Ao voltarem aos diálogos Rapsodo (guarda), Prometeu e Nória, uma personagem, Cassandra, surge em cena pela primeira vez e também não está na Teogonia (2007). Em seu texto de origem (o mito antigo), apontado por Brandão (1988), essa figura enamorou-se de Apolo, o deus da poesia e da música que lhe concedeu “o dom da manteia”, da profecia, desde que a linda jovem se entregasse a ele. Recebido o poder de profetizar, Cassandra negou- se a satisfazer-lhe os desejos. “Não lhe podendo tirar o dom divinatório, Apolo cuspiu-lhe na boca e tirou-lhe a credibilidade: tudo que Cassandra dissesse seria verídico, mas ninguém daria crédito às suas palavras” (p. 166).
Na cena, o Guarda, entregando uma manta a Prometeu, avisa que “uma jovem deseja visitá-lo” (ROSA, 2005, p. 18). Prometeu parece não acreditar quando a vê, surpreende-se e, “atónito”, pergunta se não seria um fantasma. Cassandra, por sua vez,, menciona o fogo que a levou até ali: “Quem poderia acompanhar-me nesta jornada a não ser um pedaço do fogo que nos deste, pra me alumiar nas veredas do precipício?” (Ibidem, p. 19).
É dessa forma que Cassandra inicia sua fala acerca da loucura e da morte. Ela conta seu rapto por Agamêmnon, como prêmio de guerra, e depois relata como escapou de ser assassinada por Clitemnestra. Uma parte da situação inicial que Cassandra conta está originalmente na tragédia de Ésquilo: “Veem-se no interior os corpos de Agamêmnon e de Cassandra, estirados no chão e cobertos com panos. Ao lado dos cadáveres, em pé, Clitemnestra, com o rosto e as mãos manchados de sangue [...]” (ÉSQUILO, 1953, p. 44).
Contudo, a diferença fundamental entre a Cassandra do texto-fonte e a nova Cassandra é o fato de esta ter escapado da morte: “[...] noticiaram o meu homicídio às mãos de Clitemnestra. Mas eu escapei quando ela sacou da faca [...]” (ROSA, 2005, p. 19). Seu discurso culmina com seu “despejo em um hospício público" e, a partir daí, é esquecida e até dada como morta por um trabloide. “As pessoas encaram a loucura como uma forma de morte” (Ibidem, p. 19). De modo geral, os acréscimos vão em direção ao campo semântico da loucura, pois Cassandra também tem o dom da profecia, como Prometeu, porém ninguém acredita. Quais são, então, suas loucas contribuições?
Essa Cassandra é uma “traficante de droga?”, pergunta Prometeu. Ouvindo a súplica da Águia, Cassandra lhe oferece “pastilhas de ópio” e droga o carrasco prometeico. Em seguida, acrescenta mais uma acepção à simbologia do fogo, ao dizer que Eros lhe inflamou o peito e o ventre. Agora, o fogo referido por Cassandra é o desejo que ela sente por Prometeu, a paixão. Prometeu, então, complementa o diálogo, ligando os dois campos semânticos citados: “A paixão é uma forma de loucura” (Ibidem, p. 19).
Enfim, as falas de Prometeu e Cassandra representam o rebaixamento do poder dos deuses do Olimpo. Cassandra insiste em dizer dos desencantos promovidos pelos humanos, fato que Prometeu atribui aos “deuses mascarados de instintos, que nos conduzem às maiores misérias” (ROSA, 2005, p. 20) como “fantoches do cosmos”. Cassandra, nesse momento, aproveita para posicionar- se contra os “falsos deuses”, os “deuses vampiros” e pede ao titã que não perca a “fé no fogo” (Ibidem, p. 20) que tem.
Quanto ao restante das falas de Cassandra, elas são responsáveis por apresentar um pensamento gnóstico: o de que os humanos trazem consigo certa sabedoria celestial, uma divindade internalizada na própria essência humana, com forte capacidade de criação e questionamentos sobre o mundo. Nesse sentido, convém considerar o que explica Stephan A. Hoeller (1997) – escritor, nascido em Budapeste, doutor na área de filosofia da religião da Universidade de Innsbruck, na Áustria:
Os gnósticos compartilham com os hindus e com certos cristãos místicos a noção de que a essência divina está presente no fundo da natureza humana, além de também estar presente fora dela. Em um tempo os seres humanos eram parte do divino, embora mais tarde, em sua condição de manifesto, eles mais e mais tenderam a projetar divindade nos seres externos a si próprios. Alienação de Deus traz um aumento do culto a divindades totalmente externas ao ser humano. O Evangelho de Filipe, outra escritura de Nag Hammadi, expressa isso muito bem: No princípio, Deus criou os seres humanos. Agora, porém, os humanos estão criando Deus. Esse é o caminho do mundo, os seres humanos inventam deuses e adoram suas criações. Seria melhor para esses deuses adorarem os humanos (tradução nossa).
Essas características que capacitam o homem para a criação, para o domínio e conhecimento da “verdade” sagrada são a base da construção do discurso da personagem Cassandra. Ela diz saber sobre os mistérios dos “caminhos de Elêusis”, já que se está, para Nascimento Rosa, em um teatro gnóstico. Percorre-se esse caminho para salientar o contraste com os deuses da criação. Jean-Pierre Vernant (2009, p.70-71), ao elencar alguns pontos dos fenômenos religiosos, apresenta o mýstai, mistérios:
Os de Elêusis, exemplares por seu prestígio e seu brilho, constituem na Ática um conjunto cultual bem delimitado [...] ficam à margem do Estado por seu caráter iniciático e secreto [...]. O certo é que, terminada a iniciação, depois da iluminação final, o fiel tinha o sentimento de ter se transformado por dentro. Doravante ligado às deusas por uma relação pessoal mais estreita [...].
Hoeller (1997) também traz informações a esse respeito. Ao estudar as escrituras gnósticas, ele apresenta as relações divinas primordiais às quais a personagem citada está se referindo:
É bastante evidente que o Deus Criador que visita a humanidade com a catástrofe do dilúvio não é idêntico ao "Deus verdadeiro", a quem Nórea grita por
socorro. Visualizando o caráter da divindade do Gênesis com um olhar sóbrio e crítico, os gnósticos concluíram que esse Deus não era bom nem sábio. Ele era
invejoso, genocida, injusto e, além disso, havia criado um mundo cheio de
bizarrices e desagradáveis condições. Em suas explorações visionárias dos
mistérios secretos, os gnósticos acharam que haviam descoberto que esta
divindade não era o único Deus, como havia sido aclamado, e que certamente havia um Deus acima dele. Este verdadeiro Deus acima seria o verdadeiro pai da humanidade, e, além disso, haveria uma verdadeira mãe também, Sophia, a
emanação do Deus verdadeiro. [...] Até que ponto vários gnósticos tomaram
essas mitologias literalmente é difícil de discernir. O certo é que por trás dos mitos existem importantes postulados metafísicos que não perderam sua relevância (grifo nosso, tradução nossa).
Tal concepção sobre a divindade perpassa esta obra de Nascimento Rosa e compõe o foco das escrituras gnósticas nesta análise: o deus cristão que se conhece é injusto e não é o único, há um deus maior, pai da humanidade. Além disso, existe um desdobramento do divino que, da figura masculina, alcança o feminino: Sophia. Cassandra é essa voz, dos mistérios secretos, neste teatro. Ela também divide com Prometeu a previdência, quer segui-lo no exemplo da contestação sobre o mundo e compõe – lado a lado com a personagem Nória – uma busca pelo o que é mais justo, mais elevado.
De maneira geral, é mais uma oposição representada por Cassandra que se torna contribuição para o intertexto do fogo neste teatro. Por um lado, Cassandra, para salvar Prometeu das garras da Águia, é passional, age por impulso, pela emoção, ludibriando a ave. Por outro lado, defende o caminho da verdade pelo conhecimento gnóstico, em que se baseia sua fé. O contraste da ideia dos falsos deuses, os deuses da tirania, o cruel, com o deus da utopia, o pai, são muito compatíveis com uma figura tão antitética como Cassandra, que, mesmo dizendo que não conseguiu salvar Prometeu, acaba aproximando-se do titã por possuir a sua principal característica: lutar contra Zeus.
Esta peça também faz o leitor ir e vir nos argumentos. São vários os ângulos opostos da personagem. Não se pode esquecer que Cassandra tem o dom da profecia e, ao mesmo tempo, segundo sua história, é mentirosa ou fadada a ser considerada desta forma por aqueles que a ouvem. Diante dos outros, ela é tida como louca. Assim, o que todos conhecem, o poder prescrito na mitologia, é rebatido pelo que é apócrifo, mas em um campo hipotético. O
problema é que esse discurso não oficial continua fora do consolidado, da verdade, já que suas profecias são desacreditadas. Porém, continua utópico o desejo de realização e é exatamente isso o que quer a personagem: “Espalharei a verdade mesmo que a tomem por mentira”. Mais uma antítese. Mas, de qualquer forma, ao dizer que falhou com o titã, é retórica e seus argumentos são os mesmos de Prometeu contra a tirania divina. Cassandra aproxima-se dele e diz: “Seguirei seu exemplo”.
É claro que, nesse diálogo entre Cassandra e Prometeu, as sentenças negativas também contribuem para as oposições discursivas. Observam-se o advérbio “não” e a conjunção “mas”: “[...] mas o instinto não lhe permite o suicídio”, “não dramatizes”, “não percas a fé”, “eu não presto culto aos deuses”.
Nessa direção, encontram-se termos do cotidiano para se falar do mito como “tabloides”, “estatísticas”, “desemprego”, ou expressões de rebaixamento: “vadiei”, “instinto”, “folhetim barato”, “hormonais”, “fita pornográfica” e “deuses vagabundos”. Os adjetivos, em geral, desqualificam os substantivos da cena.
Além disso, antes de terminar a quarta cena, Nória aparece e reconhece Cassandra: “Lembra de mim, amiga?”. Cassandra responde com informações sobre Nória, voltadas à semântica do fogo: “iluminada do piso quatro”, e Nória continua: “já não deito fogo aos cortinados”. Nesse diálogo, portanto, só algumas pistas a respeito de Nória são dadas e, logo em seguida, fecha-se a cena.
1.4. Circularidade e historicidade em chamas: o fogo novamente