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Antes da Revolução Republicana ter finalmente eclodido na China, em 1911-12, ela foi largamente preparada no Japão: tal como outros “modernizadores nacionalistas” que apareceriam por toda a Ásia, Sun Yat-sen (1866-1925) passou algum tempo no Japão a absorver novas ideias e a estabelecer uma base de apoio entre os chineses que ali estudavam e trabalhavam; por seu turno, os nipónicos estavam ansiosos por apoiar Sun e encorajaram o seu republicanismo.

A Revolução foi singularmente pouco violenta, em grande medida, porque a “velha ordem” tinha sido totalmente desacreditada: pertencendo os Qing à minoria Manchu, a maioria Han tinha aqui uma oportunidade para restabelecer a sua proeminência e o orgulho da “incomparável China”, bem como para introduzir a democracia e reformas institucionais de acordo com os padrões dos países mais poderosos e desenvolvidos (Fung, 1995: 182). Por outro lado, a Revolução Republicana foi uma consequência da integração forçada do país no mais amplo sistema internacional global que, por sua vez, teve como efeito fazer da

China mais um Estado-nação do que uma civilização imperial, tornando o nacionalismo um elemento chave da China moderna, em parte por questões de identidade e unidade, em parte para fazer face às pressões e aos desafios externos.

Sun Yat-sen proclamou a República da China e tornou-se o seu primeiro Presidente, em Janeiro de 1912. Do seu legado ideológico ressaltam, fundamentalmente, os chamados “Três Princípios do Povo”:

- o Princípio de Minzú, intimamente associado ao poder em nome do povo, à união do povo e ao nacionalismo. Pretendendo significar uma China livre da dominação

imperialista, deveria desenvolver-se um “nacionalismo cívico” por oposição ao “nacionalismo étnico”, unindo todas as diferentes etnias chinesas, nomeadamente os cinco maiores grupos – Han, Mongóis, Tibetanos, Manchus e Uígures Muçulmanos – que estão simbolizados na Bandeira das Cinco Cores da Primeira República (1911- 1928);

- o Princípio de Minchuán, associado ao poder do povo e à democracia, representando

uma adaptação do modelo Ocidental à China e dividindo-se em dois “poderes”: o poder

da participação política, pelo qual os cidadãos expressam a sua vontade, similar às

ideias de cidadania, direitos civis ou de parlamentarismo, representado institucionalmente pela Assembleia Nacional com competências de representação, eleição e legislação; e o poder da governação, fundindo Sun Yat-sen o modelo emanado da filosofia política Ocidental de separação e equilíbrio de poderes com a tradição administrativa chinesa imperial centralizada e baseada em três principais pilares (ou

Yuan) e que originaria, na República Chinesa, institucionalmente, um forte

Presidencialismo e os Yuan Legislativo, Executivo e Judicial;

- e o Princípio de Minsheng, associado ao poder para o povo, significando a prosperidade e o bem-estar de todos os chineses, por vezes, sinónimo de socialismo, equilíbrio social

ou Estado social.

Estes princípios estariam depois na base das ideologias do Kuomintang (KMT), do Partido Comunista Chinês (PCC) ou ainda da “República de Nanquin” tutelada pelo Japão (1940- 45): o KMT e o PCC estão basicamente de acordo nos princípios de Minzú (unidade) e de

Minsheng (prosperidade), mas com interpretações completamente díspares do princípio de Minchuán (democracia) e também na forma de alcançar os Três Princípios do Povo de Sun

Yat-sen.

A proclamação da República não impediu, contudo, que a China continuasse imersa em graves turbulências. O compromisso pós-revolucionário que levou Sun Yat-sen a sacrificar a sua liderança (Abril de 1912) a favor do General Yuan Shih-kai (1912-1916) em nome da unidade nacional e da estabilidade, não resistiu à rápida ascensão dos “Senhores da

Guerra” que retalharam a China e a lançaram, de novo, na anarquia e na desordem. Já depois de ter fundado, em Agosto de 1912, o Kuomintang (Partido Nacionalista), Sun Yat- sen regressaria à liderança da China a partir de 191726, mas num contexto de grande instabilidade e agravado por uma enorme disputa ideológico-intelectual de que são exemplo o chamado “Movimento do Quatro de Maio27 de 1919 e as divergências entre nacionalistas e comunistas. Inicialmente, o Kuomintang (KMT) - que corporizava o impulso nacionalista e assumia o poder na China - e o Partido Comunista Chinês (PCC, criado em 1921 e inspirado no Marxismo-Leninismo e na Revolução Bolchevique) até cooperaram no combate aos “Senhores da Guerra”. Após a morte de Sun Yat-sen, em 1925, o KMT passou a ser liderado por Chiang Kai-shek (1887-1975) que explorou o sentimento nacionalista para estabelecer um governo reformista em Nanquin. Em breve, a partir de 1927, começaria uma nova guerra civil, desta feita entre o KMT e o PCC.

Sem o apoio da União Soviética estalinista nem do Komintern28, o PCC perderia sucessivos confrontos para os nacionalistas. Estabelecidos na região de Kiangsi, os comunistas chineses suportaram as ofensivas ordenadas pelo “Generalíssimo” Chiang Kai-shek e, aproveitando a hesitação do KMT já mais preocupado com a perda da Manchúria e com as incursões japonesas, Mao Zedong, juntamente com seu comandante militar Chu Teh, resolveram-se por uma retirada. Começava, então, a famosa “Longa Marcha” (1934-36)29, o grande épico do movimento comunista chinês e da afirmação de Mao enquanto líder do PCC que transcendeu em importância o feito militar, provocando consequências políticas de longo-prazo nos destinos futuros do país e da região: assegurou a sobrevivência do movimento comunista na China; contribuiu para dar ao PCChinês uma doutrina e uma legitimidade distintivas face ao Comunismo Soviético; e forjou uma ampla autonomia comunista chinesa em relação a Moscovo, projectando Mao Zedong como o “grande

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Entre 1917 e 1918, enquanto “Generalíssimo” do Governo Militar; entre 1921 e 1922, como “Presidente Extraordinário”; e entre 1923 e 1925, novamente como “Generalíssimo” do Governo Nacional.

27 O “Movimento do Quatro de Maio” refere-se, especificamente, à massiva demonstração estudantil em Pequim,

em 1919, em resposta às “Vinte e Uma Exigências” do Japão na Conferência de Versalhes após a Primeira Guerra Mundial. A longo-prazo, este Movimento teria grande impacto na revolução intelectual na China.

28 Internacional Comunista criada em 1919 por Lenine para fomentar a Revolução Comunista mundial.

29 Combatendo ao mesmo tempo que se retirava, o Exército Vermelho conseguiu romper as linhas de cerco

nacionalistas. No total, estima-se que o Exército Vermelho - que nesta retirada chegou a roçar nas fronteiras do Tibete – tenha percorrido 10 mil km pelo interior da China em busca de um refúgio permanente. No trajecto, dizimados pela fome, pela doença - na travessia do monte Grande Neve, de 5 mil metros de altitude, o próprio Mao Zedong, muito doente com malária, teve que ser transportado em maca -, pelos combates e escaramuças que enfrentaram, apenas uns 8 ou 9 mil guerrilheiros, dos 80 mil que partiram de Kiangsi, sobreviveram, alcançançando Yenan, a capital da província de Shensi, no remoto Noroeste do país, meio mortos-vivos. A região semi-deserta, confinando com a Mongólia interior e protegida pela Muralha da China, serviu como um santuário ideal, distanciada o bastante para manter os comunistas a salvo dos ataques do Kuomintang. Posteriormente, Yenan tornou-se centro de uma infindável romaria de camponeses, intelectuais e estudantes, bem como de soldados e oficiais desiludidos com o falhanço do Governo de Chiang Kai-shek face aos japoneses.

timoneiro” e não como um peão da URSS, além de envolver o PCC numa aura de invencibilidade e indestrutibilidade aos olhos da população rural.

Simultaneamente, a China era novamente alvo da cobiça e da agressão do Japão, então potência hegemónica do Nordeste Asiático. Desde 1931, a pretexto de um incidente forjado num caminho-de-ferro, os nipónicos transformaram a Manchúria num seu “protectorado”: se bem que fosse proclamada, em 1932, a independência do Manchukuo, governado formalmente pelo último imperador Manchu Qing, Puyi (deposto ainda menino, em 1911), o Manchukuo não passava de um Estado-satélite do Japão. No mesmo ano, Shangai seria bombardeada pelos japoneses que depois invadiram também as regiões do Jehol (1933) e de Chahar e Pequim (1935).

Em 1937, o Japão avança para Sul e para Ocidente, onde sustenta os governos fantoches Municipal Dadao de Xangai e Federal Mongol do Príncipe Te. Iniciava-se, assim, uma nova guerra aberta entre a China e o Japão que, pouco tempo depois, se ligaria à mais ampla II Guerra Mundial com outro epicentro na Europa. Face à agressão e à política de terror impostas pelo Japão, nomeadamente, no decurso da brutal ocupação da capital Nanquin, em 1937, nacionalistas e comunistas chineses cessaram a luta entre si e passaram a combater juntos o invasor estrangeiro, numa típica aliança de sobrevivência que não duraria muito para lá da libertação da China e da derrota japonesa.

O Japão criou, entretanto, entre 1940 e 1945, um Governo colaboracionista conhecido por “República de Nanquin”30 que agregava e tinha nominalmente responsabilidade sobre as várias entidades que Tóquio estabelecera na China31 e era liderado por Wang Jingwei, um dissidente do KMT e rival de Chiang Kai-shek. Enquanto isso, durante a ocupação japonesa, o Governo Nacional da República da China de Chiang Kai-shek instalou-se em Chongqing, no interior do país, nova capital provisória da “China livre” (1937-1945) (ver, p.ex., Barret e Shyu, 2001; e Hsiung e Levine, 1992).