3.0 Design og metode
3.3.1 Semistrukturert intervju
Em uma perspectiva histórica das investigações de ensino de LE, inúmeros são os estudos que apontam para uma mudança paradigmática na concepção de língua e linguagem na contemporneidade. Enquanto algumas concepções de ensino focalizavam/focalizam o ensino de formas lingüísticas, o comunicativismo introduziu uma visão de língua como parte de um contexto sócio-cultural mais amplo e priorizou a interação entre pessoas inseridas em situações específicas de comunicação. Dessa forma, todas as características contextuais de ensino e aprendizagem, bem como da língua e da cultura-alvo, passam a ter caráter relevante para o processo de aprendizagem.
No âmbito de nossa discussão acerca das crenças de alunos sobre uma língua e uma cultura (alemã), consideramos pertinente a reflexão sobre algumas das distintas concepções dos termos, para que possamos, então, analisar a importância dos mesmos em uma dimensão intercultural de ensino e aprendizagem de LE.
Para definirmos ‘língua’, não há como não começarmos citando Saussure (1970), Foi a partir desse autor e de sua obra Curso de Lingüística Geral, que a lingüística passou a ser reconhecida como ciência, e a língua, como seu objeto de estudo.
Embora Saussure reconhecesse a linguagem em seu sentido amplo, e a língua como parte determinada dela, afirmava que a linguagem é multiforme e heteróclita, de diferentes domínios, não se deixando assim classificar em categorias (Saussure, 1970, p.17). Por essa razão, o autor limita seus estudos à língua como a parte da linguagem passível de classificação.
Ao fazer isso, Saussure separa da linguagem a língua e a fala (parole), sendo a primeira, social, adquirida e convencional, definida pelo autor como o conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos (op.cit., 1970, p.17). A segunda corresponde à parte individual,
psíquica, o lado executivo, pois sua execução jamais é em massa; dela o indivíduo é sempre senhor. A língua de Saussure pode ser estudada separadamente: é a parte de natureza homogênea da linguagem, pois se constitui num sistema de signos concretos.
Chomsky (1955, citado por Bourdieu, 1991, p.4) focaliza em sua teoria lingüística a capacidade geral de falantes competentes e, ao tomar esse foco, distingue-se da teoria saussureana. Todavia, ambas as teorias têm em comum o fato de considerarem a língua como objeto autônomo e homogêneo em sua constituição (op.cit., p. 41).
Saussure, em seu recorte, coloca o foco na língua, desvinculando-a do falante, e este foi retomado por Émile Benveniste. Para Benveniste (1976) a língua inexiste sem o sujeito, pois uma língua sem expressão da pessoa é inconcebível. O autor postula que o homem constrói sua subjetividade pela linguagem: por meio dela ele se constitui, pois ela fundamenta a realidade.
Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca inventando-a. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do outro. É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria definição de homem.(...)É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamenta na realidade, na sua realidade que é a do ser, o conceito do ego (op.cit., 1976, p. 286).
Apesar da retomada do sujeito por Benveniste, persiste ainda o caráter limítrofe das concepções clássicas de língua. Estudos do campo da lingüística, da sociologia e da psicologia já evidenciaram que a língua, vista como sistema fechado, não abarca a hetereogeneidade e amplitude, que marcam a subjetividade, os diferentes contextos, as falas.
Encontramos em Bourdieu (1991, p.4) fortes críticas às concepções de Saussure e às de Chomsky, quando afirma que a língua é produto de um complexo quadro de condições sociais, históricas e políticas de formação. Ele busca mostrar que a linguagem é um fenômeno sócio-histórico, que a troca lingüística é uma atividade mundana e prática, como muitas outras. O autor advoga que a língua não deveria ser vista apenas como meio de comunicação,
mas também como meio de exercício de poder, como forma que indivíduos possuem de perseguir seus próprios interesses e de expor suas competências práticas.
Em consonância com a argumentação de Bourdieu, Bakhtin (1999, p. 91) considera a linguagem ideológica e exerce também forte oposição à concepção saussureana de língua como sistema imutável de normas fixas. O autor enfatiza que dizer que a língua, como sistema de normas imutáveis e incontestáveis, possui uma existência objetiva é cometer um grave erro. A língua apenas se mostra como sistema de normas imutáveis na consciência individual e este é o modo de existência da língua para todo membro de uma comunidade lingüística específica.
Segundo Bakhtin, o que realmente ocorre é que o locutor serve-se da língua para suas necessidades enunciativas concretas; a construção da língua está orientada no sentido da enunciação da fala. Trata-se para ele de usar formas normativas em um contexto específico dado (op.cit., p.92).
No sentido bakhtiniano,
[...] não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. (...) somente reagimos àquelas palavras que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida. (op.cit., p.95) Rajagopalan (2003, p. 24) sugere que os lingüistas revejam conceitos e categorias com os quais costumam trabalhar, com o objetivo de torná-los mais adequados às mudanças atuais estonteantes, principalmente em nível social, geopolítico e cultural deste milênio, marcado por fenômenos e tendências como a globalização e a interação de culturas.
Assim, a concepção de “língua” passou por reformulações distintas no curso da história que foram elaboradas por estudiosos de épocas e áreas diferentes, em decorrência da influência de fenômenos sócio-culturais específicos sobre ela. Assim também ocorreu com o termo “cultura”.
Ambas as reformulações (dos conceitos de língua e de cultura) foram determinantes no campo da LA e por essa razão, faremos no próximo tópico, também uma breve revisão sobre algumas distintas concepções de cultura.