6 Resultatdiskusjon
6.3 Individualitet og fellesskap
O percurso desta pesquisa de mestrado ressaltou apenas alguns dos aspectos do complexo problema das relações de poder que são estabelecidas e atravessam o campo da cobertura das ações policiais na televisão. Isso se deu não só pela limitação do universo empírico em que a análise se fundamenta, o programa Brasil Urgente, mas, também, pela base teórica que foi trabalhada.
Para situar esse objeto de pesquisa, procurei inicialmente colocar o meu trabalho de conclusão de curso, junto com sua base teórica, para depois trazer contribuições de outros autores, com abordagens que tiveram maior relevância para esta dissertação. Além disso, ainda na parte inicial, alguns dos principais apresentadores e programas desse tipo no Brasil foram ressaltados com base em sua notoriedade dentro do campo da cobertura televisiva.
Ademais, as relevantes contribuições de outros pesquisadores brasileiros dedicados a essa área apresentaram aproximações válidas aos problemas e contradições do telejornalismo policial, seja por meio das duas dissertações de mestrado aqui citadas ou pelos trabalhos de outros pesquisadores, como Muniz Sodré (1978) ao trabalhar o grotesco enquanto elemento característico da cultura de massa nacional; Maria Victoria Benevides (1983), ao retratar a cobertura da violência no Brasil sob uma perspectiva histórica e por analisar a fala tanto acerca da violência policial como dos bandidos. Além desses, Elizabeth Rondelli (1998) traz a banalização da violência mostrada na televisão por sua veiculação regular, sendo que a prática discursiva dos veículos de comunicação é parte da mesma linguagem da violência que contribui para as nossas práticas sociais, fazendo, assim, da violência uma fonte de significação cultural.
Outra contribuição significativa foi dada por Pierre Bourdieu (1997), ao colocar problemas específicos relacionados ao campo televisivo e o caráter homogêneo de suas mensagens. Além disso, ao salientar alguns dos problemas do campo da indústria cultural e mostrar suas motivações próprias, questiona o caráter de sentido público passado por tal meio de comunicação por almejar a maior rentabilidade em termos de audiência e, justamente por essa necessidade de alcançar mais
consumidores, tende a focar assuntos-ônibus: dessa maneira, a massificação da audiência é preferida em detrimento da programação televisiva. Ademais, uma observação bastante interessante de Bourdieu (1997) é relacionada ao caráter confiável e de aparência idônea passado pelos âncoras de programas televisivos: estes, além de abordarem uma variedade de assuntos, preenchem funções dentro da economia das trocas simbólicas e possuem inegável respaldo positivo de sua audiência.
Deleuze e Guattari (2002), por terem trazido a complexa contribuição conceitual dos agenciamentos, que devem ser compreendidos nos termos dos seus elementos constituintes e das ligações que os compõem, proveram uma relevante ferramenta de análise para essa dissertação. Além disso, as pesquisas de Michel Foucault acerca da constituição da anormalidade (2002) e da governamentalidade (2008), além da noção de dispositivo (CASTRO, 2004), também tiveram contribuição importantíssima para este trabalho.
***
Foi a partir de leituras destes últimos autores que o desenvolvimento da dissertação tomou corpo, uma vez que foi com base na noção de homens infames que foi concebida a ideia de um encontro com os poderes instituídos por meio da cobertura televisiva das ações policiais. Além disso, foi necessário recorrer às noções de dispositivo e agenciamento, colocadas por Foucault, Deleuze e Guattari, respectivamente, para trabalhar com esse tipo de cobertura televisiva no Brasil, uma vez essas noções contribuem para o entendimento desses encontros com o poder e com a análise que se seguiria.
No segundo capítulo a intenção foi expor os anormais tal como são construídos pelas reportagens do Brasil Urgente. Ademais, também foi ressaltada a construção da figura do rosto da maldade, manifestada, em especial, entre pedófilos e os chamados maníacos, em meio à batalha exposta diariamente pelo programa entre a normalidade mostrada e defendida pelo apresentador em contraposição à anormalidade de comportamentos criminosos que são retratados e atacados nos programas, com base em fundamentos jurídico-médico-morais.
Em paralelo à constituição dos anormais no formato retratado pelo Brasil Urgente, temos a propagação de diversas práticas de segurança, que são, como trabalhadas por Foucault (2008), derivadas de práticas de governamentalidade que permeiam uma variedade de príncipes, dos governantes aos chefes de família. Entre essas diversas práticas de segurança, temos o caráter de serviço público que o programa adota por fornecer informações de trânsito, por mostrar alguns procedimentos da instituição policial, e, talvez o mais importante, pelo apresentador comentar sobre segurança em geral, seja no ambiente privado ou público.
Além disso, as reportagens e o discurso proferido pelo apresentador, em termos de segurança, são direcionados, principalmente, para a família, enquanto alerta dos perigos que a ameaçam por fora e por dentro ou para salientar comportamentos exemplares de alguns de seus membros, e para a instituição policial, mostrando seu funcionamento e suas práticas em uma base diária, além de contar com a participação de pessoas que trabalham no meio policial, realçando, assim, a relação entre o programa, seus repórteres e o âncora com esses profissionais. Ademais, quando o programa aborda algum caso de corrupção ou má conduta policial, é sempre enfatizado o esforço da instituição policial na investigação de tais casos buscando assegurar a limpeza da instituição e uma punição severa e justa para o mau policial.
Por fim, no quarto capítulo, a intenção foi colocar esse tipo de programa televisivo, que possui o atributo de promover encontros com o poder por meio de sua cobertura, enquanto detentor de práticas próprias das sociedades disciplinares e das de controle. Ou seja, por meio da prática discursiva construída pelo Brasil Urgente, foi possível identificar práticas marcantemente disciplinares, como as de reclusão, estimuladas pelo apresentador em diversas circunstâncias.
Além disso, foi também constatado nas reportagens do programa características próprias da sociedade de controle, como a ágil cobertura aérea feita pelo comandante Hamilton enquanto sobrevoa São Paulo, além da interação por SMS, que permite aos telespectadores fazer denúncias e expressar sua opinião por acender e apagar as luzes de sua casa repetidamente para uma instância que não é uma autoridade constituída, pois se trata de um programa televisivo. Essa observação acerca das práticas das sociedades de controle se deu porque, se por um lado pode-se colocar a cobertura das ações da polícia na televisão enquanto
propagadora de práticas disciplinares, por outro, deve-se considerar também que esse dispositivo atua de maneira diferente tendo em vista a produção e a utilização de novas tecnologias, como o do uso de helicópteros para fazer reportagens e telefonia celular para promover interação com sua audiência.
Ademais, a noção do panóptico de Bentham, nesse caso invertido, permite aos telespectadores, repórteres e âncora reunir a totalidade do foco do raio que circunda o centro, para uma única direção: trata-se de um ponto de interesse, uma vez que esse ponto é, normalmente, um alvo, um criminoso, que receberá os ataques de todas essas partes que o cercam devido ao seu comportamento transgressor. Além dessa noção de panóptico invertido, vale ressaltar, também, que por meio da mesma estrutura constituinte do programa temos por vezes a impressão de verdadeiras execuções feitas durante o programa. Isso porque o programa apresenta o caso, em geral contando com o depoimento de alguma testemunha ou alguém relacionado à vitima ou ao criminoso, e depois mostra provas acerca do passado e do presente do criminoso que o ligam de modo direto à sua ação. Depois, há a parte em que o âncora profere sua opinião ou o depoimento de alguma autoridade competente, que, normalmente, corrobora a expressa noção de perigo relacionada ao criminoso em questão. Por fim, no decorrer do programa inteiro faz- se notável, também, a presença do público, seja exigindo punições mais severas para os criminosos apresentados ou corroborando os julgamentos do apresentador em diversas circunstâncias.
Nesse sentido, por se tratar de uma cobertura televisiva que é atravessada por relações de poder cujos dispositivos foram descritos, seria razoável colocar a cobertura das ações da polícia na televisão, no formato já estabelecido do Brasil Urgente, entre outros programas, em uma confluência de práticas advindas das sociedades disciplinares, bem como de práticas originárias das sociedades de controle.
REFERÊNCIAS
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos Tradução: Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 99-138. ______. The culture industry: enlightment as mass deception. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks. Oxford: Blackwell, 2006. p. 41-72.
ARBEX JR. J. Showrnalismo – a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.
BARTHES, R. Operation Margarine. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006a. p. 99-100.
______. Myth today. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006b. p. 100-106.
BENEVIDES, M. V. Violência, povo e polícia (violência urbana no noticiário de imprensa). São Paulo: Brasiliense/Cedec, 1983.
BENJAMIN, W. The work of art in the age of mechanical reproduction. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks. Oxford: Blackwell, 2006. p. 18-40.
BOURDIEU, P. Sobre a televisão – seguido de A influência do jornalismo e Os jogos olímpicos. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
______. Introduction. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006a. p. 322-325.
______. The aristocracy of culture. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006b. p. 325-327.
______. On television. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – Keyworks.Oxford: Blackwell, 2006c. p. 328-336.
CASTRO, E. Vocabulário de Foucault. Tradução: Ingrid Müller Xavier. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
COSTA, M. T. P. A justiça em ondas médias: o programa Gil Gomes. 1989. Disponível em: <http://cutter.unicamp.br/document/?code=000018033>. Acesso em: 27 set. 2011.
DEBORD, G. The commodity as spectacle. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006. p. 117-121.
DELEUZE, G. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações 1972-1990. Tradução: Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1992. p. 219-226.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Tradução: Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Ed. 34, 1995. v. 2.
______. Kafka – para uma literatura menor. Tradução: Rafael Godinho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.
DYER, R. Stereotyping. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006. p. 353-365.
ENGELS, F.; MARX, K. A ideologia alemã. Tradução: Luis Cláudio de Castro e Costa. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
______. The ruling class and the ruling ideas. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006a. p. 9-12.
______. Ditos e escritos. Tradução: Vera Lúcia Avellar Ribeiro. São Paulo: Forense Universitária, 2006b. v. 4.
______. Ditos e escritos. Tradução: Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa. São Paulo: Forense Universitária, 2006c. v. 5.
______. Ditos e escritos. Tradução: Ana Lúcia Paranhos Pessoa. São Paulo: Forense Universitária, 2010. v. 6.
FOUCAULT, M. A vida dos homens infames. In: ______. O que é um autor? Lisboa: Passagens. 1992. p. 89-128.
______. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
______. Segurança, território, população. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
______. Sobre a justiça popular. In: ______. Microfísica do poder. Organização e tradução: Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2009. p. 39-68.
______. Vigiar e punir – nascimento da prisão. Tradução: Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2010.
GRAMSCI, A. History of the subaltern classes. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006a. p. 13-14.
______. The concept of ideology. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006b. p. 14-16.
______. Cultural themes: ideological material. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006c. p. 16.
LIMONGI, M. I. A racionalização do medo na política. In: NOVAES, A. (Org.). Ensaios sobre o medo. São Paulo: Ed. Senac, 2007. p. 135-152.
MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2003.
MCLUHAN, M. The medium is the message. In: KELLNER, D.; DURHAM, M. (Ed.). Media and cultural studies – keyworks.Oxford: Blackwell, 2006. p. 107-116.
NEGRINI, M. Autoridades sob o olhar de Datena: uma análise do discurso do
programa Brasil Urgente. Disponível em:
<http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/rumores/article/viewFile/6477/5899>. Acesso em: 26 abr. 2011.
NEGRINI, M.; TONDO, R. O apresentador espetáculo: o discurso de José Luiz Datena. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 4, n. 1, p. 23-32, 2007. NIETZSCHE, F. A genealogia da moral. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008a.
______. A vontade de poder. Tradução: Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José Dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008b.
NOVAES, A. Políticas do medo. In: NOVAES, A. (Org.). Ensaios sobre o medo. São Paulo: Ed. Senac, 2007. p. 9-16.
OLIVEIRA, D. D. Jornalismo policial na televisão: gênero e modo de endereçamento dos programas Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta. 2007. Disponível em: <http://poscom.tempsite.ws/wp-content/uploads/2011/05/Dannilo-Duarte-
Oliveira.pdf>. Acesso em: 27 set. 2011.
RONDELLI, E. Imagens da violência – práticas discursivas. Tempo Social, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 145-157, out. 1998.