O quarto poema é ―¡Válgame Dios! ¿Quién pensara‖76, que possui 54 estrofes
com 4 versos cada. Nesse poema, percebemos o alto grau de erudição de Sor Juana, pois conseguimos ver a poetisa usar e abusar das metáforas tão caras aos conceptistas, conforme afirma a estudiosa Georgina Rivers. Logo de saída Sor Juana, para dizer que o poema foi fruto de uma provocação do doutor Josef de Veiga, escreve: ―¡Válgame Dios! ¿Quién pensara / que un pobre romance mío / que para salir de madre / hubo menester padrino‖77. Ironicamente, a poetisa estranha o
fato de um homem doutor dar-lhe ocasião para produção.
O poema é uma réplica da carta “Respuesta”, uma vez que, nele,
encontramos o tema e o paradoxo entre o que se diz e o que se escreve. Sor Juana quer convencer seu interlocutor que não é digna de ter seu romance subscrito por ele, porque não se via digna de tamanha honra e para convencê-lo ela se vale de
75 ―Este poema burlesco ataca radicalmente o duplo sistema de honra machista e de vergonha para
as mulheres que tradicionalmente controla os papéis sociais dos sexos‖.
76
Para ler esse poema na íntegra, consultar o Anexo E deste trabalho.
77 ―Valha-me, Deus! Quem pensara / que um pobre romance meu / que para vir à existência/ precisou
uma argumentação que somente uma intelectual como ela poderia fazer, assim, ela condena a si mesma, ao vestir a máscara da humildade.
Sor Juana, em seu raciocínio aguçado, prova que o elogio emitido por Veiga a um outro escrito seu é ocasião para desqualificá-la. Ela afirma que as imperfeições de seu escrito, que poderiam muito bem passar despercebidas, vieram à tona quando foram colocadas ao lado do escrito de um insigne intelectual como ele. Assim, ironicamente, ela diz que o elogio é antes advertência, admoestação, exortação:
―merecía aquella ofensa que me hacéis, pues imagino que es vituperio, y no elogio, la alabanza en el indigno? Que a los defectos por sí, cuando carecen de aliño, el mirarlos como malos los hace desatendidos: que como en la inadvertencia está el reparo dormido, tiene de no censurados lo que de no conocidos‖78.
A estrofe seguinte – ―pero si exterior adorno / es de la vista atractivo, / lo que buscó para aplauso / suele halla para castigo‖79– parece àquele leitor voraz da carta
uma réplica da ideia exposta em um célebre parágrafo ali posto:
Empecé a deprender gramática, en que creo no llegaron a veinte las lecciones que tomé; y era tan intenso mi cuidado, que siendo así que en las mujeres -- y más en tan florida juventud -- es tan apreciable el adorno natural del cabello, yo me cortaba de él cuatro o seis dedos, midiendo hasta dónde llegaba antes, e imponiéndome ley de que si cuando volviese a crecer hasta allí no sabía tal o tal cosa que me había propuesto deprender en tanto que crecía, me lo había de volver a cortar en pena de la rudeza. Sucedía así que él crecía y yo no sabía lo propuesto, porque el pelo crecía
78 ―merecia aquela ofensa
que me fizeste, pois imagino que é vitupério, e não elogio, a cortesia para com o indigno? Que aos defeitos por si, quando carece de reparo, o olhá-los como maus
faz com que estejam desamparados: assim como na inadvertência
está o reparo dispensado, não se pode censurar o que não é conhecido‖
79 ―Mas se a beleza exterior / é atrativo para a vista, / o que buscou para aplauso / encontra o que é
aprisa y yo aprendía despacio, y con efecto le cortaba en pena de la rudeza: que no me parecía razón que estuviese vestida de cabellos cabeza que estaba tan desnuda de noticias, que era más apetecible adorno (DE LA CRUZ, p. 776)80.
Sor Juana, mais uma vez, prova que havia assimilado o espírito de sua época, mais uma vez ela dá evidências de que se pode alcançar o conhecimento partindo da observação, da experiência. Assim, por meio de comparações extraídas de suas observações, ela encontra ocasião para questionar aquele que, na perspectiva dela, quis antes magoá-la que honrá-la. Ela prova que não se dedicava apenas às suas obrigações litúrgicas:
Cuando el frio y el calor llegan a verse vecinos,
está más ardiente el fuego, está más helado el frío.
Cuando destierran la noche del sol los dorados rizos,
parece ella más obscura y él parece más lucido.
Pues siendo esto así, señor, decidme: ¿con qué motivo
me hicisteis aquel agravio con capa de beneficio?
¿No veis que es querer que, juntos vuestros versos a los míos,
hagan vuestras perfecciones más disformes mis delirios?81.
80
―Comecei a aprender gramática, em que creio não chegaram a vinte as lições que tomei: e era tão intenso meu cuidado, que sendo assim que nas mulheres – e mais em florida juventude – é tão apreciável o adorno natural do cabelo, eu cortava-o quatro ou seis dedos, medindo até onde chegava antes, e impondo-me lei de que se quando voltasse a crescer até ali não soubesse tal e tal coisa que me havia proposto aprender em tanto que crescia, voltaria a cortar em pena de rudeza. Sucedia assim que ele crescia e eu não sabia o proposto, porque o cabelo crescia depressa e eu aprendia devagar, e com efeito o cortava em pena da natureza: que não me parecia razão que estivesse vestida de cabelos cabeça que estava desprovida de noticias, que era mais apetecível adorno‖.
81
―Quando o frio e o calor
chegam a ser vizinhos, está mais quente o fogo, está mais gelado o frio.
Quando surge a noite por causa do sol dourado, a noite se apresenta mais escura e o sol mais brilhoso.
Pois sendo isto assim, senhor, diz-me: com que motivo
fizeste-me aquele agravo com aparência de benefício?
Não vês que colocar vossos versos juntos aos meus, faz com que vossa perfeição
Ora, não está aqui uma evidência de que ela, realmente, apropriou-se das ciências, segundo afirmara no extenso décimo primeiro parágrafo da Carta ―Respuesta‖? Não está, aqui, uma amostra de que, verdadeiramente, ela, em tudo, encontrava ocasião para aprender? Não foi observando a natureza que chegou a tal conclusão?
Nos numerosos versos seguintes, a fim de elogiar seu interlocutor, Sor Juana dá demonstrações de completa erudição, provando, tal qual na carta ―Respuesta‖, conhecer a história da humanidade, os clássicos de todas as ciências. Era – ela – enfim, a erudição em pessoa e, como tal, como vimos na Carta ”Respuesta”, não
fazia alusões atabalhoadas às pessoas e personagens do mundo intelectual:
¿Cuándo diera el sol sus rayos a que os sirvieran de estilos
y os ministraran los cielos los azules pergaminos
¿Cuándo, si que lo alabarais pensara o prado florido,
hicierais costa a las flores de buscar nuevos aliños?
¿Cuándo, a temer que haríais vos de sus versos escrutinio,
mandara con más razón quemar la Eneida Virgilio?
¿Cuándo, si os viera maestro de su Alejandro, Filipo,
con más justa causa hiciera a sus dioses sacrificio;
y si el Macedón, vivir viera en los preservativos aromas vuestros, sus glorias a los venideros siglos,
no tuviera, al contemplar los hechos de los argivos, ni a Aquiles por tan dichoso ni a Homero por tan divino?
¿Cuándo, si César gozara vuestro numen descriptivo, solicitara, en sus hechos, aumentarlos, no escribirlos?
¿Vos, a quien por Tolomeo veneraran los egipcios,
por Solón los atenienses, los romanos por Pompilio,
los árcades por Apolo, por Fidón los de Corinto, los magnesios por Platón y los cretenses por Minos?
Porque ¿qué Dracón, qué Eaco,
qué Mercurio Trismegisto, qué Deucalión, qué Licurgo, qué Belo, qué Tulo Hostílio,
qué Saturno, qué Carondas, qué Filolao, qué Anicio,
qué Samolio, qué Seleuco, qué Rómulo, qué Tranquilo
llegaron a vuestras letras, cuando todos los antiguos
legisladores apenas os pueden servir de tipos?
Pues a faltar todos ellos, pudiera vuestro juicio
substituir ventajoso por sus inmensos escritos
[…]
Pues no igualan vuestros versos un Homero, un Vario Livio,
un Andronio y un Lucano, un Marcio, un Montano Emilio,
un Licofronte, un Alceo, un Nevio, un Sexto Turpilio, un Filoxeno, un Terpandro, un Sófocles, un Esquilo, un Cornelio Galo, Un Accio,
un Tito Valgio, un Atilio, un Sexto Aurelio Prospercio, un Lucio y Clodio Sabino. Tanto, que pudierais ser
(si hubierais antes nacido) para Escipión un Ennio,
para Alejandro un Querilo, un Virgilio para Augusto,
para Domiciano un Sirio, para Graciano un Ausonio, y un Menandro al rey de Egipto.
Nos versos seguintes, mais uma vez, valendo-se da máscara da humildade, Sor Juana afirmará que seu interlocutor deveria, em vez de escrever sobre seus escritos, emitir juízos sobre os textos de ilustres pessoas que se consagraram como sábias. Ora, ao citar essa multidão de intelectuais, ela acaba por inserir-se entre eles, daí o paradoxo, uma vez que teve a pretensão de citá-los para provar que os escritos deles mereciam mais atenção do que os seus. Ao assim proceder, ela acaba cometendo com Josef de Veiga o mesmo paradoxo que cometeu com o Bispo de Puebla, Sr. Manuel Fernández de Santa Cruz:
Pues ya, si fuera el asunto la alabanza de una Clío,
de una Erina, de una Safo, de una Artemia, de una Fito;
de Corina, o de Minerva, o de Cenobia, que hizo
los hechos alejandrinos; de la hija de Tiresias, o hermana de Cornificio, de la mujer de Lucano o la madre de Aristipo;
de aquel délfico milagro o de aquel espanto libio, de aquel itálico pasmo o de aquel asombro frigio;
o de la excelsa duquesa de Aveiro, de nuestro siglo honra y corona, y gloriosa afrenta de los antiguos:
en cuya divina pluma, en cuyo altos escritos, España goza mejores oráculos sibilinos,
fuera digno asunto vuestro. Pero alabar versos míos.
Reparemos que, aqui, encontramos algumas mulheres que também foram citadas na Carta ―Respuesta‖: a poetisa grega Corina; a conhecida personagem da mitologia grega, Minerva; a rainha da Síria, Cenobia. Sor Juana, por meio da carta e de seus poemas, não cansou de mostrar à sociedade de sua época que não havia razão para caçar a palavra às mulheres, não havia por que persegui-las. A história provava que seus dias andavam na contramão do fluxo da existência humana. Sor Juana alertava os incautos homens, avisando-os que a prática de seus dias faria com que eles entrassem – como entrou – para a história de horror da espécie humana.
Enfim, Sor Juana, como mostramos nos dois parágrafos anteriores, não hesita em citar homens e mulheres. Não age com má fé: não exclui os homens, a fim de dar proeminência às mulheres. Ela apenas mostra que ambos são capazes de, fazendo uso da razão, contribuir com o progresso da humanidade.