Justifica-se a adoção da entrevista semi-estruturada individual como instrumento complementar do presente trabalho pelas seguintes razões: possibilidade de uma compreensão mais ampla do ‘cenário’ investigado, já que, por intermédio deste instrumento, as ‘leituras’ não se bastaram nas realizadas pelo observador, mas consideraram as ‘leituras’ dos demais envolvidos nas situações que participaram da pesquisa; esclarecimento de determinados pontos que haviam suscitado dúvidas ao observador; meio entendido como mais adequado para se responder à questão norteadora de número 3, bem como para se aprofundar as respostas de todas as demais questões propostas.
Quanto à construção e adequação do instrumento em pauta, cabe destacar primeiramente que, por estarmos de acordo com Le Boterf (1980/1987) de que os instrumentos de coleta de dados, tais como os roteiros de entrevistas, não devem, num contexto de pesquisa participante, ser elaborados antecipadamente de forma desconectada ao projeto específico em questão, tanto o roteiro das entrevistas com os assediados (Anexo I) quanto o roteiro das entrevistas com as testemunhas (Anexo II) foram ‘confeccionados’ somente após findado o período destinado exclusivamente à observação participante, levando-se em consideração, assim, não somente elementos levantados mediante a revisão de literatura acerca da temática, mas também elementos diretamente relacionados com as situações reais consideradas. Um cuidado que procuramos ter em relação à ordenação de apresentação dos tópicos-guias referiu-se a iniciar a entrevista com questões mais simples e genéricas, deixando para abordar as questões mais delicadas e diretamente relacionadas
ao fenômeno um pouco ‘mais adiante’, num momento em que o participante provavelmente já estaria mais à vontade com a entrevista.
Outra informação que entendemos pertinente expor refere-se ao fato de, uma vez que optamos por dar início às entrevistas semi-estruturadas individuais somente após o período que entendemos como suficiente para a compreensão mais clara das situações via observação participante, ou momento no qual já não tínhamos mais dúvidas acerca da ‘materialidade’ de três das quatro situações de assédio moral no trabalho, as entrevistas com os assediados só vieram a ocorrer em fase mais avançada da pesquisa - no mês de 03/2006. Quanto às entrevistas com as testemunhas, que visavam, além de levantar a percepção das mesmas quanto à situação, validar alguns dos relatos dos assediados, ocorreram ainda mais a posteriori, ou seja, somente após a conclusão de todas as entrevistas com os assediados.
Procedimentos
Antes de se dar início a cada uma das entrevistas realizadas, não houve a necessidade de se introduzir os objetivos da pesquisa ou as intenções do entrevistador, tampouco a maneira pela qual se utilizaria os dados levantados, já que, face ao contexto participativo da pesquisa em pauta, todos os participantes, no momento da entrevista, já haviam discutido com o pesquisador e, portanto, estavam cientes e concordes com tais pontos. Entretanto, tomou-se o cuidado de questionar se havia alguma dúvida em relação a tudo o que já havíamos conversado anteriormente, reafirmar o compromisso com o sigilo em relação ao nome dos participantes, reiterar os agradecimentos pela participação e o fato de que, embora tivéssemos a intenção de, com base nos resultados levantados, chegar a recomendações que pudessem modificar ‘positivamente’ as situações adversas existentes, não poderíamos garantir que tais recomendações viessem de fato a ser implementadas, já que não dependeriam somente de nós, mas de diversas outras pessoas da instituição.
Ainda nos instantes introdutórios de cada entrevista, solicitamos a cada entrevistado a permissão para realizar a gravação digital do que seria conversado, esclarecendo-se que o intuito era tão somente a transcrição para posterior tratamento dos dados via análise de conteúdo categorial temática, técnica de tratamento esta que também já havíamos procurado esclarecer sinteticamente para cada participante em ocasiões anteriores. Neste momento, procuramos reafirmar, também, o compromisso de que os dados coletados e interpretados seriam divulgados no contexto acadêmico, mas que, fora de tal contexto, somente faríamos uso dos mesmos se obtivéssemos a prévia concordância de todos os participantes. Finalmente, neste momento precedente ao início de cada entrevista,
ressaltamos que, embora estivéssemos efetivando a gravação, o respondente poderia a qualquer momento solicitar a interrupção temporária da mesma, caso julgasse mais ‘confortável’ para relatar determinados assuntos, bem como que poderia haver interrupções da entrevista para fins de esclarecimentos de dúvidas relacionadas às questões.
Evidentemente, em face do aprofundamento desejado, não nos ativemos rigidamente aos assuntos relacionados ao tópico-guia, no sentido de dar a devida liberdade aos entrevistados para explanar assuntos correlatos que voluntariamente abordavam e, conseqüentemente, consideravam pertinentes. Entretanto, de forma a explorarmos de maneira mais aprofundada os aspectos de interesse que apareciam na fala do participante, recorremos a algumas técnicas sugeridas por Lodi (1970/1991) no transcorrer das entrevistas, tais como: (1) sumário - elaboração de um pergunta que resumia o trecho da resposta anterior do participante a fim de convidá-lo a centrar-se num ponto de interesse; (2)
clarificação - solicitação por uma elaboração mais aprofundada de algumas respostas que
haviam ficado ambíguas ou vagas; (3) confrontação - elaboração de questão que apresentava uma inconsistência percebida na resposta do participante, em vista do esclarecimento; e (4) repetição – repetição de uma questão previamente elaborada na tentativa de se obter respostas mais aprofundadas.
No transcorrer de cada uma das entrevistas observamos, ainda, alguns cuidados, enfaticamente recomendados por autores como Lodi (1970/1991), Garret (1974) e Gaskell (2000/2003): respeito aos ‘silêncios’ dos respondentes, no sentido de não apressar uma nova questão, dando o tempo necessário para que o entrevistado esgotasse tudo o que pretendia explanar, bem como respeito à ‘resistência’ por parte de alguns dos entrevistados em se aprofundar em determinadas questões, já que as mesmas remetiam ao sofrimento inerente às práticas hostis que haviam vivenciado e, portanto, caso insistíssemos, poderíamos acabar por ‘desmantelar’ inadequadamente alguma estratégia defensiva; atenção não somente ao que era dito, mas também aos gestos, suspiros, expressões e reações corporais que se evidenciavam como canais de ‘externalização’ de emoções, bem como aos não ditos, marcados sobretudo pelos silêncios mencionados anteriormente.
Uma vez que o entrevistador, na posição de colega de trabalho, tinha certa ‘intimidade’ com os entrevistados, quando do privilegiado momento da entrevista em que o gravador é desligado, nos casos em que o entrevistado não emitiu espontaneamente informações pertinentes adicionais, procuramos questionar abertamente se, aproveitando que o gravador já estava desligado, não existia mais algum assunto ou aspecto ‘delicado’ dos assuntos tratados que não havia sido abordado.
As entrevistas duraram cada uma, em média, 1 hora, excetuando-se somente uma delas - que teve uma duração de 1 hora e 42 minutos. Tal fato se deu em função de, quando da sinalização de finalização da entrevista por parte do entrevistador, momento em que este questionou a entrevistada se haveria algo que julgava pertinente a ser acrescentado, a participante ter espontaneamente dado continuidade por meio de acréscimos e reforços a algumas questões anteriormente tratadas.
Quanto ao local de realização das entrevistas, embora tenhamos sugerido, quando do agendamento das mesmas, realizá-las em ambiente externo ao contexto de produção, somente um dos entrevistados concordou que a mesma ocorresse de fato externamente. Todos os demais participantes preferiram realizarem-nas dentro do contexto de produção, o que fizemos sob as condições de que ocorressem após o expediente de trabalho e sem a presença de nenhuma outra pessoa na sala que não o entrevistador e o entrevistado em vista de, perante a ‘delicadeza’ da temática abordada, evitar quaisquer interrupções e constrangimentos aos participantes.
Finalmente, do ponto de vista procedimental, ao final de cada entrevista reiterou-se novamente os agradecimentos pela participação em mais esta etapa da pesquisa e a garantia quanto à confidencialidade.
2.4.3. Uma das Principais Vantagens advindas do Uso Combinado da