Em nosso jardim havia um pavilhão abandonado e carcomido. Gostava dele por causa de suas janelas coloridas. Quando em seu interior passava a mão de um vidro a outro, ia me transformando. Tingia-me de acordo com a paisagem na janela, que se apresentava ora chamejante, ora empoeirada, ora esmaecida, ora suntuosa276. Este fragmento do texto de Walter Benjamin, intitulado As cores, nos leva de encontro ao olhar da artista plástica Mazé Mendes, que sutilmente encontra em pequenos cantos e espaços abandonados ou invisíveis ao olhar apressado e desavisado, um aglutinado de cor, uma variedade de texturas e um lugar a ser lembrado.
Os rastros da existência humana, os cantos da cidade, o tempo já extinto, são sua fonte de pesquisa em praticamente todas as suas obras, mas é na série
Vestígios, seu mais recente trabalho, que a proporção dessa ideia é ampliada. Mazé
resgata lugares, muros e paredes esquecidos, desbotados e sujos. Pinta o que fotografa, mas também pinta no que fotografa – e é assim que se configura suas “Imagens-fotos”, como denominou Odahara: “são imagens que mostram as escritas do tempo, da natureza e dos homens sobre as construções humanas de ontem”277.
Uma nova forma de ler o mundo.
O muro desgastado próximo à sua casa, com um colorido obtido pela ação do tempo e pelos vestígios do homem, é agora matéria. Mazé mostra essa parcela de mundo ignorada, faz visível o invisível, o que antes era apenas a parte feia da cidade, ou qualquer canto, agora é textura, cor, ou como a própria artista define: pintura. A inquietação se dá pela digital fixada nesse espaço, que antes era lugar intocado e, agora, a marca do toque reafirma uma presença intensa. O título
Passagem (ver figura VI - 1) reforça a ideia de um olhar próximo, de dentro da
cidade, do caminhante que se defronta com esse espaço e registra na memória. Mas há ainda muitos lugares a serem descobertos na obra dessa artista, desde o início da sua produção artística. Pois, Mazé parece ser, tal como descreve Benjamin, uma dessas pessoas que não perderam a capacidade de olhar, e gentilmente ela nos oferece a contemplação desses espaços da cidade e nos
276 BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas II: Rua de Mão Única. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 101. 277 ODAHARA. Apud. MENDES, Mazé. Vestígio: Mazé Mendes. Curitiba: Ed. Comunicare, 2007, p.
possibilita recuperar uma paisagem existente, mesmo invisível, de uma cidade com o que verdadeiramente ela contém.
Mazé Mendes nasceu em 06 de maio de 1950 em Laranjeiras do sul, uma pequena cidade do interior do Paraná, mas passou sua infância em Palmas, no sudoeste do Paraná e desse período Mazé lembra como era sua infância:
Rodeada de fazendas e sítios, colhia pinhão, fazia coleções de sementes achadas no mato e pedras encontradas nos rios, gostava da forma dos cipós retorcidos suspensos nas árvores. Os objetos colecionados e guardados na minha caixa de segredos incluíam miniaturas do artesanato indígena, de índios descendentes de Caingangues. Quando criança costumava visitar inúmeras vezes a reserva indígena, com meu pai, e me encantava com as cores, a simetria e precisão desses objetos, meus primeiros referenciais de formas de arte278.
Esse olhar da menina do interior, também semelhante ao descrito por Benjamin, Mazé carregou para Curitiba, cidade que vive e trabalha desde 1969 quando tinha 19 anos. Nos anos 1970, fazendo a faculdade de Belas Artes, inicia sua carreira artística. Em 1977 já faz sua primeira exposição individual chamada
Pintura & Desenhos, na pequena galeria do Inter (Centro Cultural Brasil – Estados Unidos). Como uma artista ávida por aprender, Mazé vai construindo uma trajetória
278 MENDES, Mazé. Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. Curitiba: Ed. Clichepar,
1997, p. 4.
Figura VI - 1
Passagem (2007) – Mazé Mendes. Arte digital/Fotografia, Curitiba - PR.
pontuada por várias exposições individuais e coletivas e pela ampliação do seu reconhecimento como artista no Paraná. Participa, nessa década também, dos cursos de gravura no Centro de criatividade de Curitiba e de ateliês coletivos. Depois, seguiu para o Solar do Barão - onde atualmente tem o museu da gravura - e constituiu um grupo de gravura que participou de várias exposições, incluindo uma grande coletiva em Portugal, Madri, Costa Rica, Peru entre outros países.
O ano de 1964 é marcado pela morte de sua mãe, mesmo ano do golpe militar, suas primeiras obras da década de 1970 trazem esse caráter crítico. Por fazer parte do diretório da faculdade, a artista era também engajada politicamente como os estudantes da época em Curitiba. Desse momento resultaram desenhos que traziam sujeitos “com olhares desconfiados, bocas amordaçadas, ou outros que diziam sutilmente: O Brasil vai bem – nós nem tanto279!” (ver figura VI - 2).
No nosso país, no final dos anos 60 e início dos 70 correspondeu a um período de forte repressão política. A atividade intelectual passou a ser uma ameaça ao sistema montado pela ditadura militar. A censura e a tortura tornaram-se constantes. Como muitos outros jovens, Mazé de alguma maneira viu-se envolvida (um irmão ficou muito tempo desaparecido e depois exilado). A reação natural da
279 Ibid., p. 78.
Figura VI - 2
Série "O Brasil vai bem - nós, nem tanto" (1974) – Mazé Mendes. Guache sobre papel 60x45cm
Acervo: Particular.
Fonte: Catálogo: Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. Curitiba: Clichepar, 1997.
artista foi expressar sua perplexidade, seu posicionamento, através das imagens que criava280.
A segunda individual, em 1982, na galeria Eucatexpo, marca sua trajetória artística, pois, em vez de gravura, apresenta pinturas, linguagem que escolhe para dar procedimento ao seu trabalho.
O exercício da gravura trouxe-me a disciplina do fazer, do organizar. A escultura esteve sempre muito próxima, desenhei objetos, fiz maquetes, mas não cheguei a concluí-las até o momento. Minha identificação com a pintura sempre foi mais forte”281.
A cidade de Curitiba, ainda em desenvolvimento nessa época, segundo a artista, possuía uma população menor, com menos carros, menos violência, mas, por outro lado, tinha “bastante repressão no que diz respeito à liberdade de expressão. Mas era uma Curitiba de muitos personagens das ruas e que também me inspiraram para os primeiros trabalhos”282.
Em poema descreveu essa fase de seu trabalho:
Às vezes é impossível escapar à natureza, recontamos vivencias do cotidiano que povoam nosso
universo.
O fino bico do João de Barro que construiu sua casa, no meu quintal, ou o sabiá de peito alaranjado que
espanta o Espantalho que virou Retalho. Ou as Cabines das mulheres loucas, onde se escondiam os
três Reis Mágicos, e seus robôs que viam TV. As tendas que viraram Lendas, Estandartes que viraram
Arte.
Os peixes que voaram com os balões... no alto do Pilarzinho283.
Idosos nas praças, figuras exóticas e personagens típicos conhecidos na cidade, foram fonte de observação para a artista na década de 80, que tudo registrava nas suas andanças pela cidade com sua câmera fotográfica. Essas fotos, que a princípio não tinham a pretensão de servirem às futuras produções, transformaram-se em inspiração para suas primeiras obras e também indiretamente para as suas produções mais atuais.
280 TELLES. Apud. Ibid., p. 5. 281 Ibid., p. 79.
282 Mazé Mendes em entrevista à autora em 22 de setembro de 2011. 283 MENDES, Mazé. Op. cit., p. 43.
Figura VI - 3
João de Barro (1983)- Mazé Mendes. Óleo s/ tela, 120x120cm Fonte: Catálogo: Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. Curitiba: Clichepar, 1997.
“A figura era objeto da minha pintura, eu fiz alusões aos personagens que perambulavam pelas ruas da cidade, como a Polaca de Curitiba e Gilda, que era um travesti conhecido de nossas ruas”284. Esses trabalhos a que Mazé se refere,
emanados da referência do cotidiano curitibano, trazem a atmosfera da própria cidade em suas cores e tons, através do exercício da percepção da luz, da mancha e do movimento. A ambientação desses personagens é misteriosa e intensa, quase expressionista. Em a Estreia de Gilda (ver figura VI - 4), os tons claros e esfumaçados como cinzas e azuis, nos fazem mergulhar em uma neblina fria e solitária da cidade.
Seu trabalho, segundo Telles, está ligado ao mundo circundante, “suas imagens são criadas a partir de elementos próximos. As referências do dia a dia são usadas como pretexto para as imagens”285. De fato o seu entorno estava fixado na
própria retina da artista. Nesta fase, além dos seus personagens, Mazé apresenta em alguns trabalhos corpos apenas esboçados, difusos numa névoa (ver figura VI - 5); em outros, rostos indefinidos, sem expressão, o que dá a imagem um caráter silencioso. Nelson Brissac diz que o “pintor não deve se deixar levar pelo que o rosto lhe apresenta visível”286, o ideal seria pintar a alma. E, é assim que Mazé, com sua
pintura, parece revelar o que se oculta nessas imagens, pois, sua obra contém a
284 Mazé Mendes em entrevista à autora em 22 de setembro de 2011. 285 TELLES. Apud. MENDES, Mazé. Op. cit., p. 6.
286 BRISSAC PEIXOTO, Nelson. Paisagens urbanas. São Paulo: Senac São Paulo, 2003, p. 60.
Figura VI - 4
A Estreia de Gilda (1981) - Mazé Mendes. Aquarela e guache, 50x70cm
Fonte: Catálogo: Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. Curitiba: Clichepar, 1997.
figura, mas contém também uma atmosfera que envolve essas figuras que circulam, dançam por espaços irreais, pois o fundo da obra é plano e de certa forma remete a um céu, ou a uma densa cerração.
O fato é que Mazé parece engendrar o paralelo proposto por Benjamin entre a fisionomia e a cidade, que tem por base, fazer ver a cidade como um corpo humano onde a percepção entre eles se confundem. A atmosfera que emana, por exemplo, do rosto da obra Alucinações de Carnaval (ver figura VI - 6) nos conduzem a um espaço-tempo indefinido, porém com características específicas: desprovido de contornos, o rosto se confunde com o entorno, não há perspectiva. O rosto aqui
Figura VI - 5
Figura VI - 6
Movimento I (1982) - Mazé Mendes. Óleo sobre tela, 50x70cm
Fonte: Catálogo: Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. Curitiba: Clichepar, 1997.
Alucinações de Carnaval (1982) - Mazé Mendes. Óleo sobre tela, 60x60cm
Fonte: Catálogo: Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. Curitiba: Clichepar, 1997.
apresentado remete a um lugar isolado, onde o sol fraco não dá conta de afastar o frio. Para Nelson Brissac:
O buraco negro ou o muro branco, onde se amalgamam rosto e paisagem. Não há fisionomia que não acolha uma paisagem desconhecida, não há paisagem que se não desenvolva um rosto. Qual rosto jamais evocou o mar e a montanha, qual paisagem jamais remeteu ao rosto que completaria suas linhas e traços? Não haveria um momento em que se evidenciasse a semelhança mimética que se instaura entre o individuo e a cidade que ele habita?287
Nesta obra de Mazé, esse momento acontece instaurando-se nas vestes que imitam o vento, nas tonalidades opacas e suaves que ampliam a sensação de vazio e frio e como diria Walter Benjamin, o silêncio que repousa no rosto é a própria quietude da paisagem288.
Seguindo por esse caminho percorrido pela artista, uma questão muito valorizada por ela, é a da aprendizagem e do domínio da técnica. Mazé insiste em dizer que está sempre precisando aprender mais. Desde o valor que dá ao aprendizado da gravura para a percepção do traço mais caligráfico, até o sentido de disciplina e organização que este a proporcionou, a artista acredita também na importância do domínio das técnicas de pintura, para a concretização do trabalho, bem como para poder criar. Mazé vai, assim, de encontro com os ideais de Bois (2009) de não traçar fronteira entre técnica e criatividade. A artista acredita que o fator da criação é o conhecimento da técnica.
Para uma pessoa fazer um bom concerto ele tem que saber de tudo para tocar o instrumento, ele pode criar muito, mas ele tem que dominar a técnica; para fazer um filme é necessário o conhecimento da fotografia, da imagem e tal. Nas artes visuais é a mesma coisa, tem que dominar pelo menos uma técnica, para poder criar289.
Mazé Mendes também é professora, e suas aulas de análise e técnicas de materiais, mais que aprendizagem para os alunos, eram também fonte de descoberta e aprimoramento pessoal. Segundo Claudio Telles, cada fase, ou cada obra de Mazé, têm um ideal técnico de estudo: “a série posterior as Figuras, são reflexões sobre volume, a par de conter alguma possível história. Os Pássaros e
Espantalhos são elos de uma constante discussão da forma. O fazer artístico foi
287 Ibid., p. 73.
288 BENJAMIN. Apud. Ibid.
levado a dar maior atenção a questões especificas da cor e espaço”290. E ainda hoje,
a preocupação técnica se mantém firme entre os ideais da artista, que entrando em um campo novo, como as novas tecnologias, especificamente a fotografia, diz querer aprender mais: “eu tenho muito que aprender em relação à técnica. Meu olhar já está mais apurado, eu já sei o recorte que quero, mas ainda sinto que falta mais a técnica e por isso digo que tenho que aprender muito”291.
Desses trabalhos figurativos, percebemos mais um estudo da cor e da mancha. Porém, na transição de seu trabalho para uma pintura mais abstrata na década de 90, a preocupação com a forma torna-se o enfoque. Contudo, mesmo com a mudança formal pictórica no trabalho de Mazé, a questão da cidade caminha por essas fases. Começando com esses personagens que constituíam a própria imagem urbana e, que aos poucos vão sumindo e dando lugar ao espaço estrutural de convívio, ou seja, a artista sai dessa suposta figuração e lentamente entra na abstração: “Sempre de alguma forma existiu essa relação da cidade no meu trabalho, e nessa passagem do personagem à geometria da cidade, foi como que abstraindo meu trabalho, passando gradativamente para uma abstração”292.
Mazé começa então a fazer o registro da cidade sem os personagens, que segundo a artista foram sumindo, já não se vê mais esses sujeitos nas ruas. Passou então a trabalhar com essa geometria, sua verticalidade, suas arestas e suas frestas. Desse momento nasce uma série chamada Impressões Urbanas, que no nome agrega dois sentidos específicos: primeiro a ideia de imprimir, no sentido de marca, influência que vem da gravura; e, em segundo a impressão do olhar, no sentido da impressão que a cidade lhe causava. Do primeiro ideal da palavra impressão, os grafismos revelam o amor pela gravura - técnica que deixou mais pelo fator da saúde, devido aos químicos muito fortes - além de reafirmar a linha e a escrita que fazem parte corporal da pintura.
Nos limites da imagem, ela encontrou a escritura como ideogramas pessoais, e estas escrituras alfabéticas tendem a se tornar também imagens; as palavras, agindo como atrizes ou índices, levam sua obra para o caminho dos quadros-poemas, sem nunca chegar neles293.
290 TELLES. Apud. MENDES, Mazé. Op. cit., p. 7.
291 Mazé Mendes em entrevista à autora em 22 de setembro de 2011. 292 Mazé Mendes em entrevista à autora em 22 de setembro de 2011. 293 BINI. Apud. MENDES, Mazé. Matiz. Curitiba: Globograf, 2004, p. 07.
Na exposição Matiz (2004), na qual, essa série também estava presente, a escrita é ainda mais explorada pela artista, que gosta de desenhar com o pincel. É possível perceber que Mazé Mendes não hierarquiza o desenho a serviço da pintura, como é consagrada pela tradição e pelo mercado, segundo afirma Bois. Tanto que o desenho parece por último na construção da sua obra. Ao retomar Bois, lembremos, também, do seu ensaio: Matisse e o arquidesenho, também apresentado no livro Pintura como Modelo. Nesse ensaio Bois apresenta o sistema Matisse, configurado no conceito de arquiescritura proposto por Jacques Derrida, que se baseia numa estrutura projetada onde “não apenas é impossível separar o desenho da cor, como o desenho representa uma espécie de pintura executada com recursos limitados”294. Os recursos limitados se dão devido à equação quantidade –
qualidade, que a grosso-modo, se refere à extensão da área da superfície pigmentada; não há sombras ou meios-tons, mas a quantidade da cor é que será a sua qualidade. Há uma frase de Matisse que expressa essa equação de forma muito simples: “um centímetro quadrado de qualquer azul não é tão azul como um metro quadrado do mesmo azul”295.
Porém, não busco uma relação de Mazé, ao que Bois chama de sistema Matisse, pois a artista mantém a tonalidade em seus trabalhos, o que importa aqui, é essa concepção de pensar o desenho e a pintura como indissociáveis, talvez não com a mesma preocupação que Matisse teve, mas justamente sem a preocupação, pois como Mazé não divide ou hierarquiza, não há porque se preocupar se está a fazer desenho ou pintura. É como ela mesma disse: “hoje eu misturo tudo, a escrita, alguns fragmentos poéticos, alguns desenhos que insiro tudo na obra, tudo faz parte corporal da pintura, eu não faço distinção”296. Suas obras, Ultramarino e Corpo (ver
figuras VI - 7 e VI - 8), são exemplos disso, pois evidenciam a convivência harmoniosa entre traço e cor. Seu jogo de pintura e escritura veio tecido da sua memoria, construído pelo seu pensamento. “Então ela pinta e escreve na tela o que voluntariamente foi esquecido e que será a sua forma suprema de memória”297.
294 BOIS, Yve-Alain. A Pintura como Modelo. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 75. 295 MATISSE, 1971. Apud. Ibid., p. 27.
296 Mazé Mendes em entrevista à autora em 22 de setembro de 2011. 297 BINI. Apud. MENDES, Mazé. Op. cit., p. 07.
Em Impressões Urbanas (ver figura VI - 9), a impressão que a cidade lhe causa é, a princípio, a de um aglomerado de fachadas, formadas por áreas de luz e cor. É uma construção vertical da cidade, que sem muitas definições, é possível perceber algumas janelas nesses planos retangulares que parecem edifícios. Há variação tonal, mas não de cor. Mazé sempre deu preferência a matizes frios do que quentes, mas, os tons, quase sempre pastéis, são interrompidos por alguns tons terrosos mais densos. Esses tons fortes são, portanto o ponto de atração do olhar do observador que vagarosamente segue pela tela a procura de algo. Porém, mesmo
Figura VI - 7
Figura VI - 8
Ultramarino (2008) - Mazé Mendes. Óleo s/ tela, 300x150cm
Fonte: Site oficial da artista. Disponível em: <http://www.mazemendes.com.br/>.
Corpo (2000) - Mazé Mendes. Acrílico s/ tela, 280x180cm
com a ideia de muita construção, a imagem é solitária, os tons azuis e amarelos esfumaçados trazem a imagem um silêncio que toma conta. É como uma partitura musical, onde os tons fracos, quase apagados são os graves e leves e os tons escuros, em sua minoria, os agudos e fortes. A solidão da cor se ameniza no lirismo da densidade da linha. A figura definitivamente desapareceu das obras de Mazé. Fica então a pergunta: onde foram parar os personagens, que ela se referia, das obras anteriores?
Segundo Nelson Brissac, essa imagem plana, frontal da representação da paisagem urbana, é resultado de um olhar “colado contra o muro”, pois o autor afirma que hoje a cidade não é mais “um horizonte que se descortina aos nossos olhos”298. Mazé, além de usar mais procedimentos do seu tempo, em relação aos
outros artistas que esta pesquisa engloba, seu olhar para a cidade também é atual, a memória no seu caso, não se relaciona com um passado que a artista rememora, mas a permanência do que é efêmero hoje, para a construção de uma memória futura. As primeiras obras da série Impressões urbanas, trazem a imagem da cidade saturada e cheia, onde as fachadas alinhadas esvaziam o ar. “As construções, coladas umas às outras, formam um frontão que limita a visão. (...) Não há um ponto
298 BRISSAC PEIXOTO, Nelson. Op. cit., p. 175.
Figura VI - 9
Série Impressões Urbanas (1995) - Mazé Mendes. Acrílico s/ tela, 150x80cm
Fonte: Catálogo: Mazé Mendes – Traço & Cor: Travessia de um Tempo. 1997. Curitiba: Clichepar, 1997.
de vista privilegiado”299. A cidade não se figura por inteiro, não permite um olhar a
distância. Pelo contrário, é uma visão aproximada, um olhar de perto. Segundo Mazé essas obras são impressões que teve da cidade de Curitiba, contudo, a não ser pela paleta de cores que remete a percepção atmosférica da cidade, essa paisagem urbana poderia ser de outras cidades, ela cabe em outras cidades.
Ainda Segundo Nelson Brissac, obras como essas, não foram feitas para serem contempladas com um olhar rápido, apressado e sim, o contrário, lentamente e com atenção. Esses quadros guardam a memória do olhar, além de saberem dar o