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Como se viu, a produção poética e ensaística da freira mexicana Sor Juana Inés de La Cruz não é somente vasta, como, também, valiosa, e que toda essa sua produção aconteceu no séc. XVII, no segundo período da história do México, caracterizado pelos historiadores de Vice-Reinado da Nova Espanha, no qual encontramos o regime político denominado ―Patrimonialismo‖, cujo Vice-Rei, representante do Monarca na colônia, tinha a incumbência de fazer valer os interesses da Corte. É nesse Vice-Reinado que encontramos o Sr. Francisco de Aguiar y Seijas, Vice-Rei e Arcebispo do México que se tornou o grande opositor de Sor Juana.
Nessa Nova Espanha, a cultura era privilégio de uns poucos que tinham acesso ou à Universidade ou à Igreja ou à Corte. A produção do conhecimento, quase que exclusivamente, cabia aos homens. Eram deles as Escrituras, o púlpito e a política. Era deles o mundo das reflexões e, por meio do confessionário, eles o controlavam.
Sor Juana venceu esses difíceis obstáculos de sua época que impediam toda e qualquer mulher de trilhar o caminho do estudo, do conhecimento, do exercício intelectual. A fim de ter acesso à cultura, ela ingressou no Convento São Jerônimo, colocou-o a seu serviço e só saiu de lá sem vida, liquefeita.
No Convento, como vimos, esteve sob a tutela de seus confessores, que tinham por missão conduzi-la à produção de textos que dessem conta de suas experiências sobrenaturais. Sor Juana também soube lidar com essas exigências de modo que não perdeu o contato com os eruditos da história da humanidade e, com o apoio de alguns Vice-Reis, conseguiu produzir inúmeros textos dos mais variados gêneros: cartas, poemas, peças teatrais.
Um desses textos, a Carta Atenagórica, foi a causa da grande polêmica, conforme mostramos no Capítulo 1. Nesse texto, ela teceu comentários a respeito do Sermão do Mandato, pregado por Padre Antônio Vieira. Nesse sermão, Vieira, valendo-se do evangelho de João, encontrou ocasião para contestar o pensamento de Agostinho, Tomás e Crisóstomo, concluindo ser sua interpretação a mais sublime, a mais coerente, a mais correta: a maior fineza de Cristo foi querer que o amor com que nos amou fosse dívida de nos amarmos.
O sermão do Mandato, pregado em 1650, por um lado encantou Sor Juana por sua beleza, pela perícia do pregador com as palavras e, por outro, deu a ela uma grande oportunidade para mostrar que se é possível construir um texto totalmente diferente, mesmo quando se aborda o mesmo assunto.
A poetisa retomou Agostinho, Tomás de Aquino e João Crisóstomo, para mostrar que esses pais da Igreja escreveram o que escreveram sendo fiéis aos pressupostos defendidos pela Igreja Católica. Ela provou que os doutores da Igreja foram, cada um em seu tempo, fiéis às Sagradas Escrituras, às tradições e aos dogmas da Igreja Católica, não hesitando em afirmar que se colocava do lado destes em oposição a Padre Antônio Vieira.
Bispo Manuel Fernández de Santa Cruz, como mostramos, escreveu a Sor Juana, vindo à tona a Carta de Sor Filotea de La Cruz ,em 25 de novembro de 1690. A Carta de Sor Filotea, ainda que vinda da parte de um amigo, de um aliado, não é outra coisa que não uma tentativa de desencorajar Sor Juana a continuar escrevendo sobre assuntos que eram de responsabilidade dos homens. Não há uma frase, uma oração que aponte um deslize sequer da monja, portanto, o único argumento que sobrou ao bispo foi este: Pare de falar, porque você é mulher e mulher deve escrever textos que dão conta de suas experiências sobrenaturais e nada mais.
Sor Juana Inés de La Cruz respondeu-lhe ao escrever-lhe a Carta ―Respuesta‖. Ao analisarmos a carta, percebemos que Sor Juana, ao longo dos anos, instalada no Convento de São Jerônimo, adquiriu disciplina férrea, o que fez com que ela soubesse lidar com os estorvos do dia-a-dia sem perder o seu objetivo: mostrar a seu interlocutor que não havia mal algum em as mulheres fazerem parte do mundo das reflexões e, junto com os homens, produzir o conhecimento.
Sor Juana provou que dominava esse gênero de escrita. Ela atendeu todos os requisitos formais exigidos em uma escrita de si, tornado-a complexa, pois, como mostramos, ora acreditamos piamente que estamos diante de uma carta, ora diante de um ensaio, ora diante de um tratado, e é o saber escrever carta que gera essa hibridez peculiar do gênero escrita de si.
Sor Juana soube manter o caráter dialógico intrínseco à carta, ao reconquistar seu interlocutor logo nas primeiras linhas por meio de elogios escritos no superlativo. Trabalhou muito bem com o ritmo, avançando e retrocedendo, fez excelente uso das máscaras, uma vez que soube metamorfosear-se adequadamente todas as vezes
que isso foi necessário: ora humilde, ora erudita. Deixou que seu interlocutor conhecesse de seu caráter somente aquilo que lhe interessava deixar conhecer, com isso criou uma perfeita ilusão de presença. Valeu-se dos recursos necessários para chancelar a ―verdade‖ do que dizia na carta. No entanto, pudemos perceber que a forma como escreveu contradisse o que estava escrito, fazendo emergir a contradição e a ironia tão peculiares ao período barroco.
Se a Carta Atenagórica possuía um cunho religioso, a Carta ―Respuesta‖ possuía um cunho notadamente filosófico. Se, na Carta Atenagórica, ela refutou as ideias de Vieira, na Carta ―Respuesta‖, ela refutou as ideias de uma época. Se, naquela, ela condenou representantes do sistema, nesta ela condenou o sistema todo. Se, naquela, ela mostrou que conhecia uma Ciência (Religião), nesta ela provou que conhecia muitas outras.
Sor Juana, por meio da Carta ―Respuesta‖, levou, ao tribunal da história humana, uma época marcada pelo preconceito exacerbado. A juíza, denominada consciência histórica, condenou, condena e condenará toda ação daquela natureza. Sor Juana defendeu com maestria a liberdade de reflexão feminina, a liberdade de reflexão da humanidade. Resgatou a glória de inúmeras mulheres intelectuais, dignas, cultas, sábias. Provou que as palavras que escoavam por sua boca eram palavras que nasceram de um cérebro pensante, aguçado, vivo, reflexivo.
Sor Juana lembrou os doutos de seus dias de que eles não eram os únicos que faziam bom uso do intelecto. Avisou-lhes que a cabeça não fora feita somente para que os cabelos ali descansassem. Asseverou que a beleza exterior em detrimento da interior era loucura, insensatez. Alertou-lhes para o fato de que muitos sábios encontravam uma mulher, uma mestra, uma sábia em sua genealogia intelectual, mostrando-lhes, assim, que essas mulheres estavam espalhadas por todo o mundo, compondo literaturas sacras e profanas.
Na Carta ―Respuesta‖, percebemos que Sor Juana perscrutou os mundos das ideias, leu-os, decifrou-os, absorveu-os. Estudava com os livros e, na falta destes, aprendia com os eventos da natureza, com os objetos existentes no planeta, com as brincadeiras dos animais racionais e irracionais, com os relacionamentos destes, com os afazeres culinários, com a quietude da noite, com a agitação do dia: tudo lhe era motivo para reflexão.
Debruçamo-nos sobre sua Carta ―Respuesta‖ e sobre apenas quatro de seus muitos poemas – “En perseguirme, Mundo, ¿qué interesas?‖, ―¡Oh famosa Lucrecia,
gentil dama‖, ―Hombres necios que acusáis‖ e ―¡Válgame Dios! ¿Quién pensara‖ – e percebemos que Sor Juana era o que era em todas as circunstâncias. Afirmamos, pois, que há um fio condutor de ouro que perpassa toda sua produção: um espírito crítico.
A Carta ―Respuesta‖ não foi simplesmente uma escrita de si circunstancial. Sor Juana, valendo-se do gênero carta, adequado, como escreveu Foucault, para revelar a alma, o caráter, deixou-se conhecer. Ora, esse mesmo caráter, essa mesma alma se revelaram bem antes, como vimos, por meio de outro gênero literário: a poesia.
Nossa análise provou que Sor Juana Inês de la Cruz conseguiu escrever sobre o mesmo tema, valendo-se de gêneros diferentes. Ela não só dominava os aspectos formais intrínsecos ao gênero carta, como também, de igual forma, dominava os aspectos formais inerentes à escrita de poemas. Como afirmou Georgina Sabat Rivers, os poemas de Sor Juana possuem uma alta expressão pessoal, uma mescla de saudações amistosas, um exercício de composição formal primorosamente trabalhado.
Sem forçar nas rimas e nas acentuações, Sor Juana soube escrever poemas que denunciavam a conduta contraditória dos governantes de seus dias. Fez abundante uso da mitologia, criou forte tensão ao entrelaçar ritmo e vocabulário adequado.
No poema ―En perseguirme, Mundo, ¿qué interesas?‖, o eu lírico, valendo-se dos recursos formais a sua disposição, faz surgir o espírito crítico encontrado nas duas cartas. As ideias da Carta ―Respuesta‖ são notórias no poema. Sor Juana, por meio de vocabulário específico, criou uma sonoridade agradável ao formar a rima perfeita e, ao formá-la, fez com que seu escrito tornasse belo à vista de seus leitores. Mostrou, ao usar a aliteração, o ruído seco, conflituoso emitido pela conduta equivocada de seus líderes. É por meio desses aspectos formais que ela, claramente, questiona o sistema vigente em seus dias, ao afirmar, peremptoriamente, que sua única ambição era ignorar menos, era colocar beleza em seu entendimento, era fazer parte do mundo da reflexão e isso ela afirma, por meio de uma curva melódica ascendente, sem se deixar intimidar pelas pressões sociais. Ela, nesse soneto, desprezou a efemeridade da beleza física para honrar a eternidade da beleza que se encontra nas ideias. Sabendo que o tempo deixa suas marcas na mente, ela absteve-se das questiúnculas da vida. Utilizou o contraste
caro ao barroco para mostrar a oposição existente entre os gêneros feminino e masculino e o fez por meio de uma dialética ordenada e progressiva, explorando, em um soneto, as contradições humanas e utilizando uma linguagem permeada por antíteses, paradoxos, etc.
Em ―¡Oh famosa Lucrecia, gentil dama‖, o eu lírico lança mão de uma figura histórica mitológica para repudiar a ação descabida de um homem que, movido por suas paixões, procurou manchar a honra de uma dama imaculada, tentando corromper o incorruptível. Além disso, ela prova que – naquela ocasião, como em seus dias – o homem apresentou-se como um verdadeiro insano, enquanto Lucrécia – assim como Sor Juana – permaneceu com sua sanidade intacta no momento mais agudo de sua existência. Para a monja, Lucrécia imortalizou-se na história como exemplo de luta pela liberdade, ao tirar a própria vida e isso ela assevera por meio da curva melódica que aponta para o horizonte longínquo. Sor Juana usa e abusa dos recursos gramaticais e faz com que seus leitores sejam envolvidos pelo soneto, ainda que não tenham consciência do porquê. Aqui, mais uma vez, assinalamos que esse soneto revela os mesmos ideais encontrados na Carta ―Respuesta‖; aliás, como vimos, Lucrécia foi citada na carta. Na Carta ―Respuesta‖, Sor Juana soube criar a ironia, a contradição, ao fazer com que o que dizia se opusesse à forma. Nesse soneto, da mesma maneira, ela conseguiu escrever sobre um assunto sombrio utilizando uma vastidão de vogais abertas, do que depreendemos que não somente somos remetidos à Carta ―Respuesta‖ pelo tema do soneto, como, também, somos a ela enviados pela forma.
Em ―Hombres necios que acusáis‖, um poema extenso, o eu lírico sorjuanino é direto, objetivo, pois inquire os homens, para verificar se eles têm respostas sólidas, que justifiquem suas ações preconceituosas, as quais serão sempre repudiadas com veemência pela humanidade. Nesse poema, fica evidente que os homens estavam agindo segundo os ditames de suas emoções, não sendo suas atitudes fruto de uma reflexão sadia. Sor Juana, nesse poema, mostra-se perplexa diante da incoerência da vida. O poema é uma evidência de que o que ela requereu na Carta ―Respuesta‖ não era nada mais, nada menos do que aquilo que ela acreditava ser a expressão do direito: a liberdade para todos os gêneros. Essa evidência presente no texto se dá por meio de rimas, por meio de recorrências de certos vocabulários, por meio da curva melódica que está em um constante ascender.
Em ―¡Válgame Dios! ¿Quién pensara‖, o eu lírico, ao louvar a sapiência de seu interlocutor, prova, mais uma vez, que Sor Juana é merecedora do epíteto: Sor Juana, a erudição em pessoa. O eu lírico prova que Sor Juana não somente era perita com as palavras deitadas no papel em forma de carta, como também o era em forma de poesia. Assim, ela mostrou que sabia exercer a crítica por meio dos dois gêneros literários. Sor Juana, nesse poema, à semelhança da carta, defendeu a liberdade das mulheres quando, novamente, exalta algumas delas: Corina, Minerva, Cenobia. Desprezou o adorno exterior. Exercitou a reflexão ao afirmar, ironicamente, que seus poemas, comparados com os poemas de Veiga, não passavam de delírios disformes. Provou que teve acesso aos textos que marcaram a história da intelectualidade humana e que esses textos apresentavam inúmeras mulheres participando ativamente na produção dos saberes.
Percorremos o caminho proposto para nosso estudo e tentamos, de alguma forma, inserir o leitor e a leitora no ambiente da discussão. Explicitamos os obstáculos que procuravam abafar a voz feminina no Vice-Reinado da Nova Espanha, conjecturamos a respeito das causas prováveis da polêmica, analisamos os objetos que geraram a polêmica – o Sermão do Mandato e a Carta Atenagórica –, apresentamos a Carta de Sor Filotea e analisamos a Carta ―Respuesta‖ e os quatro poemas mencionados.
Além disso, mostramos que Sor Juana, por meio da Carta Atenagórica, provou que era possível construir um texto diferente daquele escrito por Vieira, o Sermão do Mandato; provamos que a Carta de Sor Filotea de La Cruz nada mais foi que uma tentativa de silenciar aquela que nasceu para denunciar; alcançamos nosso desígnio ao analisarmos a Carta ―Respuesta‖ e mostrarmos que, em última instância, ela é uma defesa da liberdade de pensar do gênero feminino.
Analisamos também os poemas ―En perseguirme, Mundo, ¿qué interesas?‖, ―¡Oh famosa Lucrecia, gentil dama‖, ―Hombres necios que acusáis‖ e ―¡Válgame Dios! ¿Quién pensara‖, podendo, enfim, concluir e comprovar que a Carta ―Respuesta‖ não é apenas um texto que surge por causa de uma circunstância histórica pessoal: ela, Sor Juana, expressa, nessa carta, idéias que já havia sustentado, pelo menos nesses quatro poemas analisados.
Afirmamos que tanto a Carta ―Respuesta‖, como os quatro poemas possuem conteúdos, notadamente, filosóficos e que as ideias que Sor Juana Inés de La Cruz
defendeu diante dos doutos da Igreja Católica, desde sempre, estiveram grafadas em suas produções, fossem elas profanas ou sagradas.
Chegamos ao final de nosso trabalho com uma certeza: nossa hipótese tornou-se fato. A Carta ―Respuesta‖ não é só um texto que Sor Juana Inés de la Cruz escreveu por causa de uma circunstância histórica pessoal. Trata-se de um texto em que ela desenvolveu um conceito que já havia sustentado nas obras poéticas e ensaísticas analisadas, a saber, a liberdade de reflexão feminina. Sor Juana sustentava que as mulheres deveriam participar ativamente da produção do conhecimento, sem constrangimento de quem quer que fosse. Acreditava que a voz feminina não deveria continuar na marginalidade, não deveria continuar sendo objeto da manipulação da voz masculina.
Assim, nosso estudo ganha relevância social quando nos permite asseverar que Sor Juana Inés de la Cruz se consagra na história da saga humana como mais uma que lutou com todas as forças e com muita coragem contra a violência e a opressão exercidas sobre o gênero feminino. Violência e opressão que, ainda em nossos dias, insistem em subjugar as mulheres, persistem em fazer com que elas permaneçam à margem da sociedade. Violência e opressão que continuam, a todo custo, a silenciar a voz daquelas que nasceram para falar, daquelas que, como escreveu Marta Baião, devem gritar, devem falar mesmo sem precisar, devem falar muito, devem falar até pelos cotovelos, devem despejar sem dó tudo que calou, devem falar sem medo.
Concluímos afirmando que acreditamos que a figura histórica e literária de Sor Juana continuará merecendo inúmeros estudos críticos ao longo dos séculos vindouros em todo lugar que preza a intelectualidade. O que aqui registramos é apenas o princípio dessa longa caminhada, uma vez que ansiamos prosseguir em nossos estudos dessa vasta produção sorjuanina e, apenas para aguçar o leitor, informamos que, na próxima etapa, nos debruçaremos sobre as peças teatrais escritas por ela, Sor Juana Inés de la Cruz.
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