O período Socrático (séculos V - IV a.C.) é fortemente assinalado pela influência do pensamento filosófico de três grandes filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates (470- 399) a.C. foi um filósofo ateniense que se tornou o grande patrono da filosofia. Segundo Cambi (1999, p. 88) era uma figura desinteressada e era impelido por uma grande motivação ético-antropológica, “que libera as consciências com seu diálogo e que depois universaliza e radicaliza seu pensamento, que nessa época de despertar interior e de libertação do indivíduo se choca com o poder político e religioso da Pólis, até que esta o condena à morte por corromper as consciências e os jovens”. Sócrates se posicionou contra a educação dos sofistas, afirmando que eles não tinham amor à sabedoria e nem respeito pela verdade. Na visão de Chauí (1994, p.37) “propunha que, antes de querer conhecer a Natureza, e antes de querer persuadir os outros, cada um deveria primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo.” Esse filósofo defendia que a formação humana deveria ser a “maiêutica”, ou seja, uma operação de trazer para fora as idéias, e
[...] o diálogo que se realiza por parte de um mestre [...] o qual desperta, levanta dúvidas, solicita pesquisa, dirige, problematiza, etc., por meio do diálogo, que abre para a dialética, para a unificação através da oposição, construindo uma unidade que tende a tornar-se cada vez mais rica (CAMBI, 1999, p.88).
A educação deveria possibilitar o diálogo e a sua radicalização, em processos cada vez mais profundos dos conceitos, permitindo, assim, a sua universalização, o que poderia resultar no “conheça-te a ti mesmo” e a sua realização humana, no plano individual e universal, consolidando o princípio da liberdade e da universalidade. Platão, um dos maiores filósofos atenienses (427-347), foi discípulo e o maior divulgador das idéias socráticas. No entendimento de Cambi (1999) esse pensador filosófico, elaborou “um grandioso sistema filosófico de base idealista (que coloca a prioridade da idéia em relação ao ser-experiência e, portanto, o desenvolvimento de uma especulação que reconquiste a pureza e a função teleológica das idéias) e o desenvolve através de belíssimos textos filosóficos-os Diálogos-, que retomam e reabrem os problemas metafísicos, éticos, políticos e lógico-gnoseológicos do idealismo platônico, levando-o a formulações cada vez mais críticas e mais profundas (CAMBI, 1999, p.89).
A filosofia platônica traz em sua essência dois projetos de educação: por um lado há uma proposta de educação voltada para a formação da alma individual, de influência socrática. Por outro há uma Paidéia de cunho político. Nos livros, Fédon, Fedro e no Banquete percebe-se que os conceitos teorizam sobre a formação da alma individual. No livro, A República e As Leis, o enfoque se refere à formação política do homem pela educação. Na sociedade que Platão idealizou existem três classes: a dos artífices e comerciantes, cuja maior virtude seria a temperança; a classe dos guerreiros, sendo a virtude, a coragem e, enfim, a classe dos filósofos, cuja maior virtude seria a sabedoria.
No momento em que os governantes da Pólis fossem os filósofos, e se a classe dos guerreiros fizesse bem a defesa da cidade, e se os artífices e comerciantes mantivessem as outras classes, existiria harmonia possibilitando, assim que a justiça fosse alcançada. Na República e nas Leis, Platão define o sistema educacional, o valor da poesia e da música, a utilidade das ciências, da filosofia e do filósofo. Esse pensador idealista defendia uma educação que fosse pública, os mestres deveriam ser escolhidos pela cidade e controlados por magistrados especiais. O ensino deveria durar 50 anos, sendo que até aos 6 anos deveria ser igual para meninos e meninas e, a partir desta idade, teriam mestres e classes diferentes. No entanto, a educação propriamente dita somente se iniciaria entre os 10 e 13 anos, quando a criança deveria aprender a ler e a escrever, e em seguida haveria o estudo sobre os autores clássicos e, para além dos poetas, o estudo deveria ser de autores em prosa.
Platão criticava o ensino baseado nos poetas Homero e Hesíodo, pois sustentava que os mitos não ensinavam a virtude, e davam uma idéia equivocada das divindades. Dos 13 aos 16 anos, a música deveria ocupar um lugar de destaque, pois ela contribui para a formação harmoniosa da alma, visto que para além do ensino do tom, do ritmo, abrangia a palavra falada, o logos. O estudo da matemática seria reservado ao grau mais elevado do ensino, embora devesse ser a matemática iniciada no grau elementar e ir sendo aprofundada a partir dos 16 anos até o mais alto grau. Aos 17-18 anos os estudos eram interrompidos para que os jovens fizessem o serviço militar. Aos 20 anos, mediante a seleção, quando os menos dotados permaneceriam no exército, outros seriam encaminhados para as diversas profissões e somente os mais dotados iniciariam os estudos superiores, mas não diretamente para a filosofia. Durante 10 anos estudariam sobre as ciências, em um grau superior. O currículo seria a aritmética, a astronomia e a música, a geometria (plana e no espaço). Os estudos dessas ciências seriam no plano racional, e não no âmbito da experiência prática. A matemática seria o instrumento da formação dos filósofos, capaz de transformar o espírito para receber a
verdade inteligível. Aos 30 anos, no fim do ciclo de estudo sobre a matemática e após uma última seleção, é que se inicia o método filosófico, a dialética, a discussão sobre o problema do bem e do mal, do justo e do injusto, e o caminho para o conhecimento e a verdade.
Após 5 anos os alunos, de posse da dialética, deveriam ser capazes de sobrepujar a percepção dos sentidos e penetrar na essência do Ser. E nos próximos 15 anos, este estudante deveria participar da vida da Pólis de forma efetiva, para adquirir experiência. E, finalmente, aos 50 anos, a educação estaria completa, e ele apto para exercer um cargo no estado, como dever. Nos Diálogos, percebe-se que o método de ensino platônico, que era a dialética, consistia em levar os alunos a descobrirem, por si mesmos, a resposta posta pelas problematizações, e à custa de aprofundamentos racionais, acharem um meio de superar as dificuldades no entendimento dos conceitos. A Paidéia platônica se baseia, portanto, na procura da Verdade, cuja posse caracteriza a essência do filósofo e do político.