Chama-se “A costura do invisível”. Não Alice, esse não é o nome deste trabalho, é desfile de roupas de papel, Alice. Já disse a você, esse desfile chama-se Desejos. Afinal, qual o nome deste evento em que Jum Nakao mandou rasgar as roupas? Qual seria a denominação apropriada para um Acontecimento unívoco?
Deleuze comenta a famosa fábula que Lewis Carroll criou em “Alice no país das maravilhas”, referindo-se à questão dos possíveis nomes de uma canção, da cor das rosas. O filósofo questiona a problemática dos nomes ou proposições que não possuem o mesmo sentido, embora denominem exatamente a mesma coisa. A diferença está numa distinção real, não tem nada de numérico, muito menos ontológico, é semiológico pelos sinais e seus significados. Entretanto, é possível adotar uma singularidade formal do sentido das designações, o qual remete a diferentes unidades nominais vindas do seu próprio sentido, embora se proporcione um único sentido para todos os outros. Paradoxal, não?
Jum Nakao, em consonância com o pensamento deleuziano, salienta que precisamos experimentar o valor dos nomes – um único jamais bastaria, tudo deveria ter pelo menos dois nomes. Por um lado, pela unidade da sua potência; por outro, pela multiplicidade dos simulacros que divergem, abrem o leque, atualizando e virtualizando em si mesma. Desde o nome de seu desfile-performance, esse campo indiscernível mergulha no pensamento que reside na multiplicidade dos nomes pares, é necessário pensar “juntas” a univocidade do Ser (Ser se diz em vários sentidos: essência, existência, ideia/simulacro) e a equivocidade dos entes (juntos, produções imanentes). Tais pares implicam o atual/virtual da doutrina do Acontecimento, tempo/verdade da doutrina do conhecimento, o acaso/eterno retorno da doutrina da ação e a dobra/fora da doutrina do sujeito. São nesses estágios que Deleuze confia na afirmação pura, deixando para trás o simulacro de si, fazendo o sentido nos apontar, congelar. É preciso intuir o objeto, todo objeto tem seu duplo e eles são semelhantes. Vejamos as considerações de Badiou:
A intuição é o que percorre (idealmente, com velocidade infinita) segundo uma única trajetória, essa descida e essa subida. Ela é, de fato, “descrição progressiva do conjunto”, ela se assemelha a uma aventura narrativa, mais do que ao golpe de vista de Descartes. Do A-o ente a B-o Ser, e depois de B-o Ser a A-o ente, ela re-encadeia o pensamento ao ente como co-presença de um ser simulacro e de um simulacro do Ser25.
A intuição se reencadeia num movimento duplo, descendo de um ente singular para uma dissolução ativa do Uno, um Ser Uno totalmente aberto e que produz sentido em perpétuo deslocamento. Tudo o que é analisado semiologicamente é estrutural e converge num simulacro, que fabrica ficções de sentidos, estando além do fenomenológico, da intencionalidade da consciência que visa à coisa e significa no mundo. Esse deslocamento infinito de sentido aberto trata do sentido positivo do não-sentido que direciona ao sentido, entendendo que o não-sentido faz parte da univocidade do Ser. O não-sentido é tão forte quanto o sentido. Essa operação do sentido e do não-sentido pode equivaler à doação de sentido. Esse pensamento não tem fonte na consciência, é necessário inconscientizar-se. O pensamento com as modalidades múltiplas e nenhuma com um maior privilégio de interiorizar a outra, é a “Síntese Disjuntiva” que pensa no movimento divergente.
A intuição joga na superfície e movimenta ascendente e descendentemente. Movimenta os entes para o Ser e depois inverte, assim como desce e ascende, quando movimenta o todo se divide nos objetos e eles se reúnem no todo, tudo muda, é uma identidade ontológica de suas intensidades. Simultaneamente o sentido, o não-sentido e a doação do sentido. O Uno intui o movimento dele próprio, fundamentando virtualidade infinita.
Pensando no desfile como um Acontecimento Uno, observamos que para essa ação performática cabem infinitos sentidos e nomes, sabendo que ele é uno/múltiplo. Tal bloco construído num elaborado jardim de cones de papel, a sensação de estar no jardim de Alice, no país das maravilhas, mas ao mesmo tempo diante de outros personagens da infância, “meu brinquedo playmobil”, blocos de infância, playmobil que permanece, atual e virtual. Ou é mesmo possível considerar uma floresta prolífera e contagiosa em que um bando de
playmobils não deixa de mudar, algo que produz um devir-louco. Bonequinhas que atualizam o meu passado infantil e desfilam, virtualizando essa nostalgia. É um boneco real que atualiza permanentemente novas virtualidades. Meu bonequinho playmobil muda sem fazer surgir algo novo, ele simplesmente faz durar. Eis a “potência do falso”, um termo tomado de Friedrich Nietzsche (1844-1900) com que Deleuze questiona o tempo, que destrona as formas do verdadeiro, num tom de sonho similar aos criados por Jorge Luis Borges (1899- 1986) em que há manipulações narrativas entre o passado e o presente, coexistência de tempos duvidosos que supostamente já aconteceram, um agenciamento de ciladas. Eu reconheço meu bonequinho playmobil num sonho em que me encontro no jardim de Alice, reconheço esse Acontecimento com estranha familiaridade, já não acuso a temporalidade cronológica, ela me toma, me perturba em vibrações e ecos de sentimentos.
A ação construída do estilista é unívoca, é um Acontecimento, e, na sua multiplicidade, consolida todos os outros possíveis, o acaso e a totalidade desse desfile, ela tende a retornar, dobrar e desdobrar. Os minuciosos vestidos são dobraduras de papel, dobras e mais dobras de pensamento que permitem a atualização da disjunção. Como isso ocorre? Quando o pensamento se expõe à disjunção, ele age como autômato e apenas sua neutralidade escolhe ser tomada disjuntivamente pela curva do Uno. Para o autômato que abandonou toda interioridade sobra apenas o fora. A intuição é um pensamento que se encontra com o fora, que não é o mundo exterior, é mais profundo, algo que anima essa movimentação.
Pensamos apenas quando somos obrigados, forçados a pensar, de maneira que o elemento que vem do fora é a força do pensamento, essa que explica a exterioridade das formas, da disjunção do Uno intuitivo que suscita uma construção no fora de uma relação, de um diagrama de forças. Se o pensamento é força do fora, o que seria o papel branco? Segundo Badiou, Stéphane Mallarmé (1842-1898) responderia: “O Ser é apenas ‘o vazio do papel que a sua brancura defende’, pois é apenas a partir do Acontecimento (traço) que se pensa o ser-branco do papel”. As diferenças de relação com a não-relação, do Uno múltiplo, o eterno retorno, a diferença que não é diferença, tudo que se reduz a quase nada. Na brancura do papel-dobradura dos vestidos brancos do artista/estilista não cabe esse pensamento que movimenta a superfície simultaneamente ao traçado no limite? A dobra do
papel determina traçados de pregas que constituem o limite comum de duas regiões da folha. Se trata do conceito da dobra que percorre intuitivamente, elucida paradoxos. Na curva de um incessante encadeamento seguindo quatro segmentos: percurso integral, velocidade infinita o que proporciona laço entre plural e singular, neutralidade e repetição, o pensamento que experimenta casos disjuntos, e o Ser , que é retorno do Mesmo. Parte de uma ponta de uma cordilheira (consciência) mas diverge ao abismo dela (inconsciência).
A força da intuição encontra esse limite da dobra, donde a interioridade se inverte na exterioridade, de fora para dentro, criando um dentro num espaço interno. Esse limite é a dobra do fora, se autoafeta num ponto que a disjunção é intuição de simples modalidade do Uno. O pensamento encontra o Ser quando é uma dobra, toma todo o sentido quando descobre essa força do fora como limite, êxtase no qual o ser se duplica. São essas dobras metafóricas que fazem pensar na subjetividade do sujeito que pensa o fora como duração, sob a condição de uma dobra. Costura-se a dobra e as tiras de papel abrindo possíveis combinações deste feito (vestidos-papel) partindo do dentro divergindo para fora, como se as vísceras dessas formas estivessem abertas, intuídas e recosturadas a partir do rasgo total.
2.2 CORPO NO LIMIAR DO HOMEM-ANIMAL E A INSTITUIÇÃO MODA
O desfile “A costura do invisível” termina na passarela com o movimento do rasgar das roupas. Esse corpo playmobil que brinca com a criança não-humana confronta-se com a instituição moda, cujo meio mercantil e capitalista restringe a proliferação da verdadeira criação. Da destruição da coleção se mostra o limiar do homem com o animal, o ser nu retorna ao ser instintivo que cria seu habitat, seu território com a desterritorialização da roupa.
Na moda-criação, é preciso criar com o corpo sem órgãos (conceito deleuziano que vai contra organicidade, hierarquização, somatização) para se “desligar” dessa moda imposta, imperativa. De sorte que Jum Nakao anseia por moldes criativos e potentes para o corpo que retorna ao reino animal, instintivo, que cria, em nome de sua espécie, sobrevivência e satisfação. O Ser cria reagindo por estímulos externos, pela natureza, o