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Sammenfatning: Toleranse i velferdsstaten

In document FRA TABU TIL TAUSHET (sider 124-134)

Dentro do contexto metodológico de natureza participativa do presente estudo, podemos sustentar que o instrumento privilegiado para coleta de dados foi a observação participante. Conforme explicitado no título deste tópico, adjetivamo-la natural pelo fato de tal termo, de acordo com Marconi & Lakatos (1985/1999), e em oposição à observação participante artificial (denominação esta também proposta pelos referidos autores), subentender que o observador participante já pertencia ao grupo que irá investigar, o que significa dizer que o mesmo, quando da decisão pela realização da pesquisa, já era um membro ‘naturalizado’ do grupo.

Uma vez que alguns teóricos da pesquisa participante têm se preocupado em ‘distanciá-la’ da observação participante em razão de uma pretensa dissonância, tal como Grossi citado por Demo (1982), faz-se oportuno justificar por que optamos pelo emprego de tal instrumento num contexto de pesquisa participante - embora não cheguemos a nos posicionar em acordo com a opinião de Silva (1986/1991) de que pesquisa participante e observação participante sejam sinônimas, sendo que compreendemos a primeira como abordagem metodológica e a segunda como instrumento, cabe salientar que, ao adotarmos a observação participante simultaneamente como um instrumento de captação de dados e

de possível modificação social do meio estudado (Schwartz & Schwartz citados por Haguette, 1987/2001), estamos a entender, conforme Thiollent (1985/986) já havia sugerido, que esta se refere a um dos instrumentos metodológicos comumente utilizados pelos pesquisadores participantes, mesmo porque, independentemente das críticas que alguns destes possam dirigir a esta modalidade de observação, todos invariavelmente fazem uso de observação e necessariamente se inserem (ou já estavam inseridos) no contexto que se propõem a pesquisar. Desta forma, sustentamos que o problema não está no instrumento, mas sim nas intenções e na postura do observador participante, que pode perfeitamente ter como preocupação prioritária a mudança ‘positiva’ de situações ‘adversas’ que esteja a investigar, bem como pode estar a relacionar-se sinceramente com os participantes da pesquisa de maneira ‘horizontal’ e ‘igualitária’, e não de forma ‘vertical’ e autoritária, encarando-os, assim, como literais co-autores da pesquisa, e não como meros informantes.

Esclarecido nosso posicionamento em relação ao emprego da observação participante natural, destaquemos um ponto referente à maneira pela qual empregamos o instrumento que julgamos de suma importância ser ressaltado e justificado – utilizamo-lo de maneira “semi-encoberta”. De forma a esclarecer esta expressão, mencionemos que alguns autores, tal como Thiollent (1997) e Haguette (1987/2001), fazem referência à autenticidade e permissividade científica de se fazer uso, em determinadas situações, da observação participante denominada de ‘encoberta’, a qual consiste na não revelação por parte do pesquisador acerca de sua pesquisa para nenhum dos membros do grupo investigado. Indubitavelmente não foi este o nosso caso. Porém, podemos afirmar que fizemos uso de observação participante natural semi-encoberta, no sentido de que parte dos protagonistas que pertenciam ao contexto de produção estudado (dois dos três assediadores e quatro espectadores das situações de assédio moral no trabalho transcorridas) não foram informados acerca da realização da pesquisa. Embora estejamos cientes de que em relação a esta escolha podem advir críticas relacionadas à questão ética, justificamos que assim o fizemos conscientemente em vista de evitar a possibilidade de sermos proibidos de permanecer investigando a situação, já que se declarássemos as nossas intenções, muito provavelmente pelo menos um dos três gestores de maior nível hierárquico da área (dentre os quais dois foram identificados como assediadores), de fato nos coibiriam (de maneira mais ou menos ‘vigorosa’) de dar continuidade ou, se assim não ocorresse, possivelmente recorreriam a um comportamento ‘artificial’ ao tomarem conhecimento de que as interações socioprofissionais estavam a ser observadas, comportamento este que poderia vir a ocultar ou mitigar a ‘materialidade’ e gravidade do problema.

Uma última dimensão referente à observação participante natural que julgamos pertinente expor aqui se refere às vantagens que o emprego de tal instrumento trouxe à

pesquisa. Dentre uma série de vantagens comumente apontadas na literatura, relacionemos algumas das que se evidenciaram no transcorrer do trabalho de campo: (1) proporcionou ao pesquisador a oportunidade de participar de eventos que, de outro modo, seriam muito provavelmente inacessíveis à investigação de cunho científico (Yin, 1984/2005); (2) viabilizou, mesmo perante o conhecimento dos assediados e testemunhas participantes de que estavam sendo observados, que estes não apresentassem inibições diante da presença do pesquisador e, desta forma, se comportassem e desempenhassem suas atividades de maneira ‘natural’ (Richardson, Peres, Wanderley, Correia & Peres, 1985/1999); (3) possibilitou a percepção da ‘realidade’, por parte do pesquisador, do ponto de vista de alguém de ‘dentro’ do grupo (Yin, 1984/2005) e, desta forma, viabilizou ao observador a interpretação de acontecimentos singulares e aparentemente triviais em uma significação mais profunda (Marconi & Lakatos, 1985/1999); (4) permitiu o acesso a estratégias criadas no cotidiano dos participantes para lidarem com situações interacionais diversas que não ascendiam ao simbólico e, portanto, que não se materializariam como objeto de verbalização quando da situação posterior de entrevista (Sato & Souza, 2001); (5) permitiu, evocando a expressão de Ryle citado por Geertz (1973/1989), uma “descrição densa” das situações, no sentido de que grande parte das ocorrências singulares pôde ser interpretada levando-se em conta o contexto no qual se dava, impossibilitando, assim, por exemplo, que determinadas ações isoladas fossem interpretadas erroneamente como ‘brincadeiras inocentes’, ao invés de ações desestabilizadoras ou difamadoras características do assédio moral no trabalho.

Procedimentos

A coleta de dados, via observação participante natural, ocorreu entre 05/2004 e 04/2006, abarcando um período mínimo de 6 horas diárias (que foram excedidas em diversas situações nas quais o prolongamento da jornada de trabalho se fez necessário) em praticamente todos os dias úteis que transcorreram no período mencionado, excetuando-se somente um montante de 49 dias, subdivididos em três períodos de 15 dias corridos, nos quais o observador encontrava-se em férias e outros 4 dias que o mesmo não compareceu em razão de folgas adquiridas.

Quanto ao critério de registro das situações pertinentes, esclareçamos que a cada ocorrência que aparentava ter relação com o objeto da pesquisa – fossem caracterizadas por verbalizações, gesticulações, ‘externalização’ de emoções, gestos, confidenciações ou desabafos - recorria-se ao registro dos dados em um ‘diário de campo’, dentro do possível no momento imediatamente seguinte a tais ocorrências, usualmente no computador que

sempre estava ligado e disponível ao pesquisador por estar na condição de trabalhador e, eventualmente, em um caderno de notas, o qual era transcrito e passava a compor o corpus eletrônico a posteriori. Quando, por diferentes razões, não era possível o registro ‘imediato’, o mesmo era efetivado quando oportuno – no mais tardar logo após o término do expediente de trabalho. Acrescentemos, enfim, que embora evidentemente registrássemos no diário de campo acontecimentos que nos pareciam ter relação direta com situações de assédio moral no trabalho, já que inevitavelmente àquela altura já estávamos ‘embebidos’ pela teoria, efetivamos os registros sem a preocupação de estabelecer categorizações, uma vez que já havíamos previamente decidido, conforme sugere Erickson citado por Sato e Souza (2001), que tal preocupação só deveria vir à tona quando da análise dos dados para evitar ‘perder de vista’ certos detalhes aparentemente sem significado, mas que poderiam mais adiante apresentar a sua pertinência.

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