Tendo a noção de segurança tomado forma com base nas já mencionadas práticas de governamentalidade, eu gostaria agora de situar o Brasil Urgente enquanto parte de uma prática de promoção de segurança específica, o que lhe garante certa noção de serviço público atrelada às suas práticas.
Em primeiro lugar, em quase todas as reportagens que envolvem o comandante Hamilton cobrindo ocorrências de trânsito em São Paulo temos passada a ideia de que o programa está lá para não somente reportar, relatar, ou auxiliar a polícia, mas, também, orientar a população a evitar regiões que registrem acidentes ou trânsito intenso.
Além das participações do comandante Hamilton, é notável em uma variedade de casos, como em alguns dos apresentados até este momento da dissertação, certas marcas de ação ou aconselhamento de certa maneira pastoral por parte do Brasil Urgente e de seu apresentador. Em várias participações opinativas dele há conselhos acerca de, por exemplo, a conduta dos pais em relação aos seus filhos, explicações sobre as ações policiais, colocações sobre os procedimentos e problemas da Justiça e da política brasileira. Ao abordar condutas diversas, o Brasil Urgente parece colocar sua cobertura também em termos de práticas pastorais.
Há um exemplo que pode nos ajudar a entender quais bases pastorais, quais termos de aconselhamento de conduta, temos presentes no Brasil Urgente. Em 25/05/2010, quando o programa conta a história do assassinato de um idoso por sua empregada doméstica, o apresentador comenta acerca de certa função de seu programa: “expondo os podres da sociedade, quem sabe a sociedade melhore”. Dessa maneira, Datena atesta que busca mesmo expor os seus já mencionados anormais, buscando, por sua exaustiva exposição, não apenas mostrá-los, mas procurando ajudar a sociedade a extirpar seus males.
Por esses e diversos outros exemplos, podemos ver nas reportagens do Brasil Urgente certa noção de serviço público, uma vez que o apresentador se mostra disposto a mostrar as ações policiais e, na medida do possível, explicá-las. Além disso, ao proceder a denúncias variadas para buscar criminosos, o Brasil Urgente contribui para o funcionamento da Justiça.
No dia 16/06/2010, o apresentador, ao comentar um caso de execução e tortura no interior de São Paulo, faz uma observação interessante: “sabe por que eu sou repetitivo? Porque os crimes no Brasil se repetem todo o dia”. Tomando essa colocação como base, de acordo com a visão do apresentador o caráter repetitivo das reportagens do programa se deve à constante ocorrência de crimes que mereçam menção do Brasil Urgente. Dessa maneira, a visão do apresentador é corroborada, uma vez que o programa existe para expor esse tipo de ocorrência enquanto prática efetiva de constante exposição pública de tais crimes.
Em um caso que teve reportagens por três dias consecutivos, iniciadas em 21/06/2010, o programa relata a história de uma funcionária de Sílvio Santos que morreu após se submeter a uma cirurgia de lipoaspiração. A primeira reportagem tinha a seguinte manchete: “BELEZA QUE MATA! MULHER FAZ LIPOASPIRAÇÃO E MORRE APÓS RECEBER ALTA”. Vale ressaltar que foram quatro reportagens sobre esse caso apenas nesse dia. A reportagem do Brasil Urgente conseguiu falar com o médico responsável pela cirurgia, que ameaçou a reportagem do programa com um processo. Diante disso, o apresentador, ciente da correção da conduta da reportagem em sua investigação, diz, em tom de ironia:
[...] doutor, nós estamos morrendo de medo do processo que o senhor vai mandar na gente [...] o senhor devia estar preocupado com o processo que o senhor vai levar da família, porque a sua paciente morreu.
Essa ameaça do cirurgião ao programa foi repetida diversas vezes nesse mesmo dia. Em outra reportagem de 21/06/2010 o Brasil Urgente conta histórias de outras mulheres que tiveram cirurgias plásticas malsucedidas, ressaltando assim seus perigos. No dia seguinte, duas reportagens veiculadas dão conta de outras vitimas do mesmo cirurgião, mostrando também seu cartão de médico, identificando-
o. Essas reportagens dão alguns pormenores de processos movidos contra esse médico, criando um quadro relativamente vasto da carreira e dos problemas enfrentados por esse médico.
Com base nesse e em outros casos, podemos, então, identificar alguns mecanismos de governamentalidade no Brasil Urgente. Uma vez que a governamentalidade opera com mecanismos de segurança, quais seriam esses tendo o Brasil Urgente como foco central? Acredito que eles tenham de, de alguma maneira, atravessar a ideia de serviço público colocada pelo programa, que pode se manifestar desde a cobertura aérea de ocorrências, até denúncias como vistas no caso do cirurgião citado acima. Isso porque esse tipo de ocorrência almeja, em última análise, proteger de certo modo a população, expondo elementos que não são dignos de sua confiança.
Dessa maneira, esse tipo de programa se atribui a função de proteção da população, como colocado em diversas circunstâncias pelo apresentador e pelas reportagens, passando valores de boa conduta, adesão às práticas da Justiça e respeito às autoridades policiais, ao mesmo tempo que rechaça e expõe os que não estiverem aderindo a tais práticas. Isso reforça, por outro lado, a característica de pastoralidade transmitida pelo programa, uma vez que este expõe as infrações e aconselha em direção à boa conduta.
Se tomarmos esse tipo de programa enquanto parte de um agenciamento, deve-se, então, buscar entender as ligações que o constituem. Nesse sentido, a cobertura das ações da polícia na televisão traz uma série de instituições que também operam poderes por tais programas televisivos. Assim, como em diversos exemplos mostrados, temos as ações da Justiça e as constantes defesas do apresentador do cumprimento e execução estrita da Justiça nos termos da lei. Em contrapartida, são constantes as críticas por parte do apresentador à classe política brasileira, por, entre outros motivos, constituir um: “Estado fraco que não faz leis fortes”, que não pune devidamente seus criminosos. Da mesma forma, ainda no dia 25/06/2010, o apresentador faz uma defesa da população, uma vez que sustenta que seu programa mostra que nem ricos nem pobres tem segurança pública assegurada. Para Datena, que nos conta uma ocasião em que conversou com o ex- presidente Lula:
[...] a violência tá na rua [...] ninguém paga para as pessoas serem estupradas, violentadas e fazerem parte de um show de horrores na TV [...] isso aqui não é uma novela barata não, essa é a novela da realidade brasileira.
Nesse sentido, o Brasil Urgente e o discurso de seu apresentador operam dentro de um agenciamento que preza pela benesse da segurança, ressaltando a necessidade de leis melhores para assegurar punição a criminosos; por ressaltar a necessidade de eleger políticos melhores para aprovar leis mais eficazes; por clamar por mais juízes de direito, para que o processamento de ações seja mais eficaz e rápido; além disso, por reportar problemas sobre escolas e hospitais, instituições estas que estão no dia a dia da população, e o apresentador reclama melhorias para elas; finalmente, por ressaltar o importante e essencial papel das famílias e das forças policiais na promoção dessas práticas de segurança. Estas duas últimas instituições serão vistas com mais atenção na próxima seção.