ChApTEr 7: ArTEmIS – goddESS of hunTIng
7.1 IMAGES OF DOMESTIcATED ANIMALS / HUMANS AND
Todos esses aspectos que envolvem as dimensões espaço-temporais construídas por Cervantes em Dom Quixote e, especiamente, o jogo do olhar e ser olhado, bem como as aproximações entre espectador/leitor investidos de teatralidade, ao que se refere Féral, ou que Sinisterra transporta para o campo literário, estão presentes nas narrativas do cavaleiro manchego e seu escudeiro. Tudo isso, em uma linguagem filosófica, aparece nos estudos feitos por Michel Foucault em que o representar está definido em seu livro As palavras e as coisas a partir da escrita de Dom Quixote.
Para Foucault, a personagem dom Quixote vive em um limiar da linguagem; o limite entre a razão e a desrazão, pois, embora o fidalgo Alonso Quijana pareça ter perdido o juízo, no que se refere às histórias cavalheirescas, em outros momentos ele se apresenta o mais lúcido possível. "Dom Quixote não é o homem da extravagância, mas antes o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude. Ele é o herói do Mesmo" (FOUCAULT, 2000, p. 63). Dom Quixote, para Foucault, é uma personagem que busca no seu cotidiano e na paisagem que lhe é comum as "marcas da similitude" com os livros de cavalaria que ele tanto leu; peregrina a fim de se deparar com aventuras similares àquelas que leu e, também, encontrar locais que se assemelhem aos dos livros, que não é outro lugar, senão o que lhe é familiar, como ele descreve.
Assim como de sua estreita província, não chega a afastar-se da planície familiar que se estende em torno do Análogo. Percorre-a indefinidamente, sem transpor jamais as fronteiras nítidas da diferença, nem alcançar o coração da identidade.44
A personagem de dom Quixote, como bem observa Foucault, por mais errante, pela sua imaginação busca a similaridade com os livros de cavalaria e, na verdade, vive todas suas desventuras por regiões familiares. Ele só consegue inferir relações entre o lugar e os livros de cavalaria porque é conhecedor de ambos, sendo esse o fio condutor de sua teatralidade. Por mais que seu caminho não seja previamente planejado, como informa Foucault, ele procura
43 Sobre anacronia em Dom Quixote, ver Capítulo 2 desta dissertação. 44 FOUCAULT. As palavras e as coisas, 2000, p. 63.
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não transpor os limites que o separam do desconhecido, permanecendo nos limites da identidade.
Cervantes constrói toda a narrativa com as aventuras do cavaleiro em locais que, de alguma forma, as aproximavam do leitor de sua época. Esse artifício de situar a trajetória por locais comuns àqueles que viessem a ter conhecimento da obra seja através da leitura ou da oralidade traz um efeito de identificação, um agente de teatralidade na narrativa. Talvez Cervantes não prevera que sua obra, assim como sua personagem, transporia fronteiras e alcançaria o imaginário ocidental.
De qualquer forma, mesmo em nossa atualidade, a descrição feita por Cervantes dos locais e o período em que se situa o cavaleiro manchego são tão ricos em detalhes que, mesmo sem conhecê-los, é possível ao leitor criar cenas referentes a esse universo tão distante.
Sobre aquilo que se vê, como um desdobrar-se sobre si mesmo, a trajetória de dom Quixote provoca o espectador/leitor para que ele veja algo a mais do que os olhos alcançam; algo que ele consegue inferir a partir da semelhança com o real; algo que também pode ser chamado de teatralidade e, assim, Foucault, em um dos trechos do capítulo intitulado Representar, aponta o seguinte:
A idade do semelhante está fechando-se sobre si mesma. Atrás dela só deixa jogos. Jogos cujos poderes de encanto crescem com esse parentesco novo da semelhança com a ilusão; por toda a parte se desenham as quimeras da similitude, mas sabe-se que são quimeras; é o tempo privilegiado do trompe-l
oeil, da ilusão cômica, do teatro que se desdobra e representa um teatro, do quiproquó, dos sonhos e visões; é o tempo dos sentidos enganadores; é o tempo em que as metáforas, as comparações e as alegorias definem o espaço poético da linguagem.45
O autor, então, relaciona os jogos que têm o poder de encantar com a ilusão cênica, ou seja, um tempo em que aquilo que se vê é mais do que sua aparência revela, da mesma forma como é o olhar do espectador/leitor sobre aquilo que se vê/lê. O objeto que é visto é o que ele pensa, imbricado de metáforas e alegorias que, por sua vez, serão vistas ou lidas no espaço poético da linguagem, nesse caso, exemplificado pela obra Dom Quixote.
Aquilo que é visto passa também a se desdobrar, em outros sentidos duplos ou múltiplos –, jogos possíveis da linguagem literária ou teatral. Constróem-se relações e instaura-se, por assim dizer, uma teatralidade entre olhares, um universo de signos.
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Ao se tornar um representador, ator, diretor e, até mesmo, dramaturgo, dom Quixote conduz o olhar do leitor para esse novo mundo criado por ele. Enquanto Cervantes descreve locais comuns do século XVII – como vendas e hospedarias – o cavaleiro manchego mostra ao espectador/leitor cenários medievais possíveis somente nas aventuras cavalheirescas imaginárias, pelas quais se enveredara. Em Dom Quixote, Cervantes cria um jogo em que o leitor se transforma em espectador e, por vezes, se identifica com a própria personagem principal.
Na segunda parte (1615) das aventuras do engenhoso fidalgo, dom Quixote se depara com uma publicação do primeiro livro, a qual narra todas as suas itinerâncias da primeira e da segunda saídas pela Mancha. Nesse episódio, ele passa de significante a significado, se tornando o próprio signo a exemplo do que narra Gabriel Baltodano Román.
Já na segunda parte, o esforço de Dom Quixote se transforma. Não importa demonstrar que os livros e a realidade são um mesmo, o que interessa agora é mostrar uma atitude condescendente com a nova natureza que a personagem assimilou como sua: ser obra de arte, história feita com palavras.46
De acordo com Román, a personagem dom Quixote não tem mais a necessidade de demonstrar que aquilo que está escrito nos livros de cavalaria pode ser encontrado na vida real, o que importa para ele é se apresentar de acordo com o livro que se tornou e, dessa forma, produzir o efeito de reconhecimento das demais personagens e leitores da obra, entre jogos de encanto, ilusão e realidade.
Foucault já discorrera sobre a personagem dom Quixote assumir sua realidade através desses jogos de encantamento entre autor/personagens/leitor, como se pode ver na citação seguinte:
Entre a primeira e a segunda parte do romance, no interstício desses dois volumes e somente pelo poder deles, Dom Quixote assumiu sua realidade. Realidade que ele deve somente à linguagem e que permanece totalmente interior às palavras. A verdade de Dom Quixote não está na relação das palavras com o mundo, mas nessa tênue e constante relação que as marcas verbais tecem de si para si mesmas. A ficção frustrada das epopeias tornou-se no poder representativo da linguagem. As palavras acabam de se fechar na sua natureza de signos.47
46 ROMÁN. Rasgar el Telón Devela Umbrales (apuntes a propósito de la teatralidad presente en el Quijote), 2005, p. 7-8, tradução minha. "Ya en la segunda parte, el esfuerzo de Don Quijote se transforma. No importa demostrar que los libros y la realidad son uno mismo, lo que interesa ahora es mostrar un actitud condescendiente con la nueva naturaleza que el personaje ha asimilado como suya: ser obra de arte, historia hecha con palabras."
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Para Foucault, no intervalo de um tomo para o outro, dom Quixote passa de produtor de ilusão tanto para as demais personagens da obra quanto para os leitores para o representante do real, da escrita que se desdobra sobre si mesma; ele se assemelha à própria obra, já que agora deve representar aquilo que foi escrito sobre si. Tornou-se signo e realidade, simultaneamente.
Esse desdobramento que pode ser visto no segundo tomo de Dom Quixote é definido por Román como um procedimento que "[...] através de sua ação, se multiplicam os planos e se alcança a ilusão de realidade"48 (ROMÁN, 2005, p. 8, tradução minha). Esse procedimento, ao ser usado em uma obra literária, acaba por imbricá-la de teatralidade, pois ele propõe um jogo do "olhar e ser olhado" entre espectador/leitor e obra, em que os papéis se confundem, e tanto um quanto o outro podem assumir uma das posições.
Na obra cervantina, se encontram artifícios similares em algumas passagens, como nos casos da narrativa envolvendo a história da pastora Marcela e do capitão cativo em que, no momento no qual ocorrem as narrativas, a história do cavaleiro manchego é deixada momentaneamente de lado e personagens e leitores são convidados a serem ouvintes testemunhas de outras histórias, inclusive o próprio dom Quixote.49
Esse efeito de desdobramento, conferindo teatralidade à obra, é ainda mais intenso no momento em que ele utiliza o duplo do autor, efeito teatral definido por Pavis.50 Essa duplicação do autor/narrador, que se funde também com a "existência" da personagem dom Quixote trazendo teatralidade para a obra, foi tão intensa que reverberou para que Miguel de Unamuno escrevesse um livro denominado Vida de Don Quijote y Sancho, según Miguel de Cervantes Saavedra, explicada y comentada por Miguel de Unamuno51. Nele, Unamuno propõe um dom Quixote para além da própria imaginação de Cervantes, considerando-o uma personagem que poderia ter existido de fato e que teria uma grande complexidade, como se pode ver a partir do relato de Costica Bradatan: "na opinião de Unamuno, um personagem como Dom Quixote é uma criatura muito complexa, profunda e autêntica para ser simplesmente o produto da imaginação de alguém. Menos ainda da imaginação de Cervantes" (BRADATAN, 2008, p. 249).
É importante recordar que a personagem dom Quixote povoa o imaginário popular durante quatro séculos, e o fato dessa história fazer parte não só da escrita da imagem, bem
48 "[...] a través de sua acción, se multiplican los planos y se alcanza la ilusión de realidad."
49 Essa mudança de narrativas proposta aqui é tratada no Capítulo 2 desta dissertação, em que se aborda a presença de anacronia em Dom Quixote.
50 Cf. a citação n° 15 completa nas páginas 17-18.
51 A vida de Dom Quixote e Sancho de acordo com Miguel de Cervantes Saavedra, explicada e comentada por
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como também da oralidade, propicia que as pessoas se questionem quanto à real existência dessa personagem aurática. Ao afirmar em seu texto "Narrativa como Imitatio Dei em Miguel de Unamuno" que "[...] para Unamuno, Dom Quixote adquiriu tal grau de sólida realidade e inconfundível ‘concretude’ que pode perfeitamente ser considerado um hombre de carne y hueso [...]" (BRADATAN, 2008, p. 251), Costica Bradatan faz uma reflexão em que explica o que seria, para Unamuno, uma existência de algo (ou alguém) dentro da realidade.
De maneira interessante, ao estabelecer se alguém existe ou não autenticamente, como um ‘homem de carne e osso’, Unamuno faz uso de um critério pragmático: operari sequitur esse (‘a ação segue o ser’), um princípio de acordo com o qual se pode dizer que alguma coisa, ou alguém, existe na medida em que produz efeitos visíveis e duradouros sobre o mundo circundante e/ou sobre as mentes de seus próximos, seja no presente ou no futuro: ‘só o que age existe e o que existe está agindo; se Dom Quixote influencia aqueles que o conhecem, e produz obras vivas, então Dom Quixote é muito mais histórico e real que todos esses homens, sombras com nomes, que se admiram com... as crônicas...’ (Unamuno, 1967: III, 131). Enquanto tais, as pessoas que aparentemente viveram algum tempo atrás, inclusive aquelas cujos nomes podemos ainda encontrar mencionados em documentos e arquivos históricos, não existem realmente se elas não afetam, de uma maneira séria, nossas vidas, destinos e maneiras de pensar. Elas são meramente ‘sombras com nomes’, sem qualquer realidade ou significado que seja se não acrescentam alguma coisa a nossas vidas e não significam alguma coisa para nós. O esquecimento é nossa maneira de puni-las. Por outro lado, existem aquelas figuras do passado que estão ainda moldando e alimentando fortemente nossas vidas, aquelas que – de uma maneira ou outra – estão ainda influenciando nossas ideias e teorias, nossos ideais e maneiras de viver. Neste processo elas são, de acordo com Unamuno, trazidas à verdadeira existência.52
Bradatan faz uma análise interessante sobre o pensamento de Unamuno, em que aquilo que é capaz de produzir efeitos "visíveis e duradouros" no mundo ao seu redor e nas mentes que ocupam um lugar no mundo, tanto no agora como no porvir, é considerado como real. Unamuno, então, a partir do que ela analisa, coloca a personagem dom Quixote como influente no desenvolvimento do pensamento humano e, por isso, é tão real quanto qualquer personagem histórica.
Essa duplicação entre autor e narrador traz tanta teatralidade à obra, que Miguel de Unamuno não considera esse um artifício literário de Cervantes, pelo contrário, ele o tem como uma realidade disfarçada.
Não há dúvida de que no Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha Miguel de Cervantes Saavedra exibe um gênio muito acima do que poderíamos ter esperado dele em vista de suas outras obras... De modo que
52 BRADATAN. Deus está sonhando você: narrativa como Imitatio Dei em Miguel de Unamuno. In Princípios, Natal, v. 15, n. 24, jul./dez. 2008, p. 251.
40 podemos razoavelmente acreditar que o historiador árabe Cide Hamete Benengeli não é simplesmente um artifício literário, mas antes encerra uma profunda verdade, a qual é que a história foi ditada a Cervantes por outro homem... o relato era real e verdadeiro, e... o próprio Dom Quixote, disfarçado como Cide Hamete Benengeli, ditou a narrativa a Cervantes.53
Miguel de Unamuno, então, acredita que o autor árabe citado na obra transcende o artifício literário do desdobramento do autor em narrador, tendo, de alguma forma, "ditado" a história para Cervantes. Tem-se aí, então, uma consequência da força da teatralidade. Cervantes tece tão bem seu desdobramento na obra que a ilusão se assemelha com a realidade, e seu leitor se vê no limiar desses dois lugares; ele olha e é olhado, é realidade e ficção.
Ao criar a personagem dom Quixote, Cervantes cria também uma duplicidade entre ela e a obra. Ao se pronunciar Dom Quixote já não há mais distinção entre um e outro, são uma mesma coisa, embora tenham suas particularidades. Se para Unamuno dom Quixote é real, para Foucault, a verdade é que obra e personagem se tornaram signos literários, como ele mesmo descreve:
Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros. Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. É feito de palavras entrecruzadas; é escrita errante no mundo em meio à semelhança das coisas. Não porém inteiramente: pois, em sua realidade de pobre fidalgo, só pode tornar-se cavaleiro, escutando de longe a epopéia secular que formula a Lei.54
A partir dessa descrição de Foucault, não se sabe ao certo se ele está se referindo à personagem ou à obra. Ele faz coincidir ícone e escrita, terminando sua reflexão com a personagem Alonso Quijana. De qualquer maneira, é interessante notar que ele afirma que a obra (e a personagem) é feita de palavras entrecruzadas, que se desdobram em múltiplos significados. Embora ele diga que Dom Quixote é uma história já transcrita, ele ainda é história que se renova, já que acaba por ser constantemente recriada através de inúmeras montagens, cada qual com sua visão dessa personagem ímpar que é dom Quixote.