujeres se lãs acusa de abandonar esa misma família por un salário complementário. Los hombres “entran em la carrera”; las mujeres, en cambio, desertan del hogar.

primária, pois com sua delicadeza, prestimosidade, simpatia, levavam mais “jeito” para exercerem tais funções. Quanto ao ingresso nas profissões de médica, advogada, juíza, professora universitária, recebia muita rejeição por parte dos homens e até mesmo de outras mulheres, mesmo assim, nas últimas décadas do século XIX, já apareciam os sujeitos da resistência. E a mulher começa a preparar o espaço que hoje, no século XXI, está devidamente ocupado por elas.

E o lado artístico, poderia ser exercido por uma mulher? Sem dúvida que sim, pois as mulheres sabem muito bem expressar emoções, simular, colocar-se na pele de outra. Mas, por muito tempo, a profissão de atriz, por exemplo, não foi bem vista. Como coloca Rousseau (Apud PERROT, 2007, p. 128) “uma mulher que se mostra, se desonra”. E ficava a imagem de que ser atriz era faltar com o pudor, se envolver em círculos viciosos e mesmo em prostituição. Somente nos anos 1920, em alguns países mais evoluídos, como a Inglaterra, esse olhar sofre mudanças e “ser atriz passa a ser uma profissão aceitável e respeitável” (PERROT, 2007, p. 131). Nessa época o cinema começa a se consolidar, tornando-se uma forma de entretenimento.

Com as mudanças sociais, políticas e culturais, surgem para os sujeitos, em especial para a mulher, os novos espaços. Os espaços ocupados já não são somente aqueles que sempre foram destinados ao sexo feminino, como o de esposa, mãe, dona-de-casa, mas também o de “mulher”, em todos os sentidos. Porém, sem o poder, como conseguiram as mulheres chegar aos campos dominados pelo homem e ganhar influência no social? Perrot (1998, p.59) responde que isso acontece “primeiro pela correspondência, depois pela literatura e, por fim, pela imprensa”. A historiadora diz que, mesmo permanecendo restritas a tarefas subalternas, as mulheres “se inseriram em todas as formas do escrito” (PERROT, 1998, p.59).

A mulher adquire, de maneira mais geral, o direito à educação e a uma formação profissional. No entanto, na busca por um espaço social, acaba por assumir uma dupla jornada, pois, como lembra Beauvoir (2009, p.880), “em sua maioria as mulheres que trabalham não se evadem do mundo feminino tradicional; não recebem da sociedade, nem do marido a ajuda que lhes seria necessária para se tornarem concretamente iguais aos homens”. Assim, surge o acúmulo de funções as quais a mulher vê-se obrigada a cumprir. Complementando esse pensamento,

Strey (2001, p.69) chega à conclusão de que mesmo hoje “a participação das mulheres no trabalho doméstico apresenta poucas diferenças de tempos atrás, pelo que então fica claro que sua participação no mercado de trabalho suponha um trabalho duplo, uma jornada dupla”.

É cada vez mais comum que, por necessidade financeira ou por realização pessoal, as mulheres se ausentem de seus lares para assumirem uma profissão, e, com isso, passem a adquirir poder financeiro e uma “certa liberdade”. Beauvoir (2009, p. 879) reitera que “foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a separava do homem; só o trabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta”.

Se para a mulher dos anos dourados havia realmente uma grande importância em casar-se, constituir família e manter, acima de tudo, uma estrutura familiar e um marido para sustentar a casa, essa parece não ser a principal preocupação da mulher do final do século XX e desta primeira década do século XXI. Para a mulher, o trabalho é uma forma de ser inserida na sociedade e ser reconhecida por ela. Perrot (1998, p.142), diz que “as mulheres livres de hoje podem defender-se melhor porque trabalham e ganham sua vida. O trabalho das mulheres não é uma fantasia, mas sim a possibilidade de sua autonomia”. E o que vem sendo mostrado pela mídia é que não só as mulheres, como também os homens continuam pensando em casamento, em constituir família, mas não antes de realizarem-se profissionalmente, de alcançarem objetivos e metas.

Essa nova mulher, que tenta conciliar as mais antigas funções, como a maternidade, e as mais novas conquistas, como o trabalho, aparece nos textos da mídia, por meio de remissões aos acontecimentos que fizeram gerar essa nova identidade feminina, uma identidade dispersa, transformada e constituída pelas vozes do Outro, pela história, pela memória. Neste sentido, Gregolin (2004, p.59) ressalta que se pode pensar o sujeito como “uma fabricação, uma construção realizada, historicamente, pelas práticas discursivas”. E essa fabricação, essa construção desse sujeito, dessas novas identidades, pode ser vista nos discursos midiáticos em seus mais variados gêneros, que discursivizam as suas vontades de verdade, construindo a história dessa mulher contemporânea ao mesmo tempo em que tenta direcionar alguns dos caminhos a serem escolhidos, percorridos. São as

práticas discursivas da mídia, contando e constituindo a história dessa nova mulher, que servirão como corpora deste trabalho.

1.4 POR QUE ESTUDAR A MÍDIA? A ANÁLISE DO DISCURSO, A MEMÓRIA E O