O discurso que representa as falas das personagens é também pautado, estruturado, com negações e oposições seguindo um fluxo coerente com a imagem defendida de Prometeu: aquele que contesta a realidade estabelecida.
O Heráclito mais uma vez é pilar desse fogo prometeico. Essa personagem que chega à segunda cena tem de ter um estilo descuidado, “andrajoso de eremita”, como quer a segunda rubrica da peça, assim verifica-se uma imagem oposta daquela que deveria ter um representante de tão grande tradição filosófica. O filósofo-personagem segue seu texto falando a todo momento do fogo. Aqui, o que está em jogo cênico também é a relação de oposição entre o fogo divino, alto, e o fogo humano, a chama dada por Prometeu. Neste longo monólogo, o discurso dos contrários, das oposições, vai se emaranhando, aproveitando a própria figura simbólica de Heráclito, o discurso apresentará antítese, oximoro, no jogo de ideias opostas.
Assim, ao declarar que se expressa com a linguagem dos enigmas, Heráclito apresenta seu apelido de obscuro no julgamento de seus contemporâneos e confirma-se o discurso das oposições: “Adorado plos vindouros, desconhecido deles”, “Pensamos uma coisa e o seu contrário, e depois pensamos outra prás ultrapassar” (ROSA, 2005, p. 10).
Heráclito apresenta sua condição neste discurso e os sentidos do fogo ampliam-se: um filósofo do fogo que acreditava na palavra como fogo, “uma fornalha do cérebro”, que acreditava “ser o fogo a alma motriz do universo” (Ibidem, p.10), agora sofre de “hidropisia crônica”, ou seja, possui um corpo inchado de água, com retenção de líquidos. Opondo, assim, fogo/água, alma/corpo. Heráclito concentra em sua figura ideias também opostas: tinha o fogo da alma (sua filosofia) e na peça é a representação de um corpo transbordando água.
Adiante, ao começar sua crítica aos deuses, com a oração “os deuses vendem tudo quanto dão” (Ibidem, p.10), em referência a Fernando Pessoa, expõe mais um oximoro. Heráclito diz que o pai de Pessoa não assistiu aos poemas do filho, “recitados no silêncio”, oposição que se soma em sentido, som/ silêncio na mesma significação.
Além disso, percebe-se um rebaixamento da figura de Heráclito e de seu discurso no texto de Nascimento Rosa. Ao vingar-se do castigo dos deuses
(seu corpo é inchado de água – hidropisia crônica), a personagem mergulha em excremento animal, acreditando secar-se com o fogo da fermentação. Assim, têm-se mais oposições de sentido: seco/molhado, fogo da fermentação/água. Para o plano do conteúdo, encontram-se contrastes até em citações que o filósofo faz do teatro. Ao referir-se a Samuel Beckett, discursa: “andou a enterrar pessoas vivas” (Ibidem, p. 10). Em tal afirmação, observa-se a oposição semântica morte/vida.
Mais acréscimos no campo das oposições podem-se verificar no plano da expressão. Temos alternância de orações: “escolhi a solidão, ou ela me escolheu”. As conjunções adversativas também aparecem: “Mas as pessoas não me percebiam”, “Mas quem a disse não fui eu [...]”, ”[...] mas já não assistiu em vida [...]”, “Mas ele foi mais trágico do que eu” (ROSA, 2005, p. 10; 11, grifo nosso).
Assim, a cena dois termina com o cessar do monólogo de Heráclito sobre sua filosofia e o discurso do fogo. Entra o Rapsodo para criticar a fala do filósofo, “sua conversa vai longa e está a cheirar mal [...]. Não fomos bem percebidos”. A partir disso, Heráclito queixa-se por “pregar aos peixes” e as negações continuam: “[...] não os percebi”, “E não me tome a chamar senhor Heraclito [...]” (Ibidem, p. 11, grifos nossos).
No final da cena, entra Nória criticando o tratamento dado a Heráclito, preparando o contexto da terceira cena e ainda é nítida a continuidade das sentenças negativas: “Mas não, não há lugar pra ele.”, “Ele não percebe
nada.”, “Ele não costuma entrar em telenovelas?” (Ibidem, p. 12, grifo nosso).
No discurso de Zeus, também se observa um universo de negativas, de posicionamentos que vão de encontro à figura prometeica. A todo o momento, Zeus utiliza o “não” e estruturas adversativas: “Não tens nada em comum com os mortais [...] Mas é tempo de reveres a estratégia [...] Não gastes adrenalina com quem não merece [...] eles não poderão defender-se a si mesmos.” (Ibidem, p.16, grifo nosso). Todas as expressões negativas são apresentadas para provar os devaneios libertários que Prometeu instaurou ao tentar a
salvação diante da “impotência amedrontada dos mortais” (ROSA, 2005, p. 17), segundo Zeus.
Em contrapartida, esse novo Prometeu construído por Nascimento Rosa, defende-se a todo o momento, dizendo a Zeus que a morte “é uma obra com a tua assinatura” (Ibidem, p. 15). As oposições apresentadas pelo titã reforçam o campo significativo da rivalidade. Prometeu acusa o deus de inimigo: “[...] eu sou o teu rival mais perigoso” (Ibidem, p.15). Essa situação perigosa, esse poder que Prometeu começa caracterizar como seu, faz parte da oposição de seu próprio caráter apresentado em uma das rubricas: dores e fraqueza (“caído no chão”) versus a ira, a força que encontra para levantar. Não para por aí, os contrários vão aparecendo nas falas do titã: “A tua ação cobarde é contrária à inteligência das palavras” (Ibidem, p. 15). Logo, encontra-se a expressão “viver melhor no mundo de trevas que governas” (Ibidem, p. 16), um oximoro para acréscimo de sentido à semântica do fogo que está representado na figura de Prometeu, o “fogo da vida”, aquele que iluminou os caminhos da humanidade diante da escuridão causada por Zeus. Mais que isso, o titã acusa Zeus de ter medo do poder humano que faria sombra a seu reinado, de novo observam-se oposições: fogo divino/“trovões e relâmpagos”, divino/humano.
Nesse contexto, também se encontram vocábulos que são rebaixados por meio da enumeração (como podem ser observados na fala da Águia que participa da cena): “deuses, semideuses e cobaias humanas” (Ibidem, p.13). A qualificação dos vocábulos também desce a uma significação prosaica ou negativa, como, por exemplo, o sangue comparado a molho de tomate e os adjetivos que desqualificam seus substantivos como a sórdida missão, a fábula nojenta, o bordel do Olimpo, a tragédia repugnante, a tragédia fétida de indigestões.
É um jogo de forças que a cena vai modulando ao resgatar do texto-fonte figuras tão emblemáticas, por meio de sentenças negativas, com partículas que colocam em oposição os discursos de Zeus e Prometeu. O titã tenta derrubar as argumentações do deus: [...] não há dúvida, à testa de uma horda de
famélicos sem terra que virão pra assaltar a tua praça forte”, “[...] não pretendo fazer plágio das tuas criações”, “Portanto não podes acusá-los de uma coisa de que só tu és culpado”, “SE ASSIM SÃO OS DEUSES, ENTÃO EU NÃO QUERO SER DEUS” (Ibidem, p. 16). Por fim, Prometeu encerra sua fala apresentando um oximoro que resume sua condição (prisão do corpo/liberdade de espírito): “Acabo de ganhar a liberdade de espírito” (Ibidem, p. 17).
Por fim, a personagem Águia também contribui para um discurso da oposição. No plano da expressão, continuam as negativas. As críticas e reclamações da Águia vão acrescentando conjunções, advérbios, todos relacionados a oposições. “Mas limitou-se”, “[...] eu não sou mais do que um bicho [...]”, “[...] não o sei, não sou juíza – razão não tenho pra Zeus ter feito de mim uma esponja [...]”, “NUNCA NINGUÉM ME PERGUNTOU SE EU GOSTAVA DE FÍGADO!” (Ibidem, p. 14, grifo nosso).