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Sampling and periodization

A Idade Média se configura por ser uma longa e complexa época histórica de profundas mudanças geográficas, sociais, culturais, políticas e, sobretudo, econômicas. Esse tempo surge na história e substitui o mundo clássico e antigo, com todas as suas construções e instituições, seus mitos e cultura, por um novo modo de viver, de perceber o mundo real e metafísico assentado em princípios de ordem religiosa. O impacto da nova mentalidade que se estrutura ao longo de aproximadamente mil anos, atingirá também contornos sociais, religiosos e educacionais na Idade Moderna. A característica marcante do período medieval foi a passagem do modo de produção escravista (da Antiguidade greco-romana) para o novo modo de produção que predominou na Idade Média, isto é, o feudalismo. Este foi se consolidando de permeio às invasões bárbaras e à expansão muçulmana, provocando a mudança dos povos das cidades para o campo, o que constituiu o fenômeno da Ruralização. Esse movimento criou nas pessoas a necessidade de procurar proteção ao senhor do castelo, o que resultou na formação de uma sociedade agrária que era autônoma no artesanato caseiro e no comércio local mantido à base de trocas.

No que se refere às relações sociais e econômicas entre os senhores das terras e o povoado, estas são expressas sob os laços de suserania e vassalagem, o que constituiu uma sociedade aristocrática. Nas relações de produção feudal, a condição humana era determinada por sua relação com a terra, com os proprietários, com a nobreza e o clero, visto que estes tinham poder e liberdade. Em situação oposta, encontravam-se os servos da gleba, que na impossibilidade de abandonar as terras do senhor, eram obrigados a prestar serviços, em troca da sobrevivência.

O ambiente fragmentado teve na religião o elemento de agregação e de dominação ideológica e política, transformando-se de forma única e absoluta em religião universal, na vida desses povos. A herança cultural grego-latina permanece no âmbito dos mosteiros, visto serem os monges os únicos que dominavam a arte da leitura e da escrita, instrumento de acesso à cultura, que tanto nobres quanto servos não tinham. A Igreja exerceu o controle e a forte influência da educação durante o período medieval e passou a influenciar também a fundamentação dos princípios morais, políticos e jurídicos.

A Idade Média, apesar de ser considerada “Idade das Trevas” e obscura por muitos historiadores, teve inúmeros momentos de efeverscência intelectual. Nesse entendimento,

[...] é possível observar vários exemplos de atividade intelectual. Nos primeiros tempos, há o trabalho dos padres da Igreja e dos mosteiros. No século IX, com o renascimento carolíngio, fundam-se escolas e reformula-se o ensino. A partir do século XI, a burguesia comercial em ascensão provoca o reaparecimento das cidades, onde a fermentação intelectual culmina com a criação das universidades nos séculos XII e XIII. Paralelamente, desde o século VIII, a expansão do islamismo difunde a cultura árabe ( arte, ciência, filosofia), contribuindo para o enriquecimento do patrimônio cultural da Europa medieval (ARANHA, 1989, p.81).

Um dos aspectos mais importantes a ser considerado na Alta Idade Média é o renascimento carolíngio, dado que traz como objetivo a reforma da vida eclesiástica e como resultado, uma mudança no sistema de ensino. Cria-se, nesse panorama, a escola Palatina (próxima aos palácios ), fundação de escolas monacais, e de escolas catedrais (ao lado de Igrejas nas cidades) e escolas paroquiais, de nível elementar de ensino.

O currículo dessas escolas se estruturava em torno das sete artes liberais: - O Trivium, que corresponde ao ensino médio, era constituído da gramática, retórica e dialética; - O Quadrivium, referente ao que na atualidade se denomina ensino superior se estruturava em torno da geometria, aritmética, astronomia e música. Os conteúdos mais importantes

estudados eram os da gramática, objetivando uma melhor compreensão dos alunos, para a discussão dos textos sagrados.

Na Baixa Idade Média, após o período carolíngio, as invasões dos normandos, magiares e outros, provocam ainda mais atrasos, nesse período da história da humanidade. Entretanto, com a trégua destas invasões, com o incremento da navegação e do comércio, inicia-se um novo estágio redefinindo o cenário econômico e social, o que resulta no processo chamado de Reurbanização, com o desenvolvimento e, com o fortalecimento das cidades, surge uma nova classe social, a burguesia. A palavra burgo carrega um significado que se remete à castelo, casa nobre, fortaleza ou mosteiro, incluindo o seu entorno, mas com o passar do tempo os burgos se tornam cidades, cercadas e rodeadas dos servos libertos que passam a se dedicar ao comércio e chamados de burgueses. Com o desenvolvimento do comércio e a circulação das moedas, no século XI, formam-se as ligas de proteção, instauram- se as feiras e surgem os bancos.

O crescimento das cidades era sustentado pelo comércio dos burgueses, dando início às lutas de classes; os burgueses passam a lutar contra o poder do senhor feudal, e reconfiguram um espaço onde somente existia o poder do nobre e do clero, o que dá lugar também ao poder do burguês; o poder passa a ter três fontes de comando: o nobre, o clero e o burguês.

Com o surgimento de uma nova classe para dividir o poder, a educação passa por grandes transformações, visto que até então, era voltada para a formação de clérigos. Porém, nesta nova perspectiva torna-se necessário o ensino da leitura, escrita e cálculo para responder aos desafios postos pelos novos tempos. No século XII, apareceram as primeiras escolas nas cidades mais importantes, com professores leigos e nomeados pelo Estado. O currículo dessas escolas era composto pelo pragmatismo, ou seja, ancorado nas experiências da vida cotidiana. O latim foi substituído pelo ensino da língua nacional, e no lugar do trivium e quadrivium surgiram as noções sobre história, geografia e ciências naturais.

As novas escolas semearam idéias que contribuíram para uma grande revolução no ensino, cujos impactos são sentidos até nos dias atuais, visto que continuam a se digladiar no aspecto legal e no âmbito dos currículos escolares: trata-se da contestação sobre o ensino religioso, como diretriz fundamental dos princípios morais e éticos na formação da mentalidade dos alunos. Com esse raciocínio essas novas escolas passam a defender uma proposta educacional, voltada aos interesses da nova classe social em ascensão, a burguesia.

Por volta do século XIII a burguesia, contraditoriamente, divide-se em rico patriciado urbano, constituído pelos banqueiros, pequenos comerciantes e artesãos. Esse segmento burguês tenta se aproximar da classe nobre até então hegemônica e passa a defender um tipo de educação, quando a cultura passa a ser desinteressada, restando aos burgueses mais pobres, o trabalho manual, e escolas profissionais, com pouca leitura e escrita. Apesar de todas as contradições na esfera econômica, política, social e cultural pertinentes à classe burguesa, e sua luta contra o domínio dos ensinamentos religiosos no âmbito escolar, é inegável a influência do cristianismo exercida ao longo de toda a Idade Média. Sabe-se que a produção intelectual da Antiguidade se evidencia extremamente diferente do modo de pensar do cristianismo. Grosso modo, ao intelectualismo e ao naturalismo gregos se opõe o espiritualismo cristão. Não existia para os gregos antigos a noção de Criação, e nem de Providência Divina. Na visão de Platão e Aristóteles, Deus se expressa por ser um princípio ordenador, impessoal e indiferente ao destino humano. Em contrapartida, os cristãos relacionam os valores do mundo aos valores espirituais, considerando a vida após a morte, sendo que as idéias sobre o mal e o pecado se tornam o fio condutor desses preceitos e crenças.

Os monges em contato com o pensamento filosófico da Antiguidade, tiveram medo de que os fiéis fossem influenciados por tais idéias, e que mudassem o rumo de sua fé. Então, lentamente, foram fazendo adaptações dessa rica produção intelectual e cultural à fé cristã, ao novo modelo de homem e sociedade que já começava a se constituir. Era necessário demonstrar que a fé era mais importante e superior do que a razão, a qual era apenas um meio, um procedimento para se poder compreender os preceitos morais e cristãos e, por isso, a necessidade de sistematização da nova filosofia cristã.