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“Não existe uma Coordenação Nacional das CEBs no Brasil: através de cada diocese, elas estão diretamente ligadas à CNBB. Ao coordenar a pastoral de conjunto no Brasil, a CNBB também coordena as CEBs” 275.

Embora numerosas e válidas, as primeiras experiências de “comunidade eclesiais de base” não conseguiram ainda indicar os caminhos para uma extensão maior e verdadeiramente ampla dessas experiências. Particularmente certos meios (urbanos, por exemplo) carecem de uma metodologia e de experiências mais adequadas. Continua, contudo, a convicção de que este caminho é essencial para o progresso da ação pastoral e de vivência cristã como o Episcopado nacional reafirmou na última Assembleia definindo essa área como de importância prioritária 276.

No anexo 4 é apresentado em um breve resumo dos 12 Encontros Intereclesiais de Base realizados até 2013. Abaixo analisaremos os cinco primeiros encontros que aconteceram no segundo período das CEBs, neste estudo definido por nós entre 1975- 1985277.

Há de se considerar que os encontros intereclesiais passaram a acontecer quando já havia um clima de abertura política e o fim da censura no país. Temos que reconhecer que assim como os encontros só acontecem em uma determinada diocese, porque o seu bispo apoiou e permitiu os encontros e também só aconteceram porque a ditadura não proibiu. É fato que o governo militar variava de um controle a uma sinalização positiva para a liberdade, tais como: o fim da censura prévia (1975), permitiu a volta dos exilados (1979), a anistia ainda que condicionada, e as ações de repressão: invasão da PUC-SP (1977), fechamento do Congresso (1977), adiamento das eleições diretas para governadores (só ocorreram em 1982); ou seja, tinha-se uma liberação, mas vigiada, e as campanhas de difamação, as perseguições, os atentados e mortes dentro das dependências militares continuavam. Interessante notar que nos temas dos quatro primeiros encontros, vemos a denominação Igreja, como se quisesse demonstrar uma unidade e um aval da instituição para essa nova forma de evangelizar, a designação CEBs aparece apenas no

      

275 BETTO, Frei. CEBs rumo à nova sociedade. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 11.

276 CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes gerais da ação pastoral da Igreja

no Brasil 1975-1978. Disponível em:

www.cnbb.org.br/documento_geral/A%20-%20DIRETRIZES%20GERAIS.pdf acessado em 28/08/2013, 12h00, n. 2.3.  

277 Os resumos de todos os 12 encontros intereclesiais são baseados em BETTO, Frei. CEBs rumo à nova

sociedade. São Paulo: Paulinas, 1983; TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto. Os encontros intereclesiais de CEBs no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1996; Texto base para a preparação do 13º. Encontro Intereclesial de Base, 2013.

quinto encontro, mas a partir daí não veremos mais a menção Igreja; as CEBs parecem já estar limitadas a um movimento, como tantos outros.

A CNBB, na década de 70, através de suas publicações manifestava a necessidade de uma conscientização política da sociedade brasileira. A Igreja se apresentava como defensora dos direitos humanos, da cidadania dos excluídos e pobres, do direito a terra e dos valores éticos fundamentais do homem. Exemplos de participação dessa tomada de consciência política são: Comunicação pastoral ao povo de Deus (1976) e Exigências

cristãs de uma ordem política (1977). Estimulada pela efervescência da Igreja pós-

conciliar e inconformada com a situação de pobreza do povo motivado pelas estruturas opressoras, não encontrando perspectivas animadoras, a Igreja no Brasil se posiciona.

mostrava o real comprometimento da conferência episcopal com a evangelização dos pobres. Nos tempos sombrios do fechamento político as CEBs foram o maior ponto de apoio dos pronunciamentos da hierarquia. E, por ocasião do começo da abertura política, foram as CEBs as grandes explicitadoras dos documentos da hierarquia, quando esta assume um posicionamento mais firme frente aos problemas globais do país 278.

Esses primeiros encontros mostram que a dinâmica era de uma participação efetiva da gente da base, a exemplo da comunidade estudada. O importante era a reflexão, compartilhar experiências, os métodos de evangelização empregados, as discussões dos problemas sociais e a busca de soluções alternativas. Não houve uma preocupação com teorias e com pedagogias impondo-se a prática e a realidade vivida pelo povo. O importante ensinamento para os mais letrados foi que o próprio povo se tornou sujeito, participante ativo das transformações sociais e políticas nesta nova experiência de evangelização.

É importante salientar que esta análise da realidade nas CEBs não se conflita com a vida religiosa, com a fé, já que os trabalhadores não fazem dualismos em sua vida concreta, não separam as instâncias e vivem os seus múltiplos engajamentos (pastoral, sindical, familiar etc.) respeitando suas particularidades com muita simplicidade 279.

      

278 TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto. Os encontros intereclesiais de CEBs no Brasil. São Paulo: Paulinas,

1996, p. 23.

279 WANDERLEY, Luis Eduardo W.. Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Educação Popular. Revista

Como vimos, o nascimento das comunidades de base se deu de modo espontâneo e pela necessidade específica de uma ação pastoral mais efetiva junto às populações pobres e que não dispunham de uma estrutura eclesiástica que atendesse suas demandas espirituais. Os exemplos de Natal (MEB) e Nízia Floresta, de Barra do Piraí, da Ação Católica e dos padres operários de Osasco, mostram, além disso, uma abnegação dos missionários que lei nenhuma poderia obrigar. A evangelização necessária, e que não era atendida pelos padrões normais de uma paróquia, foi o motor desse fenômeno pastoral brasileiro. A Igreja instituição teve a sensibilidade para perceber o valor e a mensagem do Evangelho sendo anunciado de maneira nova; a nova forma de ser Igreja incentivou a abertura de novas comunidades. No PPC de 1965: “Faz-se urgente suscitar e dinamizar, dentro do território paroquial, comunidades de base onde os cristãos não sejam pessoas anônimas, se sintam acolhidas e responsáveis e delas façam parte integrante, em comunhão de vida em Cristo e com todos os seus irmãos” 280; no Documento de Medellín de 1968:

a comunidade eclesial de base deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela portanto, célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial da promoção humana e desenvolvimento 281.

e muito claramente nas diretrizes da CNBB 1975-1978: “um dos desafios da ação pastoral no Brasil é, certamente, a multiplicação das “comunidades de base”, que possam responder ao anseio do povo para uma vida plenamente eclesial, alimentada pela palavra de Deus e os sacramentos, principalmente a Eucaristia” 282e propõe como atividades na estrutura da Igreja: “Suscitar e apoiar processos pastorais que visem a criação de comunidades eclesiais de base, seja a partir das paróquias, e através de grupos na zona urbana, seja a partir das capelas nas zonas rurais”283. O sínodo dos bispos de 1974 também se ocupou de refletir sobre as CEBs e o papa Paulo VI na encíclica Evangelii Nuntiandi de 1975, dedica um extenso parágrafo sobre as comunidades eclesiais de base. A encíclica reconhece o valor pastoral das pequenas

      

280 CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Plano Pastoral de Conjunto, 1966-1970

edição 2004. Disponível em:

www.cnbb.com.br/site/publicacoes/documentos-para-downloads/doc_download/140-77-plano-de-pastoral- de-conjunto-1966-1970 acessado em 03/06/2013, 10h00, pp. 38-39.

281 CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA AMÉRICA LATINA E CARIBE. A Igreja na atual transformação da

América Latina à luz do Concílio, 15.III.10.

282 CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja

no Brasil 1975-1978. Disponível em:

www.cnbb.org.br/documento_geral/A%20-%20DIRETRIZES%20GERAIS.pdf acessado em 28/08/2013, 12h00, Cap. 3, 2.2.

comunidades, desde que estejam em comunhão com a igreja particular, e foquem sua ação na prática da palavra de Deus. Faz também uma série de advertências, tais como: o perigo de se acharem o único modo de evangelizar, “e não se deixarem enredar pela polarização política e por ideologias que estejam de moda” 284, a encíclica adverte para o perigo de um espírito hipercrítico e contestação sistemática por parte das comunidades eclesiais de base. O documento de Puebla procura uma definição final das CEBs, diz em seu número 641:

A CEB, como comunidade integra famílias, adultos e jovens em estreito relacionamento interpessoal na fé. Como eclesial, é comunidade de fé, esperança e caridade, celebra a palavra de Deus e se nutre da Eucaristia, ponto culminante dos demais sacramentos; realiza a palavra de Deus na vida, mediante a solidariedade e o compromisso com o mandamento novo no Senhor; torna presente e atuante a missão eclesial e a comunhão visível com os legítimos pastores, através do serviço de coordenadores aprovados. É de base por estar constituída por um pequeno número de membros como forma permanente e como célula da grande comunidade 285.

Essa movimentação dentro da Igreja instituição, vista como em prol das CEBs, além das causas conjunturais externas levaram à promoção dos Encontros Intereclesiais das CEBs. O povo das CEBs falou e foi ouvido. Pela primeira vez na história do Brasil, os humildes tiveram vez e voz. As CEBs e os encontros intereclesiais contribuíram e muito para que o povo simples fosse ouvido e entendido pelos mandatários e com estes puderam refletir sobre as decisões para o bem comum, em uma experiência vivida e democrática. Todos se sentiam participantes dos problemas e das soluções. De alguma forma as CEBs se tornaram a Igreja dos pobres e a Igreja que caminha com os pobres.