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ChApTEr 8: ThE Body And BordErS

8.1 PERSONAL VOTIVE GIFTS

2.2.2 O soldado Saavedra e o capitão Ruy Pérez em um romance bizantino

Miguel de Cervantes Saavedra nasceu na Espanha no ano de 1547, já no período denominado, a posteriori, pelos historiadores, como sendo a Idade Moderna. O momento de transição entre a Idade Média e a Moderna seria o ano de 1453, ano que marca a queda de Constantinopla pelo Império Otomano103. Embora Cervantes tenha nascido quase cem anos

após a queda de Constantinopla, consequentemente quase cem anos após o fim da Idade Média, essa transição marca profundamente sua vida, inclusive refletindo na história do cavaleiro manchego.

Na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, os reinos cristãos do Sul da Europa passaram a promover grandes investidas militares contra o Islã. A guerra pela reconquista da Península Ibérica estava entre essas investidas. No entanto, os muçulmanos ainda conseguiram exercer grande influência sobre o Mediterrâneo por muitas décadas. Aquela que ficou conhecida como a batalha final contra o domínio islâmico sobre o Mediterrâneo foi a Batalha de Lepanto, de 1571.104

A batalha travada no mar de Lepanto, como descreve Fernandes, marca o final do domínio islâmico sobre o Mediterrâneo. Assim como diversas outras batalhas, essa tinha tudo para ser apenas mais um marco na história da humanidade; mais um momento de transição; porém, a bordo do navio espanhol La Marquesa, liderado por Diego de Urbina, segundo o que informa Canavaggio, estava Miguel de Cervantes Saavedra.

[...] duzentos remadores, em sua maioria prisioneiros de guerra ou condenados a trabalhos forçados; cerca de trinta marinheiros dedicados à navegação e à manutenção e, por último, uns duzentos soldados, entre os quais se encontra um arcabuzeiro de primeira viagem que um dia escreverá

D. Quixote.105

Como se pode ver através das palavras de Jean Canavaggio, o autor de Dom Quixote lutou como soldado em uma das principais empreitadas contra o Império Otomano, e ele não era o único membro da família Saavedra: "[...] seu próprio irmão Rodrigo desembarca na Itália em julho de 1571, já incorporado à companhia de Diego de Urbina. E será justamente sob as ordens de Urbina que os dois irmãos combaterão em Lepanto" (CANAVAGGIO, 2005, p. 63-64).

103 FERNANDES, Cláudio. Queda de Constantinopla em 1453; Brasil Escola. Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/historiag/queda-constantinopla-1453.htm>. Acesso em: 12 set. de 2017.

104 FERNANDES, Cláudio. Batalha de Lepanto; Brasil Escola. Disponível em: <http://guerras.brasilescola.uol.com.br/seculo-xvi-xix/batalha-lepanto.htm>. Acesso em: 12 de set. de 2017. 105 CANAVAGGIO, Jean. Cervantes, 2005, p. 66.

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A batalha de Lepanto se torna um marco tão importante na vida de Cervantes que ele a insere na obra através do capitão Ruy Pérez de Viedma. Essa personagem é criada como um capitão da armada espanhola que luta, a exemplo de Cervantes, na batalha de Lepanto, como se pode ver:

[...] digo que estive naquela campanha gloriosa, já como capitão de infantaria, a cujo honroso posto me elevou minha boa estrela, mais que meus méritos. Naquele dia tão feliz para a cristandade, porque o mundo e todas as nações descobriram o erro em que estavam acreditando que os turcos eram invencíveis no mar, digo, naquele dia em que o orgulho e a soberba otomanos foram dobrados, entre tantos homens felizes [...]106

Nesse trecho, Cervantes insere um sentimento que corresponde à nação cristã naquele momento e, eventualmente, até mesmo seu, por ter participado dessa vitoriosa empreitada. Porém, é nessa mesma batalha que ele sente na pele as marcas da guerra. A empreitada que ele fez parte foi contra a frota de Ali Pachá, formada, de acordo com Canavaggio, por um grande efetivo: "[...] 250 galés com 90 mil homens a bordo" (CANAVAGGIO, 2005, p. 66). Cervantes é atingido brutalmente em um sangrento combate corpo a corpo e, por pouco, não é abatido fatalmente; mas tem sua mão esquerda atingida gravemente. Segundo relato de Canavaggio, o combate corpo a corpo se torna gigantesco.

[...] 60 mil soldados se enfrentarão durante três horas. ‘A batalha foi neste ponto tão sangrenta e terrível  escreve uma testemunha ocular  que se pudera dizer que o mar e o fogo eram um.’

[...] É nessa ocasião que Cervantes recebe os três tiros de arcabuz que serão, para ele, seu mais belo título de glória. Os dois primeiros, explica um de seus companheiros, o atingiram no peito; o terceiro inutilizou sua mão esquerda [...]

Assim nasceu o maneta de Lepanto, no exato momento em que o combate, graças à superioridade da infantaria espanhola, começava a se definir em favor dos coligados.107

Como se pode perceber no relato de Canavaggio, a batalha é violentíssima e traz graves consequências físicas a Cervantes. Felizmente, nenhuma delas impossibilitou que ele viesse a se tornar um dos maiores expoentes da literatura mundial. No entanto, consta em sua breve biografia aspectos muito contundentes, como se pode ver na síntese de Bloom:

Teve a vida mais atribulada entre os grandes escritores. Na batalha naval de Lepanto, foi ferido e, então aos 24 anos, teve a mão direita inutilizada. Em 1575, foi capturado por piratas, e durante cinco anos foi escravo em Argel.

106 CERVANTES. Dom Quixote, v. 1, cap. XXXIX, 2012, p. 483. 107 CANAVAGGIO, Jean. Cervantes, 2005, p. 68.

75 Resgatado em 1580, foi espião da Espanha, em Portugal e Oran, voltando depois a Madri, onde tentou seguir carreira de dramaturgo, quase sempre fracassando, mesmo tendo escrito quase vinte peças teatrais. À beira do desespero, tornou-se arrecadador de impostos, mas foi acusado e condenado por sua suposta má conduta, em 1597. E esteve preso novamente, em 1605; consta que teria começado a escrever Dom Quixote na prisão. A primeira parte, escrita em ritmo incrivelmente acelerado, foi publicada em 1605. A segunda parte, provocada pela continuação espúria do romance por um tal Avellaneda, foi publicada em 1615.

Vítima do editor que lhe roubou todos os direitos autorais pertinentes à primeira parte de Dom Quixote, Cervantes teria morrido na miséria, não fosse um nobre, homem discernente que amparou o escritor em seus últimos três anos de vida.108

Ao criar, dentro de Dom Quixote, a história do capitão Ruy Pérez, Cervantes une duas passagens marcantes de sua vida que ocorreram em momentos distintos. A primeira, como já visto, é a batalha de Lepanto, que lhe deixou sequelas na mão esquerda. A segunda se trata de seu cativeiro em Argel. Em Dom Quixote, o referido capitão é feito cativo e usado como refém, assim como ocorrera também com Cervantes. Além da narrativa que conta a história do capitão cativo, Cervantes ainda escreveu, como informa Canavaggio, duas peças teatrais tratando do assunto: El trato de Argel e Los baños de Argel (CANAVAGGIO, 2005, p. 92).

Após ter lutado na sangrenta batalha de Lepanto (1571), Cervantes passa por um período de recuperação referente aos ferimentos que sofreu e consegue liberação para retornar à Espanha; porém, o navio em que embarcou nunca chegou a seu destino. Canavaggio relata que a embarcação em que estavam Cervantes e seu irmão Rodrigo foi atacada por corsários liderados pelo albanês Arnaut Mami, no intuito de os assaltarem e, também, os aprisionarem para vendê-los como escravos. Segundo o seu relato, os espanhóis tentam resistir ao máximo ao ataque, mas o desfecho é desfavorável a eles como se pode ver.

Os espanhóis não se rendem, resistindo aos assaltantes por várias horas, e muitos deles, o capitão inclusive, morrem durante o combate. Por fim, vencidos pela esmagadora diferença numérica, os sobreviventes são transferidos, de pés e mãos atados, aos navios berberes. Mal a operação terminou, o resto da flotilha cristã aparece no horizonte, obrigando os corsários a abandonar o navio capturado e a fugir às pressas com seus prisioneiros. Três dias depois, as galés de Arnaut Mami avistam Argel:

Cuando llegué cautivo y vi esta tierra tan nombrada en el mundo, que en su sueno tantos piratas cubre, acoge y cierra, no pude al llanto detener el freno...

76 diz Saavedra em El trato de Argel. O autor de D. Quixote guardará essa chegada bem gravada na memória. Mas essa não será, nem de longe, sua única lembrança do cativeiro.109

Canavaggio cita a descrição de Cervantes, na peça El trato de Argel, de como foi a primeira visão de seu cativeiro entre outras lembranças desse fatídico episódio de sua vida. Ele narra, em mais de dez páginas da biografia que escreveu sobre Cervantes, diversas situações vividas por ele e seus companheiros de cela durante os cinco anos que esteve no cativeiro de Argel, inclusive as tentativas frustradas de fuga (CANAVAGGIO, 2005, p. 89- 110).

É interessante perceber que, ao criar a personagem do capitão cativo, Cervantes está, na verdade, fazendo um relato autobiográfico do período em que serviu às armas, tanto em campo de batalha, quanto no período em que viveu no cativeiro. Ele, além de romancear essas passagens de sua vida dentro de sua obra, também traz ao leitor fatos históricos, relatos de quem presenciou passagens históricas da guerra contra o Império Otomano.

Esse artifício de romancear um fato real inserindo-o em uma obra de ficção pode parecer comum na atualidade, mas é algo novo no século XVI, sendo esse mais um traço de modernidade na literatura cervantina. Michel Riaudel fala da importância desse artifício  a conversão de um documento em obra literária  do ponto de vista da anacronia.

[...] se imaginarmos a conversão de um documento em obra, ele passa a ser lido de outra forma, projetada nele uma possibilidade potencial de novas significações. É como ler a história do Mediterrâneo de Braudel não mais pelas informações e interpretações históricas que seu autor organizou, mas descobrindo no texto virtudes e virtualidades em estado de sonolência. Um documento dorme, mas não sonha. E uma obra sonha, sonha em ser sonhada.110

Riaudel fala que a partir da conversão de um documento em obra se abre nele a possibilidade para ser resignificado. É usando desse artifício que Miguel de Cervantes constrói a história do capitão cativo. A história documental se estende além do seu tema, ela se desdobra sobre si mesma trazendo elementos literários a serem explorados. Deixa de ser apenas um documento  utilizando a metáfora criada por Riaudel , ela já não mais dorme, ela desperta para uma nova possibilidade, agora já pode sonhar em ser sonhada (RIAUDEL, 2015, p. 163).

109 Ibidem, p. 90-91.

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Assim como a história de Grisóstomo e Marcela, a narrativa do capitão cativo também deixa de lado a personagem de dom Quixote. Ele não é mais o sujeito da ação, ele deixa de ser aquele que é visto e se une com o leitor da obra, passando a ser aquele que vê. Toda a história do capitão é contada no tempo passado até chegar ao momento em que se encontra com as demais personagens da obra em uma estalagem. Bolufer descreve a narrativa do capitão cativo de maneira que se percebam digressões e, até mesmo, avanços, como recursos anacrônicos utilizados por Cervantes.

A história do cativo constitui uma analepse cujo alcance está especificado pelo protagonista: «Hoje fará vinte e dois anos que saí da casa de meu pai» (p. 475). O cativo narra seus deslocamentos até que chega à jornada da batalha de Lepanto (1571). Percebe-se uma pequena anacronia: «me vi aquela noite que seguiu a tão famoso dia com correntes nos pés e algemas às mãos» (p. 477), e depois explica como chegou a tal situação. A linearidade do relato se mantém (1572, 1573, 1574) até o momento em que o cativo menciona a dom Pedro de Aguilar, o que produz uma interrupção por parte do auditório:

 Antes que vossa mercê siga adiante, lhe suplico que me diga o que ocorreu a esse dom Pedro de Aguilar que mencionou [p. 482]

O cativo tem que deixar de narrar sua vida para referir-se à da outra personagem. Se produz então uma pequena antecipação de três anos em relação ao momento do relato no qual este foi interrompido (p. 482). Um dos cavaleiros que está escutando a história do cativo acaba por ser irmão do tal Pedro de Aguilar e realiza um novo salto até o futuro, já que nos conta a situação atual («agora», p. 482) de seu irmão. O cativo reinicia seu relato de onde parou: «dali a poucos meses morreu meu amo Uchalí» (p. 482). Depois de uma digressão do narrador sobre os nomes árabes, este realiza um pequeno relato e biografia da personagem morta, o que supõe uma analepse (p. 484). Na distribuição dos escravos após a morte de Uchalí, o cativo se vê sob as ordens de um renegado veneziano, cuja aparência supõe também outra analepse (pp. 484-485). A partir do momento em que o protagonista se vê confinado nos banhos, o relato caminha seguindo uma linha cronológica, interrompida por pequenas digressões no presente sobre os costumes árabes. A retrospecção do cativo chega até o momento do relato primário em que começou a narração do protagonista (analepse completa).111

111 JUAN BOLUFER. Orden, Velocidad y Frequencia en la Narración del Quijote de 1605, 1989, p. 590-591, tradução minha. "La historia del cautivo constituye una analepsis cuyo alcance está especificado por el protagonista: «Éste hará veinte y dos años que salí de casa de mi padre» (p. 475). El cautivo narra sus desplazamientos hasta que llega a la jornada de la batalla de Lepanto (1571). Se percibe una pequeña anacronía: «me vi aquella noche que siguió a tan famoso día con cadenas a los pies y esposas a las manos» (p. 477), y después explica cómo llegó a tal situación. La marcha lineal del relato se mantiene (1572, 1573, 1574) hasta el momento en el que el cautivo menciona a don Pedro de Aguilar, lo que produce una interrupción por parte del auditorio: —Antes que vuestra merced pase adelante, le suplico me diga qué se hizo ese don Pedro de Aguilar que ha dicho [p. 482]. El cautivo tiene que dejar de narrar su vida para referirse a la del otro personaje. Se produce entonces una pequeña anticipación de tres años con respecto al momento del relato en el que éste se truncó (p. 482). Uno de los caballeros que está escuchando la historia del cautivo resulta ser hermano del tal Pedro de Aguilar y realiza un nuevo salto hacia el futuro, ya que nos cuenta la situación actual («ahora», p. 482) de su hermano. El cautivo reanuda su relato donde lo dejó: «de allí a pocos meses murió mi amo el Uchalí» (p. 482). Tras una digresión del narrador sobre los nombres árabes, éste realiza un pequeño relato y biografía del personaje muerto, lo que supone una analepsis (p. 484). En el reparto de los esclavos tras la muerte del Uchalí, el cautivo se ve a las órdenes de un renegado veneciano, cuya semblanza supone también otra analepsis (pp. 484- 485). A partir del momento en el que el protagonista e ve confinado en los baños, el relato camina siguiendo una línea cronológica, interrumpida por pequeñas disgresiones en presente sobre las costumbres árabes. La

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Nota-se, a partir do que descreve Bolufer, que Cervantes vai criando camadas narrativas dentro de uma narrativa principal com recursos de regressão e avanço dentro da mesma história. A exemplo do que propõe Riaudel, como já visto anteriormente, vão aparecendo no texto histórico elementos que não estavam evidentes, já que o foco estava na história principal. Constrói-se, portanto, uma narrativa anacrônica.

Com base no que escreve Canavaggio, o caráter histórico e autobiográfico é tão grande na narrativa do capitão Ruy Pérez que se pode imaginar que o relato do cativo sobre as circunstâncias do seu cativeiro seja, de fato, o relato do soldado Cervantes, de como estava instalado naquele local e como vivera (CANAVAGGIO, 2005, p. 92-93). A descrição do cativeiro feita na obra, pelo capitão, aponta o seguinte:

[...] encerrado numa prisão ou pátio grande, que os turcos chamam 'banho', onde botam os cativos cristãos, tanto os que são do rei como alguns de particulares, e os que chamam 'do armazém', que é como dizer cativos do alcaide, que servem à cidade nas obras públicas e em outras atividades. Para esses escravos a liberdade é muito difícil, pois, como são propriedade pública e não têm dono particular, não há com quem trate o resgate, mesmo que possam pagar. Alguns proprietários da aldeia costumam levar seus cativos para esses banhos, como disse, principalmente quando são negociáveis, porque lá ficam descansados e em segurança até que seu resgate chegue. Também os cativos do rei que podem ser resgatados não vão para o trabalho com o resto do grupo, a não ser quando seu resgate demora, pois então, para que escrevam pedindo-o com mais afinco, botam-nos no trabalho, como ir cortar lenha com os demais, coisa que não é nada fácil.

Eu era um dos cativos para resgate; não adiantou nada falar que não tinha posses nem renda, pois souberam que eu era capitão e me incluíram na lista das pessoas influentes. Puseram-me um grilhão, mais como sinal de minha condição que por segurança, e assim eu passava a vida naquele pátio, com muitos outros cavaleiros e pessoas importantes, considerados e marcados como de resgate. Mesmo que a fome e a nudez pudessem nos afligir às vezes, ou quase sempre, nenhuma coisa nos afligia tanto como ouvir e ver a todo instante as mais incríveis crueldades que meu dono usava com os cristãos. Todo dia enforcava um, empalava este, cortava as orelhas daquele, tudo isso por qualquer motivo ou sem motivo nenhum, tanto que os turcos achavam que agia assim por agir, porque era sua condição natural ser um assassino em grande escala.112

Toda a narrativa construída, em que o capitão relata como eram esses "banhos" em que estava preso e os horrores que aconteciam lá, é indício, como dito por Canavaggio, de que esses fatos tenham sido vivenciados por Cervantes. Por achar tal fato importante e considerá- lo interessante para se inserir na obra e por ser possuidor de "virtudes e virtualidades", ele cria

retrospección del cautivo llega hasta el momento del relato primario en el que comenzó la narración del protagonista (analepsis completa)."

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uma personagem fictícia para narrá-lo, ao invés de se colocar como um relator do fato histórico e autobiográfico. Porém, ele não se exclui por completo da história. Canavaggio, ao informar qual o destino dos cativos, nos informa que Cervantes, a exemplo do capitão Ruy Pérez, era um cativo para resgate.

Depois de minuciosamente examinados por potenciais compradores, os cativos eram vendidos em leilão. Talvez nosso herói tenha sido poupado dessa humilhação pois, na partilha caberá ao imediato de Arnaut Mami, Dali Mami, chamado de "O Coxo". Tal privilégio se explica pelas prestigiosas assinaturas das cartas de recomendação encontradas em seu poder. Infelizmente, convencido de que tem nas mãos um personagem importante, o corsário pedirá como resgate a considerável quantia de quinhentos escudos de ouro.113

Por ter o resgate estipulado pela quantia de quinhentos escudos de ouro, como afirma esse relato, conclui-se que Cervantes, assim como sua personagem, era um cativo para resgate. O privilégio informado por Canavaggio fica ainda mais claro quando Cervantes se inclui na narrativa do capitão cativo. Na mesma sequência em que ele informa as atrocidades sofridas pelos cativos cristãos, Cervantes narra o privilégio que ele próprio possuía perante seu dono.

O único que se deu bem com ele foi um soldado espanhol, um tal Saavedra; por ter feito coisas que ficarão na memória daquela gente por muitos anos, e todas para alcançar a liberdade, ele jamais o espancou, nem mandou que espancassem, nem lhe disse um palavrão. E pela menor coisa das muitas que fez, temíamos que fosse empalado, e ele mesmo teve medo mais de uma vez; e, se não fosse porque o tempo é curto, eu contaria agora um pouco do que fez esse soldado, o que iria diverti-los e espantá-los muito mais que a narração da minha história.114

Aqui se vê um desdobramento de Cervantes em autor/narrador/personagem. Ao escrever esse relato, ele utiliza o capitão Ruy Pérez como seu interlocutor ao passo que se insere como uma das personagens da narrativa: o soldado Saavedra. Ele desdobra a personagem de forma que os fatos históricos e verídicos estejam relacionados a ele próprio,