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3 The committee’s assessment

3.1 Introduction

“Qualquer plano de desenvolvimento que não se baseia na organização de comunidades – com uma efetiva participação de seus membros – e na preparação de seus líderes será extremamente difícil de concretizar-se” 206. O Movimento de Natal (RN) foi o primeiro e o mais consistente programa de alfabetização popular, lembrando que naquela época, a taxa de analfabetismo no Nordeste era superior a 60% da população. Esta experiência foi levada a efeito por D. Eugênio Sales, bispo auxiliar de Natal 207 que, através das escolas radiofônicas, levava para as classes mais desassistidas não apenas a alfabetização, mas aspectos sociais, comunitários, religiosos e de conscientização política. O Movimento de Natal também nasceu de uma necessidade, esta material, da visão da realidade de miséria em que vivia grande parte da população nordestina e a preocupação de alguns padres em fazer algo para mudar aquele estado de coisas.

Nas reuniões do clero, que se iniciam de maneira informal em 1948, discutem- se as possibilidades de ação efetiva por parte da Igreja ante o alarmante índice de analfabetismo, como também das péssimas condições de moradia,       

205 AZEVEDO, Marcello. Comunidades Eclesiais de Base e Inculturação da Fé. São Paulo: Loyola, 1986,

p.44.

206 SALES, Eugênio. A Igreja na América Latina e a promoção humana. Revista Eclesiástica Brasileira.

Petrópolis: Vozes, v. 28, fasc. 3, 1968, p. 545.

207  Dom  Eugênio  Araujo  Sales,  foi  nomeado  bispo  auxiliar  de  Natal,  aos  33  anos,  em  1954;  em  1962  foi 

alimentação e saúde da população. Nessas reuniões, seis antigos colegas de seminário, entre os quais o pe. Eugênio Sales encontravam-se para trocar ideias a respeito de trabalhos empreendidos, das dificuldades encontradas, e o que poderia ser feito em comum. Aos poucos, o número de padres aumentava, o que denotava um maior interesse de participação nos projetos idealizados208.

Outros setores da Igreja se juntam ao Movimento como a AC, e fundou-se um órgão de ajuda rural denominado Serviço de Assistência Rural (SAR). Basicamente equipes percorriam as paróquias distantes do meio rural para orientação e qualquer tipo de ajuda. Um grande número de leigos e padres aliaram-se nesse esforço comum. No entanto o trabalho carecia de uma maior estrutura e de um pensamento estratégico organizado e produtivo. Em 1958, após uma grande seca, onde o Arcebispo de Natal denuncia ao governo as explorações e abusos do DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra as Secas) é que se organizou o Movimento de Natal que teve três objetivos: a educação de base, a transformação das estruturas políticas, sociais e econômicas, e a educação religiosa das populações mais carentes 209. O principal meio de divulgação empregado foi o radio, “para alfabetizar, catequizar e promover as pessoas isoladas das cidades, aos domingos, a comunidade – sem padre – se reunia em torno do rádio para participar do culto que o bispo presidia” 210. Nos programas radiofônicos do Movimento se passava não apenas as matérias para a alfabetização, mas também noções de problemas sociais, comunitários, religiosos e de conscientização política. “Também aqui encontramos a semente de algo essencial às CEBs: a vinculação de religião e vida, a concepção integral de evangelização, que passa pela totalidade do homem” 211.

Foi tal o sucesso dessa experiência radiofônica que, após três anos de atividade, foi estendida pela CNBB, em convenio com o Governo Federal, assinado em 1961, atribuiu aos bispos da região do Nordeste, Norte e Centro-Oeste do país, a missão de organizar e supervisionar o MEB, que deveria, além de transmitir educação de base, velar pelo desenvolvimento econômico e espiritual do povo de cada região, preparando as mentalidades para as indispensáveis reformas de base que necessariamente virão. Por volta de 1963 havia cerca de 1410 escolas radiofônicas somente em Natal, com um raio de ação que atingia por volta de 50 municípios, envolvendo 24.000 alunos 212.

      

208 TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto. A gênese das ceb’s no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 61. 209 Ibidem, pp. 61-62.

210 PUCCI, Bruno. A nova práxis educacional da igreja (1968-1979). São Paulo: Paulinas, 1984, p. 127. 211 AZEVEDO, Marcello. Comunidades Eclesiais de Base e Inculturação da Fé. São Paulo: Loyola, 1986,

p. 45.

O Movimento de Natal e a sua educação de base foram pioneiros de várias formas no Brasil: a Igreja se antecipou a qualquer outro programa governamental de educação e de alfabetização; incorporou técnicas de educação e conscientização de cidadania, em uma época em que esse vocábulo não fazia parte do cotidiano e, principalmente, se preocupou com uma educação integral do ser humano.

Ele parte para o papel ativo do educando em sua própria educação e faz da educação um processo de conscientização sobre a realidade concreta em que se vive e a urgência de sua transformação. Neste sentido, o MEB dos primórdios se antecipa em quase duas décadas à concretização e tematização sistemática da educação popular no Brasil. Sintoniza com uma série de projetos no sentido de uma educação libertadora, entre os quais cumpre destacar a obra de Paulo Freire. Toda essa ordem de ideias, como os programas, métodos e ação, que as concretizam, terão mais tarde e de modo reflexo, grande influência sobre a prática pedagógica pastoral das CEBs 213.

Outra área incentivada pela Igreja na Arquidiocese de Natal foi a sindicalização rural. Isso também aconteceu em momentos pré Vaticano II. A partir de 1958, com base em trabalhos anteriores, incentiva-se a instalação de sindicatos agrícolas, em uma área dominada secularmente pelas elites políticas e agrárias. Em 1961 se realiza o I Congresso dos Trabalhadores Rurais do Rio Grande do Norte, tomando vulto aquela iniciativa.

A aceitação e o estímulo ao Sindicato Agrícola constitui a nova prática desta posição da Diocese. Significativa mostrou-se também a ação sindical, tornando mais concretos os apelos ideológicos e inserindo, de modo preciso, as normas desejáveis de relacionamento no trabalho, no contexto das controvérsias e conflitos efetivos existentes na região 214.

Chegou-se a ter mais de 50.000 camponeses sindicalizados. Os conflitos com a classe dominante e opressora eram previsíveis e foram constantes. A Igreja será tachada de subversiva pelos fazendeiros e coronéis proprietários de terras cujas famílias dominavam e continuariam dominando a política local. Com a instabilidade política do Brasil nos anos de 1962 e 1963 e a ameaça do comunismo durante o governo Goulart, a elite não esperou para atacar a Igreja e os trabalhadores, mesmo que os sindicatos do Movimento de Natal combatessem as ligas camponesas de Francisco Julião, estas claramente de caráter ideológico de esquerda. “Os sindicatos agrícolas do Movimento tinham a função de educar,

      

213 AZEVEDO, Marcello. Comunidades Eclesiais de Base e Inculturação da Fé. São Paulo: Loyola, 1986,

p. 45.

mobilizar e organizar os camponeses” 215. O Movimento de Natal, por meio do incentivo de um bispo e de sua diocese, mais tarde cardeal e considerado conservador, modificou a relação da Igreja com o mundo do trabalho das classes operárias urbanas e rurais em uma das regiões mais pobres do país que, no decorrer da história, sempre foram marginalizadas pelas elites dominantes.

O Movimento de Natal contribuiu para a superação de uma visão fatalista da história, onde as desigualdades sociais e econômicas eram atribuídas à vontade divina. Passou-se a dar ênfase aos aspectos sociais e econômicos, agora considerados como os verdadeiros causadores da situação de subdesenvolvimento. O Movimento de Natal rejeitará, como sendo sub-humana, qualquer situação de miséria. A atuação da Igreja no campo social, sua intervenção contra as situações de exploração do homem será compreendida como sendo legítima 216.

Há de se reconhecer o enorme avanço que a hierarquia eclesiástica empreendeu na Arquidiocese de Natal em relação ao comportamento pastoral do clero. Se antes o clero era subordinado ao poder econômico, agora agiam como formadores de uma consciência social e política de uma população carente. Os conflitos com a elite agrária da região, o coronelismo sempre presente e atuante, foram inevitáveis. A visão pastoral do Movimento de Natal não se pautou pela política partidária e muito menos por uma ideologia econômica. O que o Movimento fez foi estimular a mobilização popular pela alfabetização, pela importância do voto e dos sindicatos na defesa dos direitos e reivindicações dos trabalhadores. O Movimento não avançou na direção de propor mudanças nas estruturas sociais opressoras. Admitindo-se toda a positiva e benéfica influência nas lideranças leigas, com o apoio da AC, ainda assim, o Movimento teve clara direção do clero. Os leigos puderam caminhar, até onde a hierarquia achava prudente. “A perspectiva centrista, a disciplina em matéria social e política, o papel limitado reservado ao leigo foram alguns dos dados que o Movimento de Natal não conseguiu superar” 217.

Ainda dentro do Movimento de Natal houve a experiência pastoral de Nizia Floresta, onde mais uma vez por falta de sacerdotes, o arcebispo D. Eugênio Sales incentivou e estabeleceu que freiras assumissem a condução de uma paróquia. Nízia Floresta era uma localidade nas proximidades de Natal, onde não havia luz elétrica, nem água encanada ou assistência médica. Com mais de 70% da população analfabeta as

      

215 TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto. A gênese das ceb’s no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 64. 216 Ibidem, p 65.

famílias eram mal constituídas tanto diante da lei civil como na formação religiosa. As freiras após passarem por uma formação litúrgica assumiram a paróquia, exceto as tarefas sacerdotais, incluindo a Celebração da Palavra durante a semana. Isto em uma época em que se rezava a missa em latim, de costas para o povo e os leigos não podiam se aproximar do altar. Um padre ia aos domingos para rezar a missa e ministrar outros sacramentos 218. O movimento de Nízia Floresta, ainda que indiretamente, contribuiu para abrir espaços, quebrar barreiras e favorecer novas iniciativas de participação não apenas dos sacerdotes na Igreja. Duas grandes motivações conjunturais podemos notar nas ações evangelizadoras até agora descritas: a primeira é interna à Igreja devido à falta de sacerdotes, o crescimento das igrejas pentecostais e à necessidade de levar a fé católica para uma população pobre, afastada dos grandes centros, marginalizada. Esta realidade leva parte da Igreja a repensar suas ações pastorais e sua prática religiosa, abrindo mão do tradicionalismo, do poder da classe abastada e criando novos métodos revolucionários. A segunda motivação é social, a leitura de uma realidade injusta e os desafios para transformá-la. Em ambos os casos, surgiram a busca de novos caminhos, de nova forma de se viver a Igreja e uma mudança na participação do leigo na vida eclesial dessas comunidades 219.

Atuação do leigo e evangelização integral são dois componentes transformadores e de imenso alcance. Elas são, nesta versão de Barra do Piraí e de Natal, um elemento novo no paradigma de atuação da Igreja, vigente então e cujos moldes se podem recuar muito, retrospectivamente, na Igreja do Brasil 220.

Outro movimento que podemos citar como anterior às CEBs e que foi importante para a mudança da atuação do clero, foi o Movimento para um Mundo Melhor (MMM). Este Movimento veio de fora, diretamente da Cúria Romana, e seu grande incentivador foi o papa Pio XII. Este Movimento também plantou sementes que iriam frutificar nas posteriores atuações do clero, inovadoras e pioneiras, na década de 60. O Movimento consistia principalmente em um estímulo à renovação da vida cristã, superar a ação individualista do clero e adaptar a vida cristã ao tempo presente. Baseado na mensagem cristã do amor e da fraternidade, o método principal do MMM era dar cursos para bispos, padres, seminaristas, religiosas e leigos. Com o apoio da CNBB, centenas de cursos foram

      

218 TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto. A gênese das ceb’s no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1988, pp. 67-71. 219 PUCCI, Bruno. A nova práxis educacional da igreja (1968-1979). São Paulo: Paulinas, 1984, pp. 127-

128.

220 AZEVEDO, Marcello. Comunidades Eclesiais de Base e Inculturação da Fé. São Paulo: Loyola, 1986,

ministrados em todo o país. Os cursos trouxeram uma espiritualidade aberta, um entusiasmo apostólico, e um sentido histórico social para a pastoral. Propôs a reflexão para a renovação das arcaicas estruturas paroquiais e diocesanas, baseadas no planejamento das atividades, na valorização das religiosas e do laicato e do entrosamento fraterno entre todos os membros da Igreja 221.

O movimento preparou a consciência dos cristãos e do clero para uma visão de Igreja posteriormente sancionada pelo Vaticano II, incentivou os sacerdotes a trabalhar em equipe, estimulou as propostas de renovação paroquial pautadas por planejamento científico, fortaleceu o entrosamento entre congregações como também apoiou o trabalho de conjunto feito por dioceses 222.

A Igreja do Brasil esteve muito perto de transformar a realidade brasileira através da evangelização para os pobres. Com base nas experiências de Natal e Barra do Piraí, além de outras não tão documentadas, em todas as atividades da Ação Católica, da atualização do clero no Movimento para um Mundo Melhor, a possibilidade de uma mudança da realidade social poderia desabrochar. Importante notar que agora, em muitos casos, já não eram apenas párocos distantes dos grandes centros que se preocupavam com a vida do povo pobre mas, e principalmente, bispos em plena atividade nas suas dioceses. Ainda assim, e mesmo reconhecendo que sua atividade era limitada, a participação dos leigos foi fundamental. Estava aberto um caminho que iria repercutir até mesmo na hierarquia mais recalcitrante. A Igreja no Brasil iria ser exemplo para a América Latina católica em termos pastorais. Os limites desta experiência, necessária e decisiva para uma evangelização e uma participação na vida econômica e política da população, baseada na Doutrina Social da Igreja, apenas a própria Igreja poderia determinar. Ela alcançou tão alto grau de importância no cenário brasileiro, que caberia a ela se autolimitar. Como veremos esse limite chegou com o receio de perder o controle e o poder sobre os fiéis leigos, além das condicionantes históricas, internas e externas, que a combateram. Tudo isso fez com que grande parte desse trabalho retrocedesse.

2. CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DAS CEBs (1965-1985)