• No results found

The scope and terms of reference of the evaluation

A Teologia da Libertação fez o caminho da periferia para o centro. Algumas manifestações posteriores da Igreja tiveram a preocupação mais específica com os pobres,       

São Francisco de Assis – um dos mais venerados santos do catolicismo, faz de sua vida uma imitação de Jesus pobre, criando uma fraternidade onde viver na pobreza era um estilo de vida, mais do que uma regra. Fonte: Missal cotidiano, 6. ed. São Paulo: Paulus, 1985.

184 LIBÂNIO, João Batista. Teologia da Libertação roteiro didático para um estudo. São Paulo: Loyola,

por exemplo: Sínodo dos Bispos de 1971, intitulado a Justiça no Mundo. Apesar do documento não mencionar explicitamente a TdL, trata da injustiça econômica e a desigualdade social que impedem o homem de desfrutar de seus direitos; da desumanidade devido à falta de investimentos em educação e ataca tanto as nações capitalistas como socialistas, por serem usurpadoras das nações mais fracas e, com sua ganância pelo material, poluírem e contaminarem a Terra, um dom de Deus para toda a humanidade. Estimula ainda que os leigos participem mais da Igreja, em particular no que se refere à administração dos bens temporais. Em um profundo exame de autoconsciência coloca que, a Igreja, caso viva na riqueza em meio aos pobres, não dá um testemunho de fé.

a nossa fé impõe-nos uma certa parcimônia no uso das coisas materiais, e a Igreja está obrigada a viver e a administrar os próprios bens de tal maneira, que o Evangelho seja anunciado aos pobres. Se, pelo contrário, a Igreja aparece com um dos ricos e poderosos deste mundo, a sua credibilidade fica diminuída. O nosso exame de consciência estende-se ao estilo de vida de todos: dos Bispos, dos presbíteros, dos religiosos e religiosas e dos leigos. Impõe-se perguntar se, entre as populações pobres, o pertencer à Igreja não será um meio de acesso a uma ilha de bem-estar, num contexto de pobreza. Nas sociedades de mais alto nível de consumo, deve perguntar-se, também, se o próprio estilo de vida serve de exemplo daquela parcimônia no consumo que nós pregamos aos outros, como necessária para serem alimentados tantos milhares e milhares de famintos que existem pelo mundo 185.

Por ocasião da Conferência de Puebla 1978 – Evangelização no presente e no futuro da América Latina - o papa João Paulo II (1978-2005) em seu discurso inaugural, chama a atenção para os problemas socioeconômicos que afligem o mundo onde, através de mecanismos nacionais ou internacionais, os ricos se tornam mais ricos e os pobres se tornam mais pobres, reafirmando que a dignidade humana é um valor evangélico. No entanto também deixa claro que a libertação evangélica não deve ser limitada a uma questão apenas econômica ou de promoção humana 186. Puebla, em um avanço sobre este entendimento dentro da instituição, reconhece que, naturalmente há tensões dentro da própria Igreja para tratar da questão da justiça social, cuja maior preocupação é não cair em um puro ativismo social ou pior ainda, os ministros ordenados trabalharem na política partidária.

      

185 SÍNODO DOS BISPOS, 1971. A justiça no mundo. Disponível em:

www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_19711130_giustizia_po.html acessado em 13/02/2013, 10h35.

186 CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE. Documento de Puebla,

Discurso inaugural do papa João Paulo II. Disponível em:

La situación de injusticia que hemos descrito en la parte anterior nos hace reflexionar sobre el gran desafío que tiene nuestra pastoral para ayudar al hombre a pasar de situaciones menos humanas a más humanas. Las profundas diferencias sociales, la extrema pobreza y la violación de derechos humanos que se dan en muchas partes son retos a la Evangelización. Nuestra misión de llevar Dios a los hombres y los hombres a Dios, implica también construir entre ellos una sociedad más fraterna. Esta situación social no ha dejado de acarrear tensiones en el interior mismo de la Iglesia; tensiones producidas por grupos que, o bien enfatizan «lo espiritual» de su misión, resintiéndose por los trabajos de promoción social, o bien quieren convertir la misión de la Iglesia en um mero trabajo de promoción humana187.

O papa, assim como o próprio documento, irá criticar tanto o capitalismo liberal como o marxismo centralizador, formas de exploração econômica do homem e que não promovem a justiça social. No aspecto da evangelização, Puebla destaca a raiz histórica da evangelização na América Latina e, seguindo a linha da Conferência de Medellín, declara a opção preferencial pelos pobres, “el mensaje de salvación del Evangelio a todos los hombres, preferencialmente a los más pobres y olvidados”188.

Em um claro avanço de pensamento social a Conferência de Puebla trata de maneira explícita e positiva as CEBs, incentivando a sua atuação. As CEBs são mencionadas em várias partes do documento como um modelo de evangelização e modelo de uma possível transformação social.

Las Comunidades Eclesiales de Base que en 1968 eran apenas una experiência incipiente, han madurado y se han multiplicado, sobre todo en algunos países, de modo que ahora constituyen motivo de alegría y esperanza para la Iglesia. En comunión con El Obispo y como lo pedía Medellín, se han convertido en focos de Evangelización y em motores de liberación y desarrollo. La vitalidad de las Comunidades Eclesiales de Base empieza a dar sus frutos; es una de las fuentes de los ministerios confiados a los laicos: animadores de comunidades, catequistas, misioneros 189.

Se por um lado, a reação conservadora da Igreja foi grande, com a hierarquia desestimulando contrários e mantendo o povo sob o poder eclesial, por outro não podemos deixar de reconhecer as boas intenções de seus avisos, e a sempre recorrente preocupação informando que a principal razão da vida da Igreja é a evangelização de todos e o seguimento de Jesus Cristo, segundo a Sagrada Escritura. Por último exemplo temos a mensagem que João Paulo II envia ao Episcopado Brasileiro em 9 de abril de 1986. Por

      

187 CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE. Documento de Puebla, n. 90. 188 Ibidem, n. 12.  

esta época a Teologia da Libertação já havia sido contestada pela Congregação da Doutrina da Fé. Em sua carta, o Papa explicita claramente:

Deus os ajude a velar incessantemente para que aquela correta e necessária teologia da libertação se desenvolva no Brasil e na América Latina, de modo homogêneo e não heterogêneo com relação à teologia de todos os tempos, em plena fidelidade à doutrina da Igreja, atenta a um amor preferencial não excludente nem exclusivo para com os pobres. Neste ponto é indispensável ter presente a importante reflexão da Instrução Libertatis Conscientia sobre as duas dimensões constitutivas da libertação na sua concepção cristã: quer no nível da reflexão quer na sua práxis, a libertação é, antes de tudo, soteriológica (um aspecto da Salvação realizada por Jesus Cristo, Filho de Deus) e depois ético- social (ou ético-política). Reduzir uma dimensão à outra – suprimindo-as praticamente a ambas – ou antepor a segunda à primeira é subverter e desnaturar a verdadeira libertação cristã 190.

Gustavo Gutierrez deixou claro que seu pensamento libertador trata de teologia e não de política. Na linha das grandes encíclicas sociais dos papas, ele também marcou de forma clara a diferença entre Teologia da Libertação e ética social católica. A ética social se fundamenta no direito natural e pretende assegurar as bases de um estado social e justo apoiando-se nos princípios da personalidade, subsidiariedade e solidariedade. No caso da Teologia da Libertação trata-se de um programa prático e teórico que pretende compreender o mundo, a história e a sociedade e transformá-los, à luz da própria revelação sobrenatural de Deus como salvador e libertador do homem. Ela é disfuncional ao

pensamento oficial e ao modo como a Igreja se organiza hierarquicamente: de um lado o corpo clerical que detém o poder sagrado, a palavra e a direção, e do outro, o corpo laical, sem poder, obrigado a ouvir e a obedecer. Na esteira do Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação se baseia num conceito de Igreja comunhão, rede de comunidades do Povo de Deus e poder sagrado como serviço.