Ariès (1981) parte da análise da criança e seu percurso na escola, articulando questões pertinentes à família, no que concerne à sua trajetória histórica. Ele aponta que, no período medieval, tanto a socialização da criança quanto a transmissão de valores e conhecimentos não eram assegurados pela família. O que a criança aprendia era uma aprendizagem autônoma, ou seja, ao auxiliar e observar os adultos nas atividades cotidianas, ela aprendia por si só. Associava-se, assim, educação à aprendizagem do serviço doméstico, por meio da prática.
Nesse período, as trocas afetivas e as comunicações sociais aconteciam fora da família, de forma que a criança, após os primeiros anos de vida, comumente passava a viver em outra casa que não era de sua família. Ariès salienta que, no final do século XV, a realidade e o sentimento da família se transformaram, concomitantemente à ascensão da escola – que deixou de ser reservada aos clérigos - forjando a separação da criança dos adultos, submetendo-a a um período de quarentena, em que era mantida na escola, período convencionado de escolarização. Assim, para Ariès (1981), a família tornou-se um lugar de afeição necessária entre pais e filhos, algo que ela não era antes.
Eco (2004) define o burguês pela praticidade que rege sua vida: as coisas são certas ou erradas, belas ou feias, sem ambiguidades. “O burguês não é dilacerado pelo dilema entre altruísmo e egoísmo: é egoísta no mundo exterior [na bolsa, no livre mercado, nas colônias] e bom pai, educador, filantropo no recôndito das paredes domésticas.” (ECO, 2004, p. 362). Essa afeição se exprimiu, sobretudo, através da importância que se passou a atribuir à educação. É nesse contexto que a família começa a interessar-se pela educação dos filhos, acompanhando solicitamente seus estudos, a partir dos séculos XIX e XX, atitude outrora desconhecida.
A família começou então a se organizar em torno da criança e a lhe dar uma tal importância, que a criança saiu de seu antigo anonimato, que se tornou impossível perdê-la ou substituí-la sem uma enorme dor, que ela não pôde mais ser reproduzida muitas vezes, e que se tornou necessário limitar seu número para melhor cuidar dela. (ARIÈS, 1981, xi).
Partindo desse princípio - decorrente da revolução escolar e do sentimento familiar -, é possível compreender o que sustenta os paradigmas acerca da família, relacionados à polarização da vida social a partir do século XIX, que se estende até os dias atuais, abolindo as convenções antigas de sociabilidade.
Ariès (1981) traz o conceito de sentimentalismo que atingiu a família a partir do século XVI e XVII, pontuando que em decorrência disso aconteceram mudanças significativas de atitudes da família em relação à criança, no sentido de querer mantê-la mais próxima. A família transformou-se, ao passo que
modificou suas relações internas com a criança, pois começa a valorizar sua proximidade, e tal atitude provoca a mudança do sentimento familiar com relação aos filhos.
É evidente que, com a proliferação das escolas, em meados do século XVII, surge a necessidade de uma educação teórica, substituindo as antigas formas de aprendizagem prática, reforçando o desejo dos pais em não afastar muito as crianças, mantendo-as próximas, perto o maior tempo possível. Ariès (1981) destaca que esse fenômeno comprova a transformação considerável da família, passando a concentrar-se na criança.
Outra questão que o autor enfatiza é a transformação ocorrida no final do século XIX, quando as amas-de-leite – denominação às mulheres que amamentam os filhos alheios – passaram a morar na casa dos patrões, e, com essa proximidade desde o nascimento, as famílias se recusam a separar-se dos bebês.
Com relação a isso, Ariès (1981, p. 164) constata que:
A história aqui esboçada, [...], surge como a história da emersão da família moderna acima de outras formas de relações humanas que prejudicavam seu desenvolvimento. Quanto mais o homem vive na rua ou no meio de comunidades de trabalho, de festas, de orações, mais essas comunidades monopolizam não apenas seu tempo, mas também seu espírito, e menor é o lugar da família em sua sensibilidade. Ao contrário, se as relações de trabalho, de vizinhança, de parentesco pesam menos em sua consciência, se elas deixam de aliená-lo, o sentimento familiar substitui os outros sentimentos de fidelidade, de serviço, e torna-se preponderante ou, às vezes exclusivo. Os progressos do sentimento da família seguem os progressos da vida privada, da intimidade doméstica. O sentimento da família não se desenvolve quando a casa está muito aberta para o exterior: ele exige um mínimo de segredo.
Nessa conjuntura, o autor considera que é com o advento da escola que é valorizada a proximidade das crianças com a família, o que provoca consequências sentimentais que implicam em um modo de estruturação da família, evidentemente, ainda distanciada da constituição da família moderna. Na opinião de Ariès (1981), o sucesso material, as convenções sociais e os divertimentos coletivos não se distinguiam como hoje em atividades separadas, da mesma forma que não havia separação entre a vida profissional, a vida privada e a vida social.
Nesse contexto, o padrão social da família era constituído por intermédio dos costumes sociais que a família exercia, não essencialmente da fortuna que possuía. O prestígio, a boa reputação, o carisma, eram características da família que possuía êxito social.
No Brasil, o surgimento da escola, da privacidade, dos cuidados especiais com as crianças, também fez parte da construção da família nuclear e, por conseguinte, da estrutura familiar contemporânea.